Marcado: Democracia

Dolce & Gabbana – só “para inglês ver”

Por Imani Zoghbi

Dolce & Gabbana

No início deste ano, dois colegas da Cásper me enviaram um link de uma matéria e pediram meu parecer. A matéria dizia que a grife Dolce & Gabbana havia criado “uma coleção para muçulmanas” (e eles se lembraram de mim por conta das minhas origens árabes e o meu amor pela moda). A coleção se chama ‘Abaya’, em referência às túnicas árabes que cobrem o corpo, e contém além de longas vestes, os ‘hijabs’ (ou véus). Depois de ler a matéria, fiquei um pouco pensativa.

Minha mãe me contou há tempos que as grandes marcas de alta costura (maiores que a Dolce & Gabbana) sempre fizeram coleções e desfiles exclusivos para as muçulmanas mais endinheiradas do mundo. Coleções que, aliás, não têm véu – o que há por baixo das burcas muitas vezes são as roupas mais caras do mundo, que elas ostentam quando estão dentro de suas casas ou das amigas. As mulheres árabes sempre foram as maiores consumidoras da alta costura.

Minha mania de ler comentários me levou a encontrar toda a sorte de opiniões, desde que “a marca está na pindaíba, está apelando para os terroristas endinheirados”, risos, até que “este é um passo democrático, virei fã”. Coloco-me em dúvida já que, sim, a marca anda passando por maus bocados – há algum tempo teve até que extinguir uma de suas frentes, a maravilhosa D&G. Por outro lado, não se pode desconsiderar algumas polêmicas protagonizadas pelos estilistas, que são um ex-casal gay, mas em uma entrevista de 2015 se declararam contra famílias formadas por homossexuais, bebês de proveta ou barrigas de aluguel.

Portanto, Domenico Dolce e Stefano Gabbana, gosto muito das roupas que vocês fazem, mas vocês não me compraram. Esse discurso de “nossa que cool, que marca plural” não me convence, não. Tudo isso é só “pra inglês ver” (ou ocidental, nesse caso), quanto esforço!

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Liberdade para os fracos, democracia para os poderosos

por Marina Neto

Muitos hacktivistas traçam paralelos diretos entre suas ações e atos de desobediência civil. Porém, esses legionários da web normalmente veem o ciberespaço como mais um canal útil para protestos pacíficos em prol de liberdades civis, incluindo também como um espaço público.

A ideia dos hackers é tornar este espaço digital mais democrático.

 Por causa do alto fluxo de mensagens a todo instante, seja pelas redes sociais conectadas em PC ou em dispositivos móveis, é quase difícil de censurar a natureza da internet como um canal natural para obter uma mensagem a um público mais vasto.

Além disso, como a internet pode ser vista como uma plataforma distribuída, os atores do ativismo digital são os verdadeiros transformadores da web como uma plataforma ideal para o discurso democrático. E uma das únicas que nos resta hoje em dia.

Aqueles que enxergam o hacktivismo puramente como desobediência civil, conseguem apenas reconhecer que às vezes causa um prejuízo financeiro para uma ordem ou sociedade, mas promove a analogia com protestos do mundo real, greves e vandalismo político em que alguns não estão envolvidos no custo de algumas ações radicais. Tais atos não são (geralmente) confundidos com atos de terror no mundo físico, e suas ações, excepcionalmente, não devem ser confundidas com ciberterrorismo.

Existem concepções do ativismo na internet totalmente deturpadas, que segundo Assange (2013)[1], o discurso da luta pela democracia na Internet é uma guerra invisível, mesmo quando se tem uma grande exposição de informações pelas mídias digitais.

Além de facilitar a liberdade de expressão, alguns usuários da internet ainda sentem que é seu dever proteger a liberdade de expressão ou demonstrar em favor do mesmo, conforme detalhado pela tese de Alexandra Samuel (2008) [2]. Na verdade, os ataques realizados pelo coletivo Anonymous contra as empresas de cartão de crédito que se recusam a atender WikiLeaks são centrados nessa ideia de expor a Internet que conhecemos como um espaço público para exposição de ideias e compartilhamento de conteúdo.

A desativação da internet durante períodos de revolta popular, como no Egito, sugere ainda que o ativismo digital é visto pelos governos como um canal fundamental para a distribuição de informação livre e que não parecem aprovar muito o processo.

Em suma, um significado importante de hacktivismo para o mundo é que se tornou uma forma de manifestação da plataforma da liberdade de expressão global pela Internet.

Não podemos negar que ainda somos detentores de um poder em um maior nível de transparência de informações e do discurso livre que pode ser visto, lido e compartilhado pelo mundo.

 

[1] Citação atribuída na obra “Cyberphunks: Liberdade e Futuro na Internet”, de Julian Assange, 2013.

[2] Professora da Universidade de Harvard e PhD em Ciências Sociais. Especialista em movimentos de ciberativismo pelo mundo. Seu trabalho pode ser visto em http://alexandrasamuel.com/dissertation/pdfs/Samuel-Hacktivism-entire.pdf. Acesso em 19 de Maio 2015