Marcado: cinema

O campo de várzea e sua importância para a comunidade

Por Sheyla Melo
 Exibir esse documentário é fazer as pessoas se identificarem na tela e permitir um significado muito maior a arte, diz o diretor Akins Kintê.

 

Ele destaca a importância da identificação da produção quando sua exibição acontece nas periferias da cidade, o documentário é Várzea, bola rolada na beira do coração (2010) que quando é exibido nas quebradas as pessoas imediatamente se identificam.
18740066_773709042804305_1918919359068776774_n
Akins na roda de conversa sobre o documentário – imagem Cine Campinho

Os campos de várzea estão em diminuição, principalmente pela especulação imobiliária, o poeta Akins destaca a sua importância como ponto de encontro, sendo um dos poucos espaços de lazer e cultura.

Visto também como um espaço de disputa política, os poucos campos sofrem com políticos que organizam melhoras para o campo e acabam destruindo as forças das lideranças locais, para Kintê o sintético permite um melhor uso do campo, mas é preciso que as pessoas venham de coração aberto e que não da pra aceitar aqueles que querem cobrar para os outros usarem o campo.

Sobre a participação das mulheres no campos de várzea, ele afirma que os homens precisam mudar, pois tem muita mulher que vai para beira do campo porque gostam do futebol, de estar no local e não por interesse de se relacionar com ninguém, esse é um ensinamento que todos precisam aprender o mais rápido possível.

O encontro aconteceu 27/05/2017 e seu ponto de vista sobre os campos de várzea, política, participação da mulheres e o deslocamento pela cidade estão na íntegra na radioteca abaixo:

Sem picador de gelo, é com pincel

nise

A Dra. Nise da Silveira com seus muitos gatos

Por Paula Ribas
Fim de semana passado fui assistir ao filme Nise – o coração da loucura, dirigido por Roberto Berliner, tendo como protagonista a atriz Glória Pires, que se empresta a nos transmitir um pouco do que foi essa médica revolucionária.
nise_1

Cena do filme com atriz Glória Pires, em meio a produção de imagem dos pacientes ou dos “clientes” como ela preferia chamar.

Durante a ditadura militar, época em que se praticava tratamento psiquiátrico com a incisão de picador de gelo no cérebro dos doentes, método conhecido como lobotomia, Nise usou os pincéis, tintas e argila para entender o que se passava dentro da mente de pessoas tidas como doentes mentais. A doutora aplicou as ideias e as práticas do psiquiatra Suíço, Carl Jung (1875 – 1961), com quem trocou muitas cartas.  Tornou-se aluna, aprofundou os estudos sobre a psicologia analítica e foi pioneira em trazer tal conhecimento ao Brasil. Assim, liberando seus clientes (assim chamava os doentes internado na clínica) por meio da expressão e libertando pessoas das “torturas impostas na época” com choques e sofrimentos para o corpo e a mente.

A brasileira Nise da Silveira, médica psiquiátrica renomada, mas sobretudo uma humanista preocupada com os excluídos deixou uma metodologia e revolucionou a luta antimanicomial. Com o apoio de muitos, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, no mesmo local onde atuou com seus clientes, no centro Psiquiátrico Pedro II, hoje conhecido como Centro Nise da Silveira. Sua vida foi retrata em diversos documentários, artigos, entrevistas e livros, como Nise -Arqueóloga dos Mares, do jornalista e escritor Bernardo Carneiro Horta. 

Jung02

Dra. Nise com Jung apresentando os trabalhos dos pacientes

Recomendo o filme,  para que conheçam essa brasileira que fez Jung se encantar pelo trabalho desenvolvido pela doutora no Brasil. A tal ponto que o próprio a convidou para expor as obras dos internos na Suíça, durante o II Congresso Internacional de Psiquiatra em Zurique, em 1957.  Tendo a oportunidade de divulgar a diversos especialistas do mundo, os bons frutos do trabalho pioneiro da psiquiatra brasileira.

Os magnatas do cinema

Por Imani Zoghbi

Estreia Kane

O Filme Cidadão Kane traz um dos primeiros magnatas da história do cinema. Posteriormente, outras obras de diversos gêneros, retratando as mais diversas épocas, trazem personagens que possuem alguma inspiração ou semelhança com o personagem principal de Welles. Confira alguns exemplos:

O Grande Gatsby

Baseado no livro de F. Scott Fitzgerald. 5 versões para o cinema e uma para a TV. Versões mais famosas: 1974 roterizado por Fitzgerald e Francis Ford Coppola, com Robert Redford e Mia Farrow; 2013 de Baz Luhrmann com Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan.

A história de F. Scott Fitzgerald retrata a década de 20. O personagem principal, Jay Gatsby, é um misterioso magnata e sua fortuna causa curiosidade. Ele inventa uma história e uma persona para si, justificando sua fortuna. Festas como nunca vistas antes aconteciam em sua mansão, cheias de luxo e glamour. Uma icônica cena na parte final, de Gatsby jogando um numero incontável de camisetas pólo para cima, de todas as cores, capta a verdadeira essência do significado de magnata.

 

O Poderoso Chefão

1972, Francis Ford Coppola

Quando por magnata entendemos alguém que possui, além de dinheiro, muito poder, não podemos deixar de citar o filme de Francis Ford Coppola. Assim como Cidadão Kane, O Poderoso Chefão está sempre presente no topo das listas de melhores filmes da história. Don Vito Corleone, o personagem principal, era considerado “padrinho” de muitas pessoas, como diz o título da obra em inglês, Godfather. Este título lhe foi dado porque só ele conseguia, utilizando-se de seu poder, que algumas coisas fossem realizadas. Quando não dependia de poder e influência, dependia de dinheiro, coisa que ele também possuía.

 

Prenda-me Se For Capaz

2002, Steven Spielberg. Baseado em fatos reais.

Baseada na vida de Frank Abagnale Jr., e estrelado por Leonardo DiCaprio. O protagonista, antes de chegar aos 19 anos de idade, na década de 60, conseguiu milhões de dólares alegando ser médico, advogado e piloto de avião. Seu principal crime foi falsificação de cheques; ficou tão experiente e habilidoso que o próprio FBI o procurava para ajudar na captura de outros falsificadores. Apesar de muito bem sucedido em seus golpes, é perseguido por um agente do FBI, vivido por Tom Hanks.

 

O Lobo de Wall Street

2014, Martin Scorcese. Baseado em fatos reais.

Jordan Belfort, personagem de Leonardo DiCaprio, trabalhou duro para ser contratado por uma corretora de Wall Street. Quando finalmente consegue, as bolsas de diversos países caem repentinamente e ele fica sem emprego. Belfort decide então montar uma empresa de fundo de quintal, destinada a trabalhar com papéis baratos de empresas que não entram na bolsa de valores. Reúne amigos de velhos tempos e nessa empreitada começa um negócio com retorno muito rápido, que lhe dá além de dinheiro e status, muito poder para corromper quase todas as pessoas necessárias para que ele continue triunfando. O visionário Jordan passa a dedicar então toda a sua vida ao prazer.

 

VIPs

2011, Toniko Melo com Wagner Moura

VIPs – histórias reais de um mentiroso

Documentário, Mariana Caltabiano

A história de Marcelo Nascimento Rocha é quase inacreditável. Com um talento impressionante para inventar histórias, o paranaense começou dando pequenos golpes e atingiu o “ápice de sua carreira” ao enganar o apresentador Amaury Jr. no Carnaval do Recife, em 2001, fingindo ser Henrique Constantino, filho do dono da Gol. Isso se deu porque ele tinha problemas com a própria identidade, e resolveu criar outras personalidades em diversos meios.

O episódio fez com que a escritora Mariana Caltabiano procurasse por Marcelo em 2003, período em que o rapaz, então com 29 anos, estava preso. A escritora gravou as doze horas de entrevista que resultaram no livro “Vips – Histórias Reais de um Mentiroso”, lançado em 2005. O filme estrelado por Vagner Moura, lançado em 2011, é baseado no livro de Mariana. No mesmo ano, a escritora lançou o documentário homônimo do livro, com as imagens da entrevista gravada na prisão.

A Rede Social

2010, David Fincher

Retrata-se aqui o magnata moderno, alguém que faz parte de nosso cotidiano e de quem assistimos a trajetória. Depois de uma decepção amorosa, em uma noite de outono em 2003, Mark Zuckerberg, analista de sistemas graduado em Harvard, se senta em seu computador e começa a trabalhar em uma nova ideia. Ele cria uma rede social para os alunos da universidade, o que na época lhe causou problemas.

Apenas seis anos e 500 milhões de amigos mais tarde, Zuckerberg se torna o mais jovem bilionário da história com o sucesso da rede social Facebook, que é hoje um dos nossos maiores vícios modernos.

O dinheiro, o sucesso e o prestígio lhe abriram muitas portas, mas também trouxeram problemas para a vida pessoal – o que pode nos fazer pensar que, de alguma forma, Zuckerberg bebeu na fonte de Kane, ou de Hearst. Além desta semelhança, outro aspecto que evoca a história de Welles é a verdadeira revolução que Zuckerberg fez na comunicação atual, e com isso fez sua fortuna.

Hoje, Zuckerberg é um dos maiores magnatas da comunicação, e de um tipo de comunicação que na época de Kane jamais se imaginaria possível.

Medianeiras: o amor e a cidade na era da liquidez

por Guilherme Assen

Entre espigões e arranha-céus, circulamos em uma cidade que não nos pertence mais. A arquitetura ainda respira, mas está soterrada embaixo de incorporações e empreendimentos imobiliários altamente rentáveis e com ótimo retorno financeiro para seus investidores. Os moradores? Ah, nós estamos engravatados, engavetados, etiquetados e sub-existimos sem o direito de respirar – em qualquer sentido.

Medianeiras, de Gustavo Taretto (2011)

Medianeiras, de Gustavo Taretto (2011)

Reparem, nós não flanamos mais. Apenas andamos com rumo, horário e percurso pré-determinados. Para onde vamos? Por quê? Qual o motivo? Quando foi que demos o primeiro passo? Quem nos acompanha nessa caminhada?

Talvez Bauman tenha assistido Medianeiras, do porteño Gustavo Taretto, e tenha dado risada dos laços inevitáveis com o seu Amor Líquido. Talvez ele tenha achado o filme um pouco clichê, melancólico e meloso como todos esses filmes argentinos que assistimos na Reserva Cultural, em encontros marcados às pressas com aquela garota que – podemos confessar, não podemos? – queremos para nós e só para nós para todo o sempre, mesmo sabendo que nada é para sempre, como já diria Cássia Eller, Nando Reis, Los Hermanos e Vinícius de Moraes…

Bobagem. Medianeiras me comoveu como o diabo! A verborragia neste texto me denuncia e mesmo às pressas, acho que devo deixar aqui a dica para quem ainda não assistiu. Preparem os lenços e abram as janelas.

O Congresso Futurista

Ana Silvia Cursino Guariglia

the congress

O Congresso Futurológico, de Stanislaw Lem, vislumbra uma sociedade em que seus indivíduos são controlados com a ajuda de produtos químicos que alteram a mente, evitando a desobediência civil. O livro de 1971 lembra muito o nosso Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, escrito em 1932, e a droga soma – “um grama para um fim de semana, dois gramas para a excursão ao extremo Oriente, três para uma sombria eternidade na lua”.

Uma adaptação ao livro de Lem, lançada em 2013, O Congresso Futurista (do israelense Ari Folman) explora mais o conceito da droga e aproveita para criticar Hollywood. No longa, a atriz Robin Wright – que faz seu próprio papel – vende sua imagem a um estúdio. O estúdio escaneia a atriz de tal modo que a presença dela nunca mais seria necessária para a produção de filmes. Em contrapartida, esse seria seu último contrato: Wright nunca mais poderia atuar em nenhum lugar.

Esse seria apenas o começo da distopia virtual. Acelerando no tempo, Folman mostra um Congresso em que nada mais é real, tudo é animação. Naquele ponto, todas as pessoas teriam acesso a uma droga que, quando cheirada, os transportaria para um outro mundo – um mundo em que todos seriam o que quisessem. Seriam mesmo: o produto químico personalizável poderia mascarar o indivíduo na forma de um personagem, um artista, uma celebridade. Dezenas de Picassos, Marylin Monroes, Dalís espalham-se por esse mundo novo, divertindo-se satisfeitos com suas novas “roupas”.

Sair do mundo real para dentro do virtual foi o principal desafio de Folman. Metade real, metade animação, O Congresso Futurista relê tanto Huxley quanto Lem quando discute o comportamento de uma sociedade que, assustadoramente, parece muito próxima a nós.

Coisa de cinema: o sumiço do Boeing 777

Malaysia_Airlines_Boeing777-600x325

Por Vicente Lomonaco

Desde que o Boeing 777 da Malaysia Airlines desapareceu no último dia 8 de março, os noticiários do mundo inteiro estão dedicando um precioso espaço ao acontecido com zilhões de especulações sobre o caso. Terrorismo, acidente, erro humano, falha mecânica, suicídio do piloto e até mesmo algumas hipóteses envolvendo seres de outro planeta já foram amplamente divulgadas. A história por si só é bastante curiosa, mas a cada “novidade” descoberta ela me parece com o roteiro de um filme, ou no caso, o de uma série.

Entre 2004 e 2010 a rede de televisão americana AXN exibiu o show Lost (no Brasil a Globo transmitiu os episódios sempre com um ano de atraso) e trouxe apreensão e muitas, mas muitas dúvidas nas cabeças dos espectadores. A trama tinha tantos nós que os roteiristas não conseguiram desatar todos eles nos últimos capítulos. Fato que gerou uma enorme frustração em quem acompanhava semanalmente a série. Sentimento igual ao do mundo todo a cada investida sem sucesso na busca do avião desaparecido.

Mas a comparação com a série Lost é fácil, contudo, o ocorrido com o Boeing 777 e todas as notícias surgidas depois, me fazem lembrar também do filme “A Montanha dos Sete Abutres”. Isso porque as notícias que sucederam o desaparecimento tornaram a história praticamente um roteiro elaborado por algum jornalista que quer ver essa notícia sempre em destaque, assim como Charlie Tatum fez com o soterramento de Leo Minosa.

Na ficção Tatum precisa que o desastre em uma antiga mina dure seis dias, assim ele consegue repercutir a história, já na vida real, são quase duas semanas sem nenhuma informação concreta sobre o paradeiro da aeronave, gerando um desespero nos responsáveis pela cobertura que todos os dias precisam de uma matéria sobre o assunto e assim surgem pautas como a dos celulares de passageiros que ainda estão tocando. É um desespero por audiência no jornalismo de hoje onde um clique vale muito mais do que uma informação bem checada.

FRASES INTERESSANTES DE “A MONTANHA DOS SETE ABUTRES”

“Diga sempre a verdade”, do quadro no jornal de Albuquerque

“Trabalho com grandes e pequenas notícias. E se não houver notícias vou à rua e mordo um cão”, de Charlie Tatum tentando um emprego no jornal de Albuquerque.

“Más notícias são as que mais vendem. Porque boas notícias não são notícias”, de Charlie Tatum para Herbie, o fotografo que o acompanha na reportagem.

“A Imprensa nunca paga”,  de Herbie tentando entrar na área da Montanha depois que a esposa de Minosa passou a cobrar dos visitantes.