Categoria: TEMPOS MODERNOS/1SEM14

Dilemas de uma Copa do Mundo no “País do Futebol”

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Por Luiz Fernando de Palma

Na esteira da onda dos protestos que se espalharam pelo Brasil desde junho do ano passado, os manifestantes passaram a questionar com mais ênfase os gastos com a Copa do Mundo de 2014. Segundo os dados divulgados por diferentes fontes, os valores da Copa de 2014 correspondem a mais que o dobro do que foi gasto pela Alemanha em 2006 e por Japão e Coréia do Sul em 2002. E superaram o triplo do que a África do Sul despendeu em 2010. Portanto, se forem confirmadas essas informações, a Copa de 2014 será a mais cara da história, fazendo jus sob o aspecto econômico ao slogan “a Copa das Copas”.

Enquanto se consumia tanto dinheiro nas obras para Copa das Confederações e Copa do Mundo, as manifestações populares exprimiram o desapreço de uma significativa parcela da sociedade brasileira aos governantes brasileiros, à sua publicidade esfuziante e ao uso demagógico do assistencialismo tratado como versões contemporâneas do “pão e circo” romano. As faixas e cartazes exibidos nas passeatas pelas grandes cidades deixaram evidente o inconformismo da opinião pública brasileira pelos hospitais públicos sem médicos e leitos, pelas escolas sem professores, pela má qualidade dos serviços de transporte coletivo, pelo aumento do custo de vida refletido por índices de inflação que extrapolam as metas da política monetária. Muitos criticaram o uso das bolsas disso e daquilo e da Copa do Mundo de Futebol, com seu hexa (?) e suas “arenas” à moda de “Coliseus”, onde se oferece futebol para divertir e anestesiar.

Mas isso não é tudo a ser considerado quando nos perguntamos se o “país do futebol” está brilhando como sede da Copa do Mundo de 2014 ou se está sendo palco de um fiasco constrangedor?

Ainda é cedo para uma avaliação definitiva. As primeiras notícias, felizmente, dão conta que na primeira semana de sua realização, apesar de alguns problemas, a Copa supera o caos, surpreende e conquista os turistas estrangeiros, revertendo a expectativa da mídia internacional. Aguardemos para ver como esses dilemas se resolvem no “país do futebol”.

Ricas e com milhões de seguidores … É isso mesmo?

Por Aryelle Bastos Oliveira

Elas têm milhares de seguidores no Facebook e Instagram, milhares de leitoras do Brasil e do mundo querem saber o que vestem e quais lugares frequentam e as marcas de moda e beleza adoram mimá-las.

As blogueiras mais populares do país têm motivos de sobra para suscitar uma pontinha de inveja em quem gosta de moda e é viciado em compras. E se você não conhece essas mocinhas que ditam tendências, é hora de se informar!

A imprensa vem publicando matérias sobre os blogs de moda que são colocados como os novos vilões da sociedade. Como sou uma seguidora destas blogueiras e como também tento entrar para este meio vou dar a minha opinião sobre o assunto.

A revista Galileu divulgou um lead (síntese da matéria) que diz: “Cheias de audiência no site e de dinheiro no bolso, blogueiras se tornam um canal de comunicação fundamental no mundo fashion. Mas muitas chegaram lá enganando suas leitoras, com publicidade disfarçada”.

Matérias como essa podem (e acredito ser) bem perigosas porque generalizam, e dizem que as pessoas são retratadas como se fizessem parte de uma massa homogênea. São Existem pessoas e pessoas, blogueiras e blogueiras.

Que os blogs são canais de comunicação fundamentais, não tenho a menor dúvida. Mas dizer que as blogueiras estão cheias de dinheiro no bolso é relativa. Como desejo que minha realidade fosse esta. Acho justo que um blog seja remunerado como recompensa pelo sucesso. Blogar pode ser brincadeira para muita gente, até para mim, mas é uma brincadeira que dá trabalhão. Nada mais natural que ser remunerada por isso – e claro, assumir para os leitores que isso acontece.

Os blogs um contato mais segmentado dos produtos com seus públicos. Antes, o leitor de uma revista recebia a informação de moda como uma imposição – a moda era feita de cima para baixo. Hoje, as mensagens caminham em todas as direções, pessoas recomendam produtos umas às outras, leitores trocam informações e opiniões, não apenas através dos blogs, mas das redes sociais como um todo. Os blogs são uma nova forma de interação e funcionam como um canal produtivo e útil para as marcas que querem desejam conhecer em detalhes seus consumidores e também seus críticos. Os meios de comunicação tradicionais estão perdidos com esta nova realidade.

Não estou dizendo que os jornais e revistas não são mais necessários e fundamentais. Jamais! Os blogs não substituem. Precisamos saber diferenciar o papel dos blogs e dos meios de comunicação de massa. A principal diferença: blogs têm conteúdo autoral. O blog tem uma cara, uma personalidade por trás do seu conteúdo, alguém que responde por erros e acertos, e é preciso ter MUITA coragem para isso.

Com o interminável universo da internet, os blogs funcionam como filtros, feitos por pessoas em quem confiamos para nos mostrar o que há de mais relevante, um ponto de vista, em um determinado universo. Não importa o tamanho do alcance de um blog, (em termos numéricos de audiência), mas sim o poder de influência do seu autor. Estamos falando de uma pessoa que o leitor conhece e confia. É fato: as pessoas confiam em pessoas, mais do que em instituições. A grande questão diz respeito à inserção da publicidade nesse contexto de recomendação. Por isso a clareza e a transparência são fundamentais para que o autor do blog continue mantendo uma relação de confiança com seu público.

Mais uma diferença entre um blog e uma revista de moda é o fator realidade. Blogs de moda, principalmente os de que trazem os famosos looks do dia, estão antes de qualquer coisa conectados com a vida real. O que os faz interessantes de verdade é saber que os famosos looks do dia foram de fato usados pela autora/dona do blog, uma pessoa humana, factível. Vejo vários blogs onde os looks do dia estão se sofisticando a tal ponto, que o conceito de blog está sendo invertido. É preciso se conectar de novo com o cotidiano, tirando o pé do tapete vermelho para recolocá-lo no chão. Para sonhar, ver imagens perfeitas e produtos que só uma parcela ínfima das pessoas pode comprar, prefiro abrir a revista Vogue.

Se um blog se profissionaliza, é porque a verdade falou mais alto, tocou pessoas, atraiu um público fiel. Ao ter o blog como profissão, é preciso ter consciência do seu alcance e da responsabilidade que isso traz.

Acho importante fazer outra diferenciação. A meu ver, as pessoas que gostam  e seguem a moda se dividem em dois grupos: os que veem a moda como imposição, uniformizando-se e seguindo regras; e os que a usam a seu favor, fazendo o exercício de encontrar-se nela e assim desenvolver o seu estilo.

Acredito que toda pessoa cuja imagem atinge um número considerável de pessoas deve pensar no tamanho de sua responsabilidade e procurar usar o seu poder de influência para ajudar a provocar mudanças, envolvendo-se em causas sociais, mudanças de hábito, atitudes que ajudam o mundo a ser melhor. Mas a grande maioria dos blogueiros de moda faz jus ao rótulo de futilidade ao ignorar o mundo desigual que está à nossa volta.

Da mesma maneira que existem blogueiros e bloguistas, existem leitores e leitores. Temos os que buscam um bom conteúdo, mas há também temos os essencialmente consumistas, prontos para comprar e acatar qualquer recomendação, desde que ela traga a expressão “última moda” ou algo que o valha.

Assim como jornais e revistas sobrevivem de publicidade, a principal receita de um blog vem do marketing. No caso de um banner, separado do conteúdo do blog, não é necessário estar envolvido com a marca anunciada. Está claro que aquele é um espaço publicitário que ajuda a subsidiar o blog. Mas, quando o produto estiver inserido no conteúdo do blog, o que também acontece nas revistas de moda, é fundamental que ele tenha a ver com o dia a dia da autora ou então que seja um produto no qual ela realmente acredita.

Oras! Os leitores não são desprovidos de inteligência. Sabem muito bem quando há intenção de vender a ele algum produto, não cai em conversa fiada e propaganda barata. Blogueiros pensam a curto prazo, interessados antes de mais nada no retorno financeiro. Bloguistas pensam a longo prazo, rejeitando propostas de marcas ou produtos que não tenham a ver com eles. E assim prezam pela vida longa de seus blogs, pois sabem que incentivar seus leitores a consumir qualquer coisa é caminhar para o suicídio.

Para concluir, desde o surgimento e boom dos blogs de moda, muitas blogueiras se perderam no meio do caminho, se descolaram de sua essência e deixaram os cifrões falarem mais alto. Receio que em breve não exita espaço para todos. Não podemos generalizar. Existem blogueiras e bloguistas. Pense nisso!

Justiceiros do bem!

Por Aryelle Bastos Oliveira

Estou cheia de colecionar recortes de jornal com casos de moradores que decidem fazer a justiça valer com suas próprias mãos. “Justiceiros” (será?) que levam a “ordem e progresso” (uhm, acho que não) para as ruas, acreditando que as autoridades não fazem nada.

Será mesmo que desejamos isso? O termo certo para se usar seria mesmo justiça com as próprias mãos? Pessoas representando o estado policialesco?

“Bandido bom é bandido morto” ou “direitos humanos para humanos direitos”, não sei.

Tenho medo, a violência e a morte caminha muito próximo daqueles que sejam a paz. Diariamente temos Datena e Marcelo Rezende para falar sobre a violência das ruas e nos incitando a sublimar nossa violência vendo a cabeça do bandido debaixo do coturno da PM.

A partir do momento em que uma jornalista (estupidamente) diz que devemos sim fazer “justiça com as próprias mãos”, o povo vai para as ruas decido a punir todos os que não andam na linha, ou não são de bem, não são trabalhadores obedientes, que pegam duas horas de lotação na volta pra suas humildes casa. Defendo até o fim da liberdade de expressão, na minha opinião, Sherazade que diga o que quiser dizer; o que me assusta mesmo é o povo ser tão manipulável, tão facilmente levado a atos de tal violência. Deixa ela falar o que quiser, meu receio são as pessoas que escutam e aprovam.

“Fazer justiça com as próprias mãos” não é um problema, eu acho! Precisamos arrancar o poder distante e cego da justiça. Nunca temos a justiça do nosso lado: burocrática e tendenciosa ela sempre beneficiou aqueles no poder; que não por acaso são os que fazem as leis.

Acredito na desjudicialização, na justiça com as próprias mãos, mas não acredito que casos como da “moça do Guarujá” e do “garoto do Rio”, parece até que não possuem nomes. Estes casos não são e nunca serão bons exemplos do que estou dizendo. Não devemos fazer justiça como o Estado faz, prendendo, matando, oprimindo, aterrorizando, torturando. Justiça não é assassinato (o Estado que mata é justo?). Se formos agir, que seja pela vida, que seja para potencializar a vida e não para gerar ainda mais terror e morte.

O gigante dorme!

Por Aryelle Bastos Oliveira

Já se passou um ano após os atos realizados em Junho de 2013.

Fazia tempo que não víamos uma mobilização tão forte em prol de um país, uma sociedade, desde as “diretas já”. Minha dúvida é: cadê o gigante? Voltou a dormir ou está de férias?

Sempre que lembro destas manifestação me sinto profundamente orgulhosa, tive a oportunidade de ver e fazer parte da história que “tentou” mudar tudo aquilo que não era certo em nosso país, é engraçado pensar que o mesmo orgulho me traz frustrações, pois sabemos que temos governantes que não temem o seu povo.

Tentei participar de alguns dos atos realizados em São Paulo, mas me deparei de frente ao medo dos policiais que sem a menor necessidade soltavam bombas de gás lacrimogênio. Vi muitos depoimentos e reportagens de pessoas que foram atingidas e feridas sem nenhuma explicação. Muitas pessoas usavam algumas “técnicas” para aliviar o efeito das bombas, mas eu não tinha coragem e me sentia ainda mais orgulhosa em ver as pessoas seguindo, batendo de frente com tudo e todos para buscar os direitos do povo brasileiro.

Não acredito que o gigante esteja dormindo ou de férias, rs. Mas acredito que ele compreender que a Copa não é o único ou maior problema do Brasil, é um cartão diplomático para abertura do mercado econômico. E, tudo o que criticamos, todos os desvios, os gastos abusivos ocorreram antes mesmo do sorteio para a escolha do país sede, que o Brasil sofre com essas corrupções há décadas.

Todas as quartas-feiras quando temos um campeonato brasileiro ou paulista, a corrupção continua existindo, tudo porque o governo permite o pão e circo, e infelizmente hoje me dia, digo de junho para cá a corrupção do nosso país só tem sido percebida diante à realização da Copa do Mundo. O gigante precisa acordar para tudo, caso contrário teremos diferentes atos sem sucesso frente aos acontecimentos de “pão e circo” que vivemos aqui.

Sociedade do Espetáculo e o Big Brother Brasil

Nossa cultura, a semelhança e os mais diferentes dilemas são frequentemente refletidos na mídia.

Um claro exemplo são os reality shows apresentados na TV, como por exemplo Big Brother Brasil (BBB), apresentado na Rede Globo de Televisão, odiado por por alguns e idolatrado por outros, e que continua chamando a atenção do público, com interesse e à apreciação pela vida íntima que foram mencionados pelas teorizações do sociólogo Richard Sennett (1999).

A  exposição da intimidade em nossa sociedade é nada mais que a exploração da vida privada, o que faz com que o BBB seja considerado um fenômeno midiático. E qual é a fórmula deste sucesso?

Será que a mídia não está reproduzindo o mesmo acontecimento através da indústria do entretenimento e do espetáculo?

Será que vemos o “mundo” através da mídia, ou apenas “sombras” de um “real” mediante um fato produzido?

O diretor de cinema francês e filósofo Guy Debord tem um livro fantástico (A sociedade do espetáculo), que retrata a concepção da sociedade que se reinventa com o crescimento do capitalismo e com o progresso dos meios de comunicação, onde enfaticamente temos a definição de uma conjuntura de domínio da vida do ser humano comandado pelas images e persuasão da mídia.

Arbex diz que A Sociedade do Espetáculo é o espetáculo, na sua mais perversa forma. Guy Debord argumenta o espetáculo, com uma análise semiótica de uma palavra pequena, porém grande em significado. Abrangendo diversos segmentos sejam políticos, religiosos, artísticos na comunicação de massa.

“O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores” (Debord, 1960).

Para ele, os pontos centrais são:

– a questão da imagem e do aspecto na sociedade contemporânea.

Guy Debord fala do espetáculo em dois segmentos: o concentrado e o difuso. Ambos, centrados na noção de unificação feliz e, em seguida, de mal-estar, tristeza e pavor. O tipo concentrado é basicamente burocrático e ditatorial, (nasceu da Alemanha nazista e da Rússia stalinista), com essa conjuntura a Venezuela é o exemplo atual deste tipo de espetáculo concentrado, como também não devemos esquecer-nos do Brasil após 1964, com os slogans e lemas político-propagandísticos “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Este é um país que vai pra frente”,

Na configuração abordada por Debord percebmos que todos e qualquer um pode aparecer publicamente na sociedade do espetáculo com papeis diferentes; Este contexto é visto nas pessoas que “sonham” e que se habilitam a participar dos reality shows como o Big Brother Brasil.  Músicos, dançarinas, advogados, policiais, professores, modelos … Que passam a exercer no confinamento imposto pelo programa outros papeis além da sua profissão. Na sociedade do espetáculo o status midiático presenteia todos indistintamente e com isso, todos se sentem no dever e direito de reivindicar seu brilho.

Cadeirantes? Será?

Por Aryelle Bastos Oliveira

Tenho visto com frequência nas redes sociais imagens de pessoas supostamente forjando situações adversas à realidade e com isso beneficiando-se de direitos que supostamente também não são delas, como por exemplo assistir alguns jogos em estádios e com visão altamente privilegiadas.

As imagens mostram cadeirantes em pé, e isso significa dizer que não deveriam estar lá, uma vez que, estão encenando necessidades irreais. Alguns jornais circulam a informação complementando que a policia investigará tal ato e desvendará o “milagre da copa”.

Mesmo sabendo que nem toda pessoa que utiliza cadeira de roda é impossibilitada de andar, é ridículo e medíocre pensar que alguém teve tamanha criatividade para simular tal necessidade. Sim, alguém pensou em tudo.

Comprou ingresso, foi retirar, foi ao estádio, passou pelas vistorias e então, assistiu uma partida de futebol de um local que não o pertencia.

Que triste isso! Mais triste ainda pensar, que cada cadeirante legitimo que passar por nós será julgado por ato ridículo de alguém que se fez passar por tal situação apenas para usufruir de um direito exclusivo.

Pessoas deste tipo são fruto de um sociedade que dá as costas para tudo e todos, esquecendo de priorizar a educação, o respeito ao próximo e a diversidade que nós rodeia.

Sinceramente não acredito que uma investigação policial resolverá a questão, na verdade o que precisamos é colocar a mão na consciência e procurar entender um pouco mais sobre as diferenças físicas de cada um. Respeitar e conquistar espaços próprios sem se aproveitar de algo que não é seu.

A violência começa onde termina a fala

BLACKBLOC

Por Luiz Fernando de Palma

 

O título acima é uma frase de Hannah Arendt, filósofa alemã (1906 – 1975), e pode ser lembrada quando nos dispomos a refletir sobre o clima de violência que se instalou no país desde junho de 2013, quando se iniciaram as manifestações de protesto motivadas por inúmeras causas. Para muitos esse clima é de responsabilidade da política de segurança que utiliza repressão policial contra o protesto popular. Enquanto outros sustentam que a violência vem principalmente dos chamados “vândalos” e não da polícia.

 

Com o passar do tempo, na verdade, as passeatas ficaram menores e mais violentas, predominando a tática chamada de “black-bloc” (do inglês black, preto; bloc, agrupamento de pessoas para uma ação conjunta ou propósito comum, diferentemente de block: bloco sólido de matéria inerte), que se tornou um empecilho para a ampliação e massificação dos protestos. Não só por realizar ações não aprovadas por nenhuma instância coletiva, o vandalismo desses grupos radicais abriu espaço para o aventureirismo individualista e a pura provocação. E, assim, acabou por transformar qualquer indignação com a violência da repressão policial na sua aceitação como autodefesa legitimada por ações isoladas e irresponsáveis.

 

Para que os movimentos de denúncia dos gastos da Copa no Brasil e de reivindicações populares voltassem a mobilizar a população seria necessário buscar ao máximo as ações pacíficas, não por defender qualquer pacifismo em abstrato, mas porque a caracterização de não violência ganha muito mais a opinião pública, especialmente a da classe trabalhadora e confere maior legitimidade ao protesto.

 

Em artigo sob o título “O conceito de violência em Hannah Arendt e sua repercussão na educação”, publicado no blog Educação em Valores – “2015 Ideas para cambiar el Mundo” http://www.educacionenvalores.org/O-conceito-de-violencia-em-Hannah.html,  Waléria Fortes de Oliveira e Marcelo Rezende Guimarães, reproduzem os seguintes conceitos da obra de Hannah Arendt, “A condição humana”, 1957, (CH):

 

“Dizer uma palavra constitui, assim, uma ação, não apenas porque quase todas as ações políticas são realmente realizadas por meio de palavras, mas também porque o ato de encontrar as palavras adequadas no momento certo, independentemente da informação ou comunicação que transmitem, constitui uma ação” (CH, p. 35).

 

Sob a inspiração de um seminário intitulado “Os Estados Unidos e o espírito revolucionário” Hannah Arendt escreveu “Da Revolução” (DR), publicada no ano de 1962. A partir da oposição entre violência e palavra, qualifica a violência como “um fenômeno marginal no campo político; pois o homem, na medida em que é um ser político, está dotado do poder da fala” (DR, p. 15-16).

 

A partir disto, conclui que:

“a violência é definida como o agir sem argumentar e o império do silêncio, onde quer que a violência domine de forma absoluta, como por exemplo, nos campos de concentração dos regimes totalitários, não apenas as leis – les lois se taisent – mas tudo e todos devem permanecer em silêncio” (DR, p. 195).

Neste sentido, “somente a pura violência é muda” (CH, p. 35).

 

Estas reflexões da referida autora, segundo Waléria Fortes de Oliveira e Marcelo Rezende Guimarães, fornecem uma chave interpretativa para compreender a violência, tanto na educação como no conjunto da sociedade, como uma forma de expressão dos que não têm acesso à palavra, como a crítica mais radical à tradição autoritária.

 

Quando a palavra não é possível, a violência se afirma e a condição humana é negada.

 

“Neste sentido, a reversão e a alternativa à violência passa pelo resgate e devolução do direito à palavra, pela oportunidade da expressão das necessidades e reivindicações dos sujeitos, pela criação de espaços coletivos de discussão, pela sadia busca do dissenso e da diferença” (Waléria Fortes de Oliveira e Marcelo Rezende Guimarães, em “O conceito de violência em Hannah Arendt e sua repercussão na educação”).