Categoria: Stefano Ferla Filippini

A polêmica na construção de uma imagem pública

Por Stefano Filippini

 

Criar polêmica é um recurso utilizado em excesso quando se quer atrair os holofotes a algum fato. Programas televisivos são construídos a partir desse recurso, jornais e revistas abusam dele quando querem vender mais exemplares, e até nas artes a polemica é usada para atrair atenção. Porém ela nem sempre é controlável: às vezes se constrói polêmica mesmo quando essa não é a intenção.  Foi por essa situação que passaram duas das youtubers de cinema mais influentes do Brasil. A primeira, Carol Moreira, que também é apresentadora de TV, teve essa experiência no final de 2016, ao entrevistar o astro hollywoodiano Vin Diesel. Durante divulgação de seu filme Triplo X, o ator elogiou a beleza de Carol repetidas vezes durante as gravações, e os elogios insistentes deixaram-na visivelmente desconfortável, e só atrapalharam a entrevista. Ao divulgar o vídeo em seu canal, a youtuber deixou claro que aquilo não fazia parte da entrevista e que no momento, ela preferiu por não repreendê-lo. O vídeo viralizou como nenhum outro de seu canal, e se tornou alvo de discussão, havendo o lado daqueles que diziam que Vin Diesel foi desrespeitoso e pouco profissional, e o lado dizendo que a apresentadora se fez de vítima, se omitiu, entre outras opiniões.

O outro caso foi em 2015 envolvendo a youtuber Luisa Clasen, do canal “Lully de Verdade”, no qual ela foi uma das entrevistadas pelo portal G1 em uma matéria que trazia algumas das meninas e mulheres que mais estavam em alta no YouTube. O título escolhido foi “Lully, musa youtuber, diz que vídeo faz mais pelo feminismo que ir à marcha”, e juntamente com alguns trechos, gerou revolta por dar a entender que ela estava “se colocando como superior ao movimento feminista por fazer vídeos”. Logo após a publicação Luisa se retratou, afirmando que suas falas tinham sido distorcidas pela reportagem, e até publicou a entrevista na íntegra, que tinha salva no seu email. Ficou evidente que as alterações nas falas da youtuber na entrevista foram uma forma de gerar polêmica, e consequentemente, mais acessos. A matéria continua publicada no site do portal, com o mesmo título.

Em ambos os casos, as polêmicas vieram em direção das criadoras de conteúdo, de forma involuntária. No caso de Carol, o acontecimento de certa forma ajudou a aumentar a visibilidade de seu canal e trouxe mais inscritos. A matéria do G1 não abalou a reputação de Luisa de alguma forma a ser considerada. Personalidades públicas correm esse risco: uma polêmica pode ‘sujar’ seu nome e fazê-lo perder todo prestígio construído por anos. A internet tem esse poder, mas felizmente, também te dá o direito de se retratar e fazer as pessoas ouvirem seu lado da história.

 

Lully, musa youtuber, diz que vídeo faz mais pelo feminismo que ir à marcha
(Link da matéria do G1)

 

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O medo como demonstração de poder

Por Stefano Filippini

 

A imaginação de como seria o mundo caso uma catástrofe ocorresse é um viés que permeia do mundo da ficção. Seja através de filmes, livros, games ou séries, diversas obras se propuseram a imaginar um planeta pós-apocalíptico, como por exemplo a franquia Mad Max. Outras criaram um mundo no qual um vírus se espalha e transforma a maioria da população em zumbis, como no caso de The Walking Dead.

A série Fallout se tornou mundialmente conhecida por conta de seus jogos, retratando uma era pós-apocalíptica por volta do ano 2200, caso tivesse ocorrido uma guerra nuclear durante a Guerra Fria. Nas versões mais jogadas do game, controlamos um personagem que sobreviveu à destruição e resolve se aventurar para além de seu abrigo subterrâneo, lugar esse onde se escondeu durante as explosões das bombas. Em um Estados Unidos quase que completamente devastado, o principal é sobreviver num local onde a radiação modificou todos os seres, criando espécies super mutantes, e pessoas que se dividiram em facções, grandes povoados e também pequenos vilarejos. Enquanto os pequenos conglomerados de gente buscam apenas sobreviver, as grandes facções possuem ideologias confrontantes e estão sempre em atrito, brigando por suprimentos, áreas e influência. Nos confrontos, um dos fatores que mais prevalece é o controle tecnológico, que permite o manuseio de armamentos e apetrechos de guerra em geral, além do conhecimento da tecnologia em si. Um dos grupos mais poderosos é formado por ex-generais do exército, que possuem armaduras robóticas que tornam cada um dos membros um “exército de um homem só”. Por conta disso, A Irmandade do Aço como são conhecidos, clama para si o controle de tudo e todos.

fallout4Cena do jogo Fallout 4

A narrativa principal apresenta esse ponto de semelhança com a Guerra Fria: a União Soviética e países socialistas contra os EUA e países capitalistas, num embate de quem pode mais, quem mais amedronta os inimigos com a partir de seu poder bélico e nuclear. Um momento histórico em que uma ameaça de ataque ao outro lado pode ter consequências catastróficas para todo planeta, inclusive àqueles que não não-aliados a nenhuma das forças; e que passadas algumas décadas, volta a assombrar todo o planeta, a partir de uma espécie de jogo de xadrez entre EUA e Coréia do Norte. Dessa vez, porém, com tecnologias militares mais avançadas em que as bombas são cada vez mais potentes e a devastação seria de certa forma maior, e o medo de quem irá fazer o primeiro movimento mais radical ainda sendo o principal fator.

O urso branco do sofrimento público

Por Stefano Filippini

 

white bear
Cena de Black Mirror, episódio “Urso Branco”. Fonte: Proibido Ler

 

O sofrimento em praça pública como forma de punição se faz presente desde os primórdios de civilização. Exemplos são vários, desde os escravos desobedientes lutando nas arenas de gladiadores até a “purificação” dos hereges sendo queimados em praça pública, e chegando nos dias atuais com os linchamentos de estupradores, assassinos e supostos criminosos. A série Black Mirror, produzida pela Netflix foi a fundo no tema. Em um futuro de distopia, os episódios (independentes entre si) majoritariamente mostram a tecnologia utilizada de forma malevolente. Algumas delas não fazem parte da nossa vida (ainda, talvez), e mesmo criadas no intuito de auxiliarem as pessoas, também trazem problemas.

No episódio “Urso Branco”, uma mulher acorda sem saber seu nome, quem é nem onde está. Ao sair na rua, começa a ser perseguida por mascarados sádicos com espingardas, facas e outros objetos, como correntes e cassetetes. Sem dizerem uma palavra, fazem-na fugir sem saber para onde, e alguns desconhecidos a ajudam a escapar. Durante todo o tempo que passa nessa fuga, ela é filmada por smartphones de pessoas que parecem se divertir e não estranharem a situação. [Começo do spoiler] Adiante no episódio descobrimos que a mulher sequestrou e assassinou uma criança, foi julgada culpada e está sofrendo as consequências de seu crime: todo dia ela passa por essa situação, que é transmitida via televisão e as pessoas assistem à toda a encenação. A fuga da assassina, que acontece igual em todos os dias, com atores e onde só ela não sabe. No final do dia, o apresentador a faz lembrar de seu crime e ela então é vaiada e sofre todo tipo de xingamento até o caminho de sua casa, e lá forçam-na um medicamento que a faz esquecer de todo ocorrido desde o crime, para que no dia seguinte ela passe por tudo de novo, durante um mês. [Fim do spoiler]

O ato de fazer alguém que realizou um crime sofrer as consequências em público se torna sádico à partir do momento que abusa do sofrimento desse alguém. No período da tarde, os programas policiais de TV dominam a programação, com apresentadores destilando palavras de ódio contra os (supostos) criminosos, transmitindo troca de tiros com policiais, e telespectadores torcendo pela morte deles. A guilhotina em praça pública ainda mostra resquícios.

Ânsia pela informação imediata

Por Stefano Filippini

 

A característica imediatista do jornalismo se perpetuou mais do que nunca com o advento do jornalismo digital, em especial com o crescimento dos portais de notícias. No atual cenário brasileiro, graças a operações como a Lava Jato, a política é um tema sempre em alta. Um momento em que parece que surgirão novos acontecimentos, denúncias de corrupção e delações premiadas a cada dia.

Como consequência disso é gerado um grande fluxo de informações, inclusive uma espécie de corrida entre os portais de notícias pela dianteira: qual postará a notícia mais quente primeiro. Essa ânsia tem seu viés negativo, conforme defende André Singer, professor de Ciência Política da USP, e ex-secretário de Imprensa da Presidência da República.

Em entrevista para a Revista E (periódico organizado pelo SESC), afirma que “como jornalista, você quer uma notícia por dia ou por hora, mas as decisões importantes são maturadas por anos.” Isso cria um “choque de tempos”, e justifica o porquê de lermos às vezes notícias pobres de informação nos portais jornalísticos. É uma escolha que parece ser a preferida pelas redações: lançar rapidamente a notícia, mesmo que com uma apuração incompleta, ao invés de lançar uma notícia que responda a maioria das perguntas levantadas pelo fato.

Novos profissionais e formas de trabalho da internet

Por Stefano Filippini

 

youtubers

O terreno da internet parece estar sempre germinando novidades, algumas efêmeras, outras com de importância a longo prazo. Uma das possibilidades surgidas a partir da internet como área profissional é youtuber. Pode ser definido como uma pessoa, que por seus atributos pessoais como carisma, conhecimento sobre determinado assunto, entre vários outros, possui um ou mais canais no Youtube e passa a produzir vídeos próprios, do que quer que sejam, e cria uma reputação. Alguns possuem uma quantidade de seguidores e expectadores na casa dos milhares, e até conseguem manter uma renda a partir dos vídeos.

Associar alguns deles como celebridades não é nenhum exagero. Primeiro, eles conseguiram a partir de toda a visibilidade adquirida, receber ofertas de publicidade que há poucos anos atrás só seriam oferecidas à celebridades de televisão ou de cinema, por exemplo. Agora, também vêm conquistando espaço no meio jornalístico, visitando estúdios de filmagem fora do país e entrevistando famosos.

Mesmo com todo o espaço conquistado, ainda existem aqueles mais céticos que não enxergam o ofício com bons olhos. Segundo Bia Granja, criadora do youPIX, site criado em 2006 especializado em internet, ainda existe essa visão estereotipada sobre os youtubers. “As pessoas reduzem um movimento mega importante por uma opinião pessoal.”

Luisa Clasen, do canal de cinema “Lully de Verdade” vai mais além, e diz que as pessoas parecem querer “fiscalizar o dinheiro” de quem cria conteúdo para o Youtube: “Se você não perguntaria isso pro seu dentista ou pro seu professor (o quanto ganha), por que tem que perguntar pra profissional de internet?

Esse parece ser o maior desafio desses profissionais atualmente, acabar com o estigma negativo, segundo defende Bia Granja. “Não é um bando de idiotas fazendo vídeos, tem muita coisa ótima.”

Pluralidade de discordâncias

Por Stefano Filippini

 

As bolhas de opinião se tratam de uma espécie de isolamento, onde o sujeito se fecha nela e convive com pessoas que têm opiniões mais ou menos parecidas com as dele, e visões de mundo que corroboram com as suas. Elas surgem a partir de um fenômeno chamado viés de confirmação, no qual nos tornamos complacentes com notícias e opiniões que reforcem nossas crenças pré-existentes. Esse comportamento integrou-se ao modo que utilizamos as redes sociais e o modo como elas nos exibem conteúdos.

Em redes como Facebook e Twitter, essa ferramenta recebe o nome de ‘filtro bolha’: um conjunto de algoritmos que, a partir de dados armazenados das formas como utilizamos essas redes – dos temas e assuntos que mais interagimos – escolhem o conteúdo que nos será exibido. E ela pode ter consequências negativas para o senso crítico, segundo pesquisas.

Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil.”

Eli Pariser Autor do livro The Filter Bubble

Segundo o professor da Universidade de São Paulo Eugênio Bucci, isto “exacerba o sentimento que sempre esteve aí, mas nunca nessa proporção, de autossuficiência em relação à própria visão de mundo, ao lado de um sentimento de impaciência, às vezes de intolerância e às vezes de ódio com o que é diferente.” A justificativa psicológica é provável: “Pra que se irritar ou se decepcionar ao ler um post de um amigo que tem visão política diferente da minha?”. E as redes sociais, nesse intuito, deixam de mostrar conteúdo desse amigo e de páginas que postam coisas que normalmente não são de seu interesse.

É a fabricação de uma ilusão de que a felicidade é feita na concordância, pontua Bucci.

Fixação tecnológica vista com outros olhos

Por Stefano Filippini

 

No começo de abril os rappers PARTYNEXTDOOR e Nicki Minaj, juntamente com o grupo de produtores Major Lazer lançaram o clipe do single “Run Up”, que conta até o presente momento com quase 21 milhões de visualizações no YouTube. Simulando uma festa em que os artistas estão presentes, em praticamente todas as cenas as pessoas estão com seus smartphones em mãos, gravando vídeos de si mesmos dançando, conversando por live chat, trocando mensagens ou simplesmente mexendo nos aparelhos. O diferencial do clipe é justamente esse, causar esse tipo de estranheza, em que as pessoas não tiram os olhos da tela nem durante uma festa em que poderiam estar interagindo pessoalmente.

Pode parecer que o clipe é uma crítica em forma de deboche do hábito, que se tornou comum, de estar com o aparelho em mãos toda hora, porém não é uma interpretação única, já que no clipe as pessoas não estão focadas na tela, apenas seus olhares. Em algumas cenas isso é retratado de forma ironizada, como quando uma garota mergulha na piscina com o celular nas mãos, e nas coreografias de certa forma esquisitas realizadas pela rapper e dançarinas. Mas seguindo a pegada da música, de “alto astral”, a imagem que fica é de pessoas dançando, conversando entre si; uma mensagem de que mesmo com os olhos fixos nas telas as pessoas não estão cada uma em sua “bolha”.

Nicki Minaj se tornou recentemente um exemplo de que a tecnologia como forma de interação social pode ser frutífera. Ela usou seu twitter na intenção de fazer um concurso, em que os vencedores iriam acompanhá-la ao prêmio musical da Billboard, e ela pagaria pelas passagens áreas, de qualquer lugar do mundo. Nisso, um dos seguidores respondeu pedindo para que ela pagasse pelos seus estudos ao invés disso, ao que ela respondeu que o faria se ele mostrasse seu boletim com boas notas. A réplica encorajou outros fãs, que encheram seu perfil de pedidos para que ela quitasse suas dívidas e financiamentos estudantis, além de custos de materiais. O resultado foi que alguns dos pedidos foram atendidos e ela afirmou que lançaria um programa para ajudar outros nos próximos meses.