Categoria: Simone Cristina Dantas Miranda

Estereótipos e a Espiral do Silêncio

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Por Simone Dantas Miranda

Quantas vezes por dia não repensamos atitudes, não fingimos ou não nos calamos para evitar uma discussão ou, principalmente, o medo do ridículo? Fato é que a diferença gera desconforto. E ingenuamente seguimos lutando para nos adequarmos a um grupo, ser o que os outros querem, nos encaixarmos em estereótipos, modelos predeterminados que nos confortam, nos são acolhedores.

Assim, nos mantemos inconscientes para a vida além do modelo que fizemos de lar. Além disso, falar o que pensa é muita responsabilidade. Quando não assumimos um estereótipo, podemos gerar conflitos e dificuldades que nos prejudicam na convivência social. É mais fácil não encarar o medo de se expressar. Há também o orgulho e até a preguiça de se esforçar em pensar por si, criar sua própria verdade e realidade.

Criar estereótipos é uma maneira de silenciar multidões e foi isso que a socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann estudou. A sua teoria da Espiral do Silêncio vai além, ela fala do impacto da opinião pública na opinião dos indivíduos. Para ela, os indivíduos tendem a omitir sua opinião quando são conflitantes com a opinião dominante por medo do isolamento. É quando, como falamos no início deste texto, repensamos, fingimos ou nos calamos. Existe, segundo a teoria, uma tendência progressiva ao silêncio, o que seria a espiral. A pesquisadora se dedicou a esse estudo porque existe um ônus social quando o silêncio domina, tal qual quando os estereótipos se formam.

Japão Antirrelacionamento

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Por Simone Dantas Miranda

A terceira maior economia do mundo, o Japão, vive um decréscimo de população. Anualmente a população diminui e a razão pode ser o desinteresse por relacionamentos. Segundo o levantamento do Instituto Nacional de População e Pesquisa da Segurança Social do Japão, 61% dos homens solteiros e 49% de mulheres entre 18 e 34 anos não mantêm relações íntimas. Mesmo os japoneses casados, de acordo com a pesquisa, sequer sentem atração sexual. Metade dos homens não fazem e sexo e a grande justificativa é que há atividades mais interessantes. É um paradoxo já que o Japão é o maior produtor de pornografia do mundo.

No país onde “morrer de trabalhar” não é força de expressão, ainda mais após a crise econômica que assolou o Japão na década de 1990, o trabalho pode ser uma motivação forte para que os relacionamentos sejam evitados. O governo japonês chegou a reconhecer em 2015 que 93 casos de excesso de trabalho contribuíram para suicídios e tentativas de suicídio e em outros 96 casos, trabalhadores tiveram mortes por ataques cardíacos, derrames, dentre outras doenças motivadas pelo excesso de trabalho.

Outro fator que contribui para desinteresse pelas relações sociais é o consumo de tecnologia. Os jovens investem o tempo e a atenção nos videogames, aplicativos de celulares e sites da internet. Por ser um país rico em que a população tem acesso a diversos produtos, fica mais fácil trocar os relacionamentos reais por virtuais. Há quem pague caro para conseguir o contato pessoal. Sites japoneses alugam companhia àqueles que já não sabem mais se relacionar com pessoas de outro sexo. O interessado escolhe e pago pelo serviço que inclui andar de mãos dadas e passear pela cidade por duas horas. Sem contato físico, o serviço é como uma consultoria para quem não sabe lidar com relacionamentos.

Retrocesso da diversidade

Por Simone Dantas Miranda
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Obra “Operários” de Tarsila do Amaral

“O Brasil é multicultural”. Para boa parte de nós, brasileiros, o multiculturalismo nos define. Peça pra explicar e nossos principais argumentos são de que aqui recebemos bem os imigrantes porque gostamos de estrangeiros, é terra de oportunidades e não temos problemas de intolerância.

Mas com tantos povos, etnias e religiões no mundo, o que nos faz acreditar que somos realmente tolerantes à diversidade. Ora, num país de maioria católica que hoje se divide entre petralhas e coxinhas, o simples fato de sermos um povo de cor de pele diversa não nos define como multicultural. Na verdade, pela nossa extensão territorial, detemos uma vasta cultura brasileira: no sul, a influência de nossos “hermanos” e traços da cultura europeia, africana e oriental em todo o país. Todo brasileiro que se preze teve um avô ou bisavô estrangeiro.

Na recente vinda de imigrantes do Haiti, entretanto, muitos cidadãos relataram olhares desconfiados de brasileiros. Psicólogos especializados em cultura, atendem imigrantes que chegam ao Brasil e tentam explicar porque, no ônibus, as pessoas não se sentem ao lado do estrangeiro de origem árabe.

Ao invés de caminharmos rumo ao respeito às culturas, alguns de nós, são intolerantes ao novo. Nossa cultura, apesar de historicamente construída com base na diversidade, nos fez avessos à diferença. Não falo do imigrante francês ou americano. Refiro-me àqueles que buscam em nosso país  exatamente o que ostentamos em discurso: terra das oportunidades.

Constatamos diariamente nos noticiários qual o resultado da intolerância: violência. Criticamos a política separatista dos líderes mundiais mas aqui, em nosso “quintal”, banalizamos as notícias de agressões e mortes que acontecem com as pessoas mais vulneráveis da sociedade, o que desconstrói qualquer concepção mitológica sobre o modo como nos relacionamos com a diferença.

Numa época marcada por intercâmbios culturais e o encurtamento de distâncias geográficas a diversidade passa a fazer cada vez mais parte do nosso cotidiano. No entanto, o medo do contato com o diferente pode fazer aflorar o fundamentalismo cultural. Esse medo do diferente é alimentado por uma série de preconceitos e pré-julgamentos que desumanizam sem, entretanto, conhecer. É o momento para reflexão: será que estamos preparados para o diferente?

Orwell segundo Richard Blair

Por Simone Cristina Dantas Miranda

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Boa parte dos leitores do clássico 1984 não sabe que George Orwell se chamava, na verdade, Eric Arthur Blair. Jornalista, nascido na Índia, foi morar na Inglaterra ainda criança. Adotou um menino e perdeu a esposa menos de um ano depois. Tuberculoso, Orwell foi morar na gélida Ilha de Jura, na Escócia.

Quando Orwell morreu, em 1950, seu filho Richard Blair era um menino de apenas 6 anos que hoje, aos 72, tem em sua memória lembranças de um pai amoroso, bem-humorado que lhe fabricava brinquedos de madeira. Apesar de não ter convivido com a obra do pai enquanto vivo, Richard Blair é um entusiasta do que herdou. Blair é presidente da Orwell Society, organização sem fins lucrativos que visa à promoção de debates sobre a vida e obra do pai.

Em entrevista ao El Pais, Blair lembra que além de escritor, Orwell era jornalista e se preocupava em deixar ensinamentos, sendo o principal deles a honestidade. “O mais importante são os fatos que você puder provar, não a realidade que você gostaria que fosse. Hoje, os jornalistas não têm tempo de checar os fatos, e os erros se perpetuam e se multiplicam na internet, até se transformarem numa verdade”, ressalta Blair.

A distopia de George Orwell, 1984, revela diversos paralelismos com a atualidade e, por esta razão se tornou sucesso de vendas quando Donald Trump assumiu a Presidência dos EUA. As teletelas, a novafala, a sociedade vigiada e a manipulação midiática descritas por Orwell como ficção fazem parte da nossa realidade. “A sociedade evoluiu para o que ele viu. O mundo se encaminhou para Orwell”, conclui Richard Blair.

Cada dia mais tornamos 1984 real. A intolerância e falta de diálogos comuns num Brasil dividido em Petralhas e Coxinhas e o desconhecimento do Ocidente dos desmandos dos líderes russo e chinês são exemplos que pouco são lembrados e que merecem a mesma visibilidade dos outros paralelismos encontrados na obra.

Pesquisa adverte: Instagram é prejudicial à saúde mental

Por Simone Cristina Dantas Miranda

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Que as mídias sociais impactam em nossa rotina, nós já sabemos, só não conseguimos mensurar o quanto. Essa é a proposta de uma pesquisa recente da Sociedade Real para Saúde Pública, do Reino Unido. No estudo, 1500 jovens britânicos com idade entre 14 e 24 anos avaliaram como as plataformas de mídias sociais que usavam impactavam questões como depressão, ansiedade, solidão e o senso de comunidade.

Os aplicativos de imagem foram indicados como piores para a saúde mental e bem-estar social. O Snapchat e o Instagram, segundo Shirley Cramer, chefe executiva da Sociedade Real para Saúde Pública, por terem foco na imagem, parecem estar associados à sensação de inadequação e ansiedade entre os jovens.

A constante preocupação com o que os outros pensam aliada à necessidade de estar online o tempo todo afeta de forma negativa o sono, a percepção do corpo e cria o medo de ficar de fora (fear of missing out), principalmente nos britânicos mais jovens que participaram da pesquisa.

Fato é que o Instagram tem 500 milhões de usuários ativos, 95 milhões de fotos postadas e 3,5 bilhões de curtidas diariamente. Não podemos culpar as redes somente, há que se pensar sobre o que é prioridade em nossa rotina e extrair de pesquisas como estas aprendizados que nos ajudem a orientar nosso grupo social. Quem não tem um amigo viciado em mídias sociais, que atire a primeira pedra.

Para reflexão: interação humana em xeque na era digital

Por Simone Cristina Dantas Miranda

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“Não sou anti-tecnologia, sou pró-conversação”. Esta é a principal fala da professora de psicologia social do Massachussets Institute of Technology – o MIT, Sherry Turkle. Autora de “Reclaiming Conversation”, lançado pela Editora Penguin, Turkle é considerada pelo jornal The New York Times um voz singular no MIT. Dividindo corredores com gênios criadores, roboticistas e engenheiros da computação, a psicóloga Sherry Turkle defende que o uso excessivo de equipamentos, ou seja, a hiperconexão faz com que a conversa cara a cara perca sua importância no cotidiano.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Turkle vai além e cita que as crianças estão perdendo a capacidade de empatia porque não há muita convivência familiar, já que os pais geralmente estão conectados, preocupados com demandas diuturnas em seus aparelhos de celular, relógios e tablets. Não é à toa que as fábricas de carrinhos de bebê já adaptam porta-celulares para pais e para os bebês. Segundo ela, os pais acabam buscando na tecnologia uma forma de distrair os filhos e os criam já hiperconectados.

A necessidade de conexão constante, segundo a pesquisadora nasce com o medo do tédio e de estarmos sozinhos com nossos pensamentos, traduzindo-se num desespero por estímulos constantes. E segundo uma pesquisa publicada pela renomada revista Science, o termo “desespero” não é uma exagero. O estudo das Universidades da Virgínia e de Harvard constatou que algumas pessoas preferem se autopunir, até com choques elétricos, a ficar 15 minutos sem acesso à equipamentos e sem nada para fazer. A psicóloga forense Sherrie Bourg Carter, de Fort Lauderdale, na Flórida, concorda com Turkle que as tecnologias modernas podem contribuir para a incapacidade de diminuir o ritmo. “Somos socialmente treinados para procurar estímulos a sensações no nosso trabalho e lazer”, disse Carter.

Para Sherry Turkle, a solução é simples mas demanda boa vontade: conversar mais. Segundo ela, temos o hábito de substituir uma conversa por e-mail ou mensagem de texto justamente para evitarmos enfrentar nossos sentimentos, já que o texto pode ser editado e nos ajuda a apresentar uma versão nossa mais controlável. Ocorre que já foi comprovado que, no ambiente de trabalho, a produtividade, a colaboração e a criatividade aumentam quando há espaços para conversas. No ambiente familiar, Turkle sugere que criemos “espaços sagrados” em que não seja permitido o uso de aparelhos, seja ele o jantar diário ou um ambiente da casa.

No livro Reclaiming Conversation, Sherry Turkle destaca que estamos treinando nosso cérebro para a dependência aos estímulos tecnológicos porque não sabemos lidar com a solidão. “As pessoas se sentem juntas mas sozinhas porque têm muitas conexões mas nenhuma conversa”. Ela defende que ao termos uma vida em que nunca estamos sozinhos de fato até o nosso senso de identidade muda e passamos a ficar menos capazes de conviver conosco e com pessoas de verdade.

Insensibilidade ou a banalidade do mal

Por Simone Cristina Dantas Miranda

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A filósofa alemã Hannah Arendt inaugurou o termo “banalidade do mal” no livro Eichmann em Jerusalém. Após sofrer perseguições na Alemanha nazista, a intectual judia foi cobrir, anos mais tarde, o julgamento de Adof Eichmann, ex-membro da SS, responsável pela logística de prisioneiros do regime de Hitler.

Durante o julgamento, Arendt concluiu que Eichmann não era um sujeito particularmente perverso. Ele era parte de uma engrenagem maior, era um mero funcionário que cumpria ordens de um grupo social que agiu no vácuo do pensamento, que tornara a violência trivial. Talvez ele fosse apenas insensível a ponto de não perceber o mal que fazia ao planejar suas tarefas diárias. Talvez.

Se era insensibilidade, o que distancia nossos militares e militantes políticos na ditadura da banalidade do mal apresentada por Hannah Arendt? Também não seriam dois grupos tomados por seus ideais usando a violência como única forma de fazer valer seu pensamento? Talvez.

E o que dizer de um país que registra mais mortes violentas do que o Oriente Médio em guerra? É o Brasil em comparação com a Síria, segundo o anuário de Segurança Pública. Não sabemos os nomes de nossas vítimas mmas quem não se lembra da imagem que chocou o mundo do menino sírio Alan Kurdi, encontrado morto numa praia da Turquia após uma tentativa de fuga da guerra.

Hannah Arendt foi muito criticada por sua visão em relação ao homem acusado de genocidio e crimes contra a humanidade. Cabe uma auto-análise de nossa parte quanto ao horror que vivemos diariamente no Brasil. Vemos barbáries contra índios, execuções em presídios, tiroteios diuturnos nas comunidades cariocas, vandalismo em protestos de trabalhadores. Se já nos esquecemos de Maria Eduarda, estudante morta dentro da escola na Pavuna (RJ), de qual excesso sofremos: informação, violência ou insensibilidade?