Categoria: Roberta Civitarese Sacramento

O furo

Anos atrás, ainda estagiária, acompanhei uma equipe de reportagem na cobertura de um julgamento muito esperado na cidade. Toda a imprensa estava lá, só se falava disso a semana toda. A caminho do Fórum, recebemos uma ligação mudando a nossa pauta. A mando do dono da emissora, em vez de noticiar o julgamento, iríamos ao comitê de um político para divulgar a sua “não candidatura”. Parecia pegadinha… mas não era. Esse foi o meu primeiro contato com a política interferindo no jornalismo. Isso me fez descrente? Não exatamente… E eu explico o porquê.

Trabalhei em afiliadas por mais de dez anos. E foi nessas emissoras que aprendi a ter garra como jornalista. Histórias como essa do julgamento não aconteceram mais dessa forma descarada, mas coleciono várias outras bem parecidas – e pra ser bem precisa, elas ocorreram mais pelo interesse pessoal de alguns funcionários do que propriamente por uma linha editorial. Por outro lado, tenho capítulos muito mais emocionantes sobre a busca por uma boa reportagem, por belas imagens, por informações difíceis de conseguir e realmente importantes para divulgar. Quando se trabalha com equipes engajadas, apaixonadas, os “poréns” da profissão ficam de lado muito facilmente. Quando as matérias boas são conquistadas, quando elas fazem diferença na vida de alguém, quando a gente assiste o material pronto, sabendo de todo o trabalho que deu pra conseguir cada virgule e percebe que vale a pena, isso faz toda a diferença para um jornalista…

Nesse tempo de profissão vi muitos colegas, principalmente de outras emissoras, falando sobre os absurdos das condições em que trabalhavam. Não só por causa da estrutura das empresas, mas pela forma como eram obrigados a conduzir algumas reportagens. Isso, apenas quem conviveu dentro desse meio sabe. O público não. Quem dá audiência ou reclama dela, frequentemente só consegue julgar os profissionais, mas dificilmente conhece os contextos de trabalho.

Claro que esse é apenas um ponto de vista… Não é possível generalizar nem ignorar reportagens que passam dos limites, como uma feita por celular, de dentro do velório de algumas das vítimas do voo da Chapecoense. Jornalistas cometem abusos, empresas de comunicação se associam a políticos, o público tem dificuldade de interpretar o que lê e o que vê, e em qualquer situação, o julgamento cruel sempre aparece. Passamos por um período de mudança tão intenso que estamos todos meio confusos. Acredito que toda crise antecede transformações positivas, o problema é saber quando elas virão. Os desafios jornalísticos para o futuro são claros, mas descobrir o que faremos para mudar esse quadro será o nosso maior furo.

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A notícia que não queremos dar

A dor de noticiar a morte de um colega de trabalho é inexplicável. Mas tem coisas que a gente não precisa mesmo explicar. A gente sente, e quem assiste ou lê uma reportagem dessas percebe e sente junto… Nessa tragédia com o avião da Lamia foram inúmeros esses momentos.. Pra mim, particularmente, foi impossível ver o jornalista Ari Peixoto chorar ao falar da liberação do corpo do colega Guilherme Marques e não chorar junto. Passou um filme na cabeça…

Quase 12 anos atrás, quando eu ainda morava e trabalhava em Juiz de Fora, minha equipe foi pautada para cobrir a morte de um homem, funcionário de uma serralheria. Nós nunca podíamos imaginar que acabaríamos cobrindo a morte de um homem sim, mas outro, um jornalista amigo de todos. Durante a nossa pauta inicial tivemos problemas e ligamos para a redação. Entre várias gaguejadas do outro lado da linha, ficamos sabendo de um “possível acidente fatal com o Antônio Marcos”, nosso companheiro de trabalho.

Aquela notícia era tão absurda, tão improvável, que a minha primeira reação foi negar. O repórter cinematográfico, então, pegou o telefone e ligou para polícia rodoviária. Confirmou a informação. O Antônio, que tinha acabado de ser pai, morreu num acidente de carro a caminho de Ubá, cidade próxima, onde ele dava aula de jornalismo. Eu sentei no chão e chorei horrores. Voltamos pra redação e todos estavam completamente atônitos. A nossa chefe disse que o RH estava cuidado de tudo e acrescentou algo como “precisamos enviar alguém”. A minha equipe foi. De todas as reportagens que fiz na vida, todas as tragédias, mortes, rebeliões, tiroteios, nenhuma foi tão dolorida quanto cobrir a morte, o velório e o enterro de um companheiro tão querido.

Se há um lado “bonito” nesses momentos, esse lado é a união que se forma. No mesmo instante em que vi a metade que restou do Ford Ka do Antônio, uma das editoras mais queridas que já tive, a Fia, me ligou. Eu só chorava. Ela falou firme comigo e me ajudou a ficar mais equilibrada para trabalhar. Anos depois ela se emocionou lembrando disso e falou que na redação todos estavam destruídos também, claro, e que precisávamos ser fortes. É verdade. O Antônio era respeitado demais pelo público, pelos outros veículos, pelos atletas…. Ele era a cara do jornalismo esportivo na região. Produzia, editava, reportava, apresentava o nosso Globo Esporte. A gente tinha que noticiar. E para colocar os jornais no ar foi um mutirão! Apareceram amigos que nem trabalhavam mais em Juiz de Fora. É uma união emocionante demais. Com certeza as redações desses mais de 20 jornalistas mortos no acidente da Colômbia também precisaram de mutirões esses dias.

Não dá pra acompanhar uma tragédia sem refletir, pesar o que tem ou não valor na vida, ou sem se solidarizar com os que ficam. Nunca escrevi sobre o Antônio Marcos antes, mas lembro dele e da família sempre. Desejei imensamente que tivessem forças para superar a perda. É exatamente esse sentimento que transmito hoje para todos os que perderam seus filhos, maridos, irmãos, pais, amigos. Que todos sejam devidamente assistidos, que as autoridades cumpram os seus papéis e que gente consiga ser mais solidário todos os dias. Ninguém sabe o que pode acontecer daqui a pouco…

Um funcionário é agredido por vândalos e a culpa é da empresa??

Em uma das notícias sobre a agressão que o jornalista Caco Barcellos sofreu dias atrás, o título é “Agressão a Caco Barcellos é abominável e a culpa é da Rede Globo”. Oi?? Quer dizer que os agressores não são os responsáveis? Quer dizer que o ódio que eles sentem pela emissora pode ser transformado em pancadaria, que a responsabilidade não é deles? Sinceramente eu gostaria de conseguir entender qual o sentido de um raciocínio como esse.

Caco estava cobrindo o ato dos servidores públicos estaduais na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, para o programa Profissão Repórter, da Rede Globo. O título citado acima é de uma reportagem divulgada no site Pragmatismo Político, que se disfarça com “boas intenções” para apoiar a violência cometida. A matéria começa dizendo “O ódio que a Rede Globo inspira transbordou e acabou por se transmitir aos jornalistas da empresa — incluindo o honesto e competente Caco Barcellos, que sempre gozou de boa imagem mesmo entre o público progressista.”

Primeiro: progressista?? Progresso é sinônimo de violência? Segundo: Caco realmente sempre manteve uma boa imagem, mas dizer isso com tom de vitimização para valorizar o ódio contra a Rede Globo é incitar mais violência.

Particularmente acredito no boicote. Mas o boicote está casado com a união e esse não é o forte dos ignorantes. Revolta, eu e milhares de outras pessoas também sentimos… não necessariamente contra uma emissora, mas não nos faltam motivos com o país e o mundo como estão. Cada um de nós toma medidas que entendem certas, mas elas são certas quando prejudicam diretamente alguém que não é o foco da revolta? É legítimo um movimento assim?

Numa época em que defendemos a igualdade de gêneros, que combatemos a violência sexual, que pregamos a liberdade de cada um se vestir como quer, andar como quer, casar com quem quiser… como podemos nos achar no direito de impedir um trabalhador de cumprir o seu papel social? De agredir esse cidadão, e ainda dizer que isso é culpa da empresa onde ele trabalha? Como??

Está cada dia mais difícil ser jornalista. Essa profissão apaixonante está se perdendo em meio a tanto ódio. Acho positivas as transformações que ocorrem em momentos de crise, mas tenho muito receio do rumo que estamos tomando. O público continua alimentando as novelas, os jogos de futebol, tudo o que dá mais dinheiro para a emissora. E quando se revolta, é contra um trabalhador. Já foram vários, não só nas sedes, mas também nas afiliadas. Procuro uma palavra para definir o que isso significa e só penso em ‘deprimente’.

Tatum e o Reitor

A semana começou inspiradora do ponto de vista desta jornalista que voltou às salas de aula depois de 12 anos de formada. Pela primeira vez em todo esse tempo, participei de um trabalho acadêmico em grupo e foi uma experiência tão inspiradora, que me proporcionou algumas reflexões antes, durante e depois da apresentação.

Quando optamos por uma disciplina no semestre, a experiência e indicação de outros alunos contam muito. Foi assim comigo e com alguns colegas que fazem ou já fizeram “Mídia, Complexidade e Poder”. Mas apesar dos comentários positivos sobre a matéria, eu não imaginava que teria semanas tão reflexivas e acho que isso faz toda a diferença no jornalismo. Este texto, porém, não é para falar da condução da disciplina, mas da oportunidade de participar de um grupo tão bacana, que gerou uma discussão muito produtiva ao meu ver.

Hoje, quando me programei para escrever o post da semana, até pensei que seria mais apropriado e factual falar da eleição de Donald Trump, mas não encontrei motivação tão grande quanto a que Tatum e o Reitor me deram na segunda-feira. A postagem então, vai para os “Abutres”!

Produzir o “jornal” da nossa apresentação foi uma delícia, com um grupo tão criativo, profissional e unido. Mas depois, refletindo, percebi que falar para a turma e gerar o debate sobre espetacularização foi ainda melhor. A razão é simples: com a criação das nossas “reportagens“ sobre o reitor corrupto, não só apresentamos paralelos com algumas teorias jornalísticas, como demonstramos na prática o que uma notícia inventada pode provocar. Fico imaginando como seria a reação do público ao ler o Jornal de Albuquerque e descobrir que Leo morreu por culpa do Tatum. Ao conhecer a verdade…

Reagir à verdade é difícil porque percebemos o quanto estamos vulneráveis à mentira. Eu não gosto e acredito que a maioria também não. Mas para fins de uma apresentação acadêmica, vi a experiência como produtiva e me sinto grata por fazer parte de uma turma tão interativa como a nossa.

“Divorciada aos 10 anos”

Alguns textos são tão encantadores que nos inspiram. Algumas histórias são tão tocantes que precisam ser contadas e lembradas. Quando eu me deparo com uma história bem contada e penso que não mudaria uma vírgula sequer, logo me pergunto se os outros leitores também se sentiram preenchidos de conhecimento.

Se temos bons escritores, jornalistas ou não, precisamos conhece-los e precisamos divulga-los! São os bons textos que nos levam àquele lugar que nunca visitamos e que nos apresentam costumes que nem sonhávamos existir. Acredito que esses encontros com histórias tão diferentes das nossas são vitais para o nosso crescimento na humanidade. Se fosse usar uma frase feita que se aproxima disso seria “conhecer os problemas dos outros para ver que os seus não são tão grandes”, mas além de preconceituosa, essa expressão não alcança o real valor de se conhecer novas realidades.

Recentemente li um texto da jornalista Eliane Brum sobre uma menina chamada Nujood. A reportagem é de 2010 e conta a história de uma criança de Sanaa, capital do Iêmem, que aos 10 anos conseguiu driblar a família e todos na rua, para ir direto ao tribunal pedir o divórcio. Divórcio!! Trazer qualquer trecho para este post é fazer uma seleção injusta num texto tão profundo e hipnotizante, apesar do tema sofrido. Nujood teve a força que muitos adultos não encontram para mudar um “destino” trágico e foi a inspiração para várias outras meninas também buscarem seus divórcios num país onde oficialmente os casamentos são proibidos antes dos 17 anos, mas são extremamente comuns a partir dos nove.

A determinação de Nujood é o foco da reportagem. A mudança que ela provocou em outras meninas do seu país é a segunda grande vitória que conquistou, mesmo que não tenha pensado nisso antes. E nós podermos ler essa história de uma forma tão preocupada, respeitosa e tão rica, sem espetacularização, é uma aula sobre o mundo em que vivemos e sobre como fazer um bom jornalismo.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI126936-15230,00-DIVORCIADA+AOS+ANOS.html

 

Democracia mambembe

Você liga a tevê e começa a zapear pelos canais abertos, assiste a vários jornais e de repente percebe que apesar de muitas notícias iguais, há outras tão importantes quanto – ou até mais relevantes – que não foram sequer citadas em algumas emissoras. Só que também há aqueles fatos que não há como ignorar, todos devem noticiar, certo? Mas aí você, que ainda está de frente para a televisão, pode notar uma outra característica entre um jornal e outro: a forma de divulgar esse fato. Uma reportagem completa seguida de comentários nos permite receber informações mais ricas. Por outro lado, uma simples nota sem imagens também é notícia… ninguém pode falar que o tal fato foi ignorado, mas sabemos que o pouco destaque dado serviu apenas para “cumprir tabela” nos jornais. Na prática quase ninguém absorveu a informação, então é como se ela não tivesse sido dada.

O contrário acontece? Claro que sim! Todos sabemos que a notícia-espetáculo pertence a todos os grandes veículos de comunicação. O exemplo acima foi de telejornais por serem os mais populares, mas os impressos, as rádios, a internet, todos estão contaminados pela democracia mambembe. Como muitos colegas já destacaram em suas publicações, sabemos o quanto política e imprensa infelizmente estão conectados. São muitos os nossos políticos que possuem veículos de comunicação, e conhecemos as consequências. Outro “detalhe” é que 667 desses veículos estão ligados a apenas seis empresas de comunicação. Os números são da EBC – Empresa Brasil de Comunicação – que está na corda bamba no governo atual. A EBC foi criada em 2007 para gerir as emissoras de rádio e televisão públicas federais, ou seja, todas da grande mídia, já que elas funcionam por meio de concessão.

Muitos militantes sérios se dedicam há tempos à causa da democratização da mídia. Nós sabemos, mas somos poucos. A grande massa teria acesso mais fácil às razões dessa luta se ela fosse divulgada amplamente… Encontramos um obstáculo aqui, não é? Um lado positivo é o crescimento de portais alternativos de notícia, que têm explorado esse lado pouco conhecido e incentivado a busca por informações de qualidade. A minha torcida está em profissionais ao mesmo tempo menos passionais, mas mais apaixonados pela razão de existência do jornalismo. E por leitores e telespectadores menos haters e mais conscientes e críticos.

Ainda estou de boca aberta!

Esses dias peguei pra ler uma entrevista e já no título tive certeza de que era coisa do Sensacionalista. Em cada frase dos primeiros parágrafos era nítida a crítica ao “estilo de vida” da entrevistada. Quando li a citação “o Minhocão hoje pra que serve? Quase nunca fui lá. É tipo um viaduto, né?”, dei gargalhada!! Esses caras se superam no humor… Ao fim da entrevista, que ficou cafa vez mais engraçada, procurei por aquele alerta que o Sensacionalista sempre faz para as notícias fictícias. Não achei. Aí percebi que eu não estava na coluna deles na Folha de São Paulo, estava na página Eleições 2016. Aquela era uma entrevista real e eu fiquei uns bons minutos de boca aberta tentando entender o que eu tinha lido.

Bia Dória é uma das figuras mais fora da casinha que a gente podia ter como primeira dama. Fiquei pensando e não sei o que é pior: ela ter esse “conteúdo” da entrevista ou ela não ter noção da entrevista que deu! Bia, por exemplo, defendeu a diminuição da desigualdade social, dizendo “no Morumbi tem aquela favela, né? Paraisópolis. Ali é a Etiópia, mas eles respiram o mesmo ar, sentem o mesmo frio que a gente”, e concluiu o raciocínio com um “Não adianta ter uma funcionária que chega no ateliê e tem problemas de nutrição.” Outra pérola foi “Imagina como eu ficaria feliz se chegasse uma arrumadeira já sabendo fazer as coisas. Pouquíssimas delas sabem, a não ser as que já passaram por várias casas, mas aí elas vêm cheias de manias.”

A lista de citações é enorme, até porque ela também deu uma entrevista incrível para o Estadão. Defendo como leituras “obrigatórias”. Não dá pra ignorar uma ignorância dessa! Eu me coloquei no lugar dos repórteres que fizeram as entrevistas e fiquei pensando qual a seria a minha reação na posição  deles. Se agora, uma semana depois de ler essas comédias, ainda estou de boca aberta, acho que se fosse eu a entrevistá-la, iria… Acho que eu ia… Realmente não sei! Essa pessoa me tirou as palavras e tem me feito refletir muito sobre como debater com alguém que não oferece os argumentos que estamos acostumados. Aceito sugestões.