Categoria: Paula Fonseca

O Medo e o Colégio Totalitário

Todo ano, em meados de Outubro, um colégio na Baia de São Francisco, nos EUA, vira um Estado totalitário. Andrew Simmons introduz a obra 1984 de George Orwell de forma brilhante: com a ajuda dos juniors e de uma conta de Instagram aberta unicamente para o exercício, o professor persegue os alunos do último ano como o IngSoc perseguia Winston Smith. Todos os dias os mais novos fazem um relatório de conduta dos mais velhos indicando faltas, desleixo, hábitos e conduta. Simmons vai todo ano ainda mais além e distribui pelo colégio panfletos e pôsteres com seu rosto e inventa todo ano um nome diferente para o partido do qual é o líder soberano, como o Big Brother de Orwell. O slogan desse ano foi emblemático: “Faça do colégio um lugar SEGURO novamente”, fazendo alusão à frase de efeito da campanha de Donald Trump.

1984 sempre reflete algum aspecto da sociedade – daí a genialidade do livro – mas, segundo Simmons, esse ano o trabalho foi ainda mais significativo. Em uma escola com 65% dos estudantes de origem latina, o professor viu os alunos atormentados com a eleição de Trump. “Os estudantes contaram que aprenderam quão rapidamente uma missão supostamente feita para o bem maior pode mudar de curso, ter mudanças previamente pensadas. Eles admitiram me seguir no Instagram sem considerar o risco de uma “autoridade” ter acesso às suas vidas privadas.”, conta o professor.

Os juniors não questionaram em momento nenhum a autoridade do professor e o porquê da perseguição aos alunos mais velhos. Paradoxal, no mínimo, com o porquê do discurso do presidente-eleito a respeito dos imigrantes latino-americanos e seu discurso de ódio às minorias como um todo.

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Sete ondas

Sobre como eu me sentia no dia primeiro de um ano assustador, uma dica: completamente diferente de hoje.

Por Paula Fraile Fonseca

 

01/01/16

“It was the best of times, it was the worst of times.” – Charles Dickens

Prezados,
Sintam-se à vontade para julgar esse texto tão prolixo, mas sinto que a gravidade do assunto me dá certa licença poética de não ser desta vez impessoal como sempre. Venho em meio desta informá-los de um grande marco na linha do tempo. Um grande milagre, quiçá.
Acontece que não ficamos presos no espaço-tempo. Roberto Carlos não morreu. O mundo não acabou. Comemos uva passa no arroz. É verão de novo. Estamos todos ainda embriagados das festas de ontem à noite. E acima de qualquer coisa, sobrevivemos: ninguém que eu conheça morreu de fome nem de amor, sortudos que somos.
Digo tudo isso porque venho informar coisa séria: 2015 acabou, meus caros.

* pausa para um longo suspiro *

Eu tive pouco dinheiro mas bastante tempo livre em 2015  – me considero inclusive uma especialista no Efeito Borboleta e em cinema mudo – e no ano passado li um artigo que falava sobre restauração de obras de arte. Nele, aprendi que no Japão nasceu uma técnica de restauração, o Kintsugi. Vasos quebrados tem maior valor, posto que são restauradas com ligas de pó de ouro suas peças, como uma forma de aceitação da quebra. Embeleza-se a perda.
Penso nisso porque preciso de uma justificativa excepcional para a frase que vem a seguir. É bombástica, se segurem. Que rufem os tambores: 2015 foi um bom ano.
Bombástica porque não conheci uma pessoa esse ano que tivesse me dito que teve um ano bom. Me incluo nessa. Vi amigos trabalharem à exaustão e ganharem muito pouco, mandarem currículos diariamente e tomarem não na cara. Isso sem falar nas perdas emocionais. Lastimas em série. Eu mesma tomei socos dignos de Sugar Ray Robinson da vida, também soquei e o karma está aí para tal função. Mas vi coisas maravilhosas acontecendo.
Em 2015 vi pessoas e coisas e barragens e cidades se esparramarem em mil pedaços, mas vi um esforço conjunto pra colar as partes quebradas. Vi gente unida rezando por suas causas em paz, vi revolta apaixonada com aquilo que é errado no mundo, vi mulheres indignadas crescerem como lobas a ocasiões degradantes. Vi o pó de ouro dos dias reconstruir pequenas mazelas da vida, e apesar de saber que o mundo tem um longo caminho a percorrer, a ponte vai sempre ser a mão do homem.
Comigo e meu sangue mexicano, por exemplo, me vi esparramar pelo chão do quarto quando alguma coisa me partia o coração. E eu chorei em 2015. Mas nunca pelas dores, não; pelas mãos que me estenderam; pela bravura de quem me defendeu. Chorei porque meus cacos foram  colados com ouro maciço. E hoje tenho maior valia. Dei valor às minhas famílias. Fiz e refiz amigos maravilhosos. Me libertei de amarras em que eu mesma me prendia. Perdoei o que mais me doía na vida. E ri. Ri infinitamente.
Minhas cicatrizes são ligas de ouro. Terminei 2015 feliz, amada. E não, eu não tenho hoje, primeiro de ano, uma lista de resoluções. Continuo errante, doida que sempre fui. Mas criei em 2015 um senso de esperança, uma base sólida e pilares fortes para montar a vida. “Hoje minha vida combina comigo, dos pés à cabeça.”
Sigamos em frente, supersticiosos: 2016 começou. Vamos recomeçar.

“Ele já sabia, Ele sempre sabe”

Por Paula Fraile Fonseca

“Comecei no estágio novo super empolgada, eu achava aquele professor o máximo, extremamente inteligente, detalhista, perspicaz, minucioso, brilhante. Como poderia ser ruim? Até que as coisas começaram a ficar esquisitas, vários presentes injustificados, mensagens por WhatsApp totalmente fora do contexto do trabalho (P.ex: “sou seu fã”, ou “você é demais”) e fora de hora, muitas, muitas, muitas, perguntas de cunho pessoal. Na época eu desconfiava, mas pensava: acho que não, ele é professor da UnB, me deu 1 ano de aula, é procurador do DF, tem um currículo e uma reputação impecável, é casado, ele não faria isso”.

Esse foi o depoimento de Ariadne Wojcik em sua página no Facebook. Logo depois da postagem, a jovem cometeu suicídio. Seu corpo foi encontrado nesta quarta-feira, dia 9, em um ponto turístico da Chapada dos Guimarães, a 65 km de Cuiabá.Ariadne se referia ao professor da UnB, Rafael dos Santos, que também atua como procurador do Distrito Federal.

No relato, a advogada descreve claramente os passos do terror psicológico que um sociopata pode causar em outro ser humano. A vítima começa como uma “subordinada” do agressor que a coloca em um topo psicológico para começar a tirá-la de lá – no caso, o pedido por uma vaga de estágio, a alegria da jovem ao conseguir o novo emprego com alguém que admirava – e desse topo os abusos se desencadeiam, destruindo a autoestima da vítima. No caso de Ariadne, que apresentava um quadro de depressão, todo o processo foi ainda mais fácil de ser conduzido. Após um longo processo de stalking, onde Rafael tinha conhecimento de fatos detalhados sobre a vida da estagiária, Ariadne deu cabo da vida. A suspeita é de que ela chegou no Mirante em um táxi e se jogou logo em seguida.

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A carta aberta de Ariadne Wojcik no Facebook.

A réplica do professor às acusações também soa bastante clássica. Segundo o procurador, um dossiê que provaria sua inocência já havia sido elaborado, mas Rafael não o entregou à reitoria da UnB para preservar a aluna. A defesa alega que Ariadne era quem perseguia o professor e se apoia também em seu diagnóstico de depressão profunda, entre outras alegações infundadas.

Mais um caso de uma mulher sofrendo assédio. Mais um caso de diminuição de uma patologia que se espalha como um vírus pelo mundo. Mais um caso de abuso de poder. Abstenho-me de comentários.

Suicide Bling

Por Paula Fraile Foseca

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“Eu sinto muito pela vitória de Trump, pessoal” – seguido de números de telefone e de mensagem de texto para prevenção ao suicídio e para o Trevor Project, projeto de apoio aos jovens LGBT.

Na madrugada do dia 9 o mundo acompanhou incrédulo a contagem de votos da eleição dos Estados Unidos. O inesperado se desenrolava minuto a minuto: Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da América. O motivo da surpresa é obvio. O candidato republicano apresentou uma campanha regada a propostas extremistas, xenofóbicas, machistas, homofóbicas. O presidente eleito fez emergir o lado mais anacrônico dos republicanos. Mas isso é notícia velha.

Relutei tanto para sentar e escrever sobre a eleição que desisti de tentar entender seus tramites e virei minha atenção para o eleitor, mais uma vez. Além de todos os tuites e posts de Facebook de jovens americanos devastados com o resultado da eleição, outros indicavam números de atendimento telefônico de prevenção ao suicídio e de apoio a jovens LGBT. O extremismo do presidente eleito é tamanho que as minorias congestionaram as linhas. Alguns preferem cogitar o suicídio a viver as propostas do novo presidente.

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“tornar a América maravilhosa novamente? sério? maravilhosa como? literalmente o fato de Trump ser presidente causou congestionamento na linha nacional de prevenção ao suicídio!”

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“Eu sou mulher. Sou judia. Vou me casar com um árabe-americano. Minha cunhada é deficiente. Sou vítima de abuso sexual. É pessoal.”

Ao longo da semana, várias notícias surgiram com relação ao mandato de Trump. Algumas afirmando, inclusive, que a fala conservadora do presidente fora suavizada pelo próprio. Outras, dizendo que ele mantém o discurso da campanha. Entre as últimas, foi divulgado o plano de Trump para os cem primeiros dias de mandato.  Além de extinguir o Obamacare, o ponto mais marcante foi a deportação de três milhões de imigrantes ilegais.

A verdade é que ninguém sabe como Donald Trump governará. De qualquer forma, tempos difíceis estão por vir.

O Eleitor Onisciente

Por Paula Fraile Fonseca

Na tarde do último domingo, dia 30, Marcelo Crivella, candidato do PRB, foi eleito prefeito do Rio de Janeiro com uma vantagem de 59,36% dos votos válidos sobre Marcelo Freixo, do PSOL. Vitória já esperada da direita, a grande vencedora das eleições municipais. Retrato da crise política no país.

Retrato esse retificado pela quantidade de votos não válidos por todo país – o que inclui a presidente eleita Dilma Rousseff e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que decidiram não votar no segundo turno. No próprio Rio a quantidade de votos nulos, brancos e a abstenção foi maior do que o percentual de votos de Freixo e Crivella somados no primeiro turno. No segundo turno o “não voto” superou novamente o percentual de Freixo: 1.163.662 votos (40,64% dos votos válidos) do candidato, enquanto o número de cariocas que não foram às urnas chegou a 1.314.950 – o equivalente a 26,85% do eleitorado. Os votos em branco somaram 149.866 e os nulos, 569.536. O candidato do PSOL, inclusive, se aproximou dez pontos percentuais de Crivella na última semana de campanha engajado em mudar os votos não válidos. Cada voto fazendo a diferença, ao menos nas pesquisas.

É o povo cada vez mais exausto e avesso à política, apesar da grande reviravolta que teve Brasília como palco, da saída de Dilma Rousseff do poder, da Operação Lava Jato ou do dito heroísmo de Sérgio Moro. A própria campanha de João Dória, que teve vitória esmagadora em São Paulo com mais de três milhões de votos, fora baseada na justificativa de que o candidato não é político, é empresário. Ponto para a mídia; ponto para a manutenção dos poderosos no poder.

O cidadão claramente quer uma reforma política, mas se nega a repensar a democracia. Abstém-se de impactar o sistema político, de narrar uma história ao lado de outros milhões, um voto por vez. Não narra porque não sabe que participa de tudo. Esquece que está intrinsecamente ligado à política, como qualquer cidadão, mas é tão cegado por tantos fatores – entre eles o midiático – que se abstém de escrever a história do país. Narrador de visão turva: pensa-se onisciente; é narrador-personagem de uma eleição, mas não vê.

Uma coleção sobre o Brasil

Por Paula Fraile Fonseca

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“Hoje fui procurar umas blusinhas legais para comprar e entrei na loja da Maria Filó […] Começo a olhar as roupas e me pergunto: ‘Confere? É uma estampa de escravas entre palmeiras.’” Esse foi o relato, via Facebook, de Tâmara Isaac, 29 anos, servidora pública. Mulher, negra.

A grife carioca Maria Filó, consolidada no mercado desde 1997, pôs à venda em uma de suas últimas coleções, batizada de “Pindorama” – local mítico na cultura tupi-guarani – uma estampa que retrata duas mulheres negras, com uma iconografia clara à escravidão. Tâmara, ao perguntar à vendedora do que se tratava a peça, ouviu uma resposta amarga: “É uma coleção sobre o Brasil.” Não suficiente, quando procurada, a grife emitiu uma nota dizendo que a estampa buscou inspiração na obra de Debret. A obra é de Johann Moritz Rugendas e o título é “Negras no Rio de Janeiro”, uma litografia de 1835.

Me pergunto qual o retrato real que essa releitura em forma de estampa corrida passa, no atual momento histórico. Me vêm à cabeça o mercado de moda no Brasil e meu discurso de sete anos como profissional nesse mercado: “O brasileiro tem que aprender a consumir moda do Brasil!”, e me pego aqui, com essa síndrome de vira-lata tão comum ao nosso povo, que me permito sentir em momentos como esse.  O próximo momento é de desilusão com a educação do país, não só de moda, mas de maneira geral, que tende, com o atual viés político, piorar consideravelmente. Inclusive as aulas de História do Brasil. Aulas às quais o estilista claramente faltou.

Mas o primeiro pensamento, o mais amargo, foi a vergonha perante a essa consumidora. Vergonha que envolve todos as vergonhas já citadas. Vergonha pelo dia em que uma mulher negra quis consumir moda brasileira, entrou em uma loja de raiz carioca,  viu o retrato de um país de histórico racista e desigual e ouviu que aquele retrato era uma coleção de moda sobre o Brasil.

1984: sobre o autor e como é retratado no livro

De filho de funcionário colonial britânico, nascido na Índia, a conhecido entusiasta do Partido Trabalhista Britânico. De funcionário da Polícia Imperial Indiana a escritor. De anarquista a socialista anti-stalinista. De pacifista a soldado que lutou, pelos republicanos, contra nacionalistas de Francisco Franco, na Espanha. Finalmente, de Eric Arthur Blair a George Orwell, nome pelo qual ficaria conhecido como um dos maiores autores de ficção – e, mais especificamente, distopias – do mundo.

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Sua trajetória pessoal é muito nítida em 1984 e A Revolução dos Bichos, suas maiores obras. Especificamente em 1984, Orwell critica a sociedade oligárquica coletivista – algo semelhante ao sistema colonial britânico, do qual seu pai era funcionário -, a vigilância constante – da qual fez parte durante seus dias na Polícia Indiana -, e a um regime político totalitário – contra a qual lutou na Espanha.

1984 é, se não, um retrato das lutas pessoais de Orwell contra o sistema vigente durante sua vida, entre 1903 e 1950. Anos marcados por grandes guerras e totalitarismos que controlavam completamente as máquinas estatais, entre elas a opinião e a linguagem – novamente, críticas presentes na obra que tem Winston, um apagado funcionário do Ministério da Verdade da Oceania, como personagem principal.

À época já lutando contra uma tuberculose, que acabaria por tirar sua vida um ano depois da publicação da obra, Orwell encerra 1984 traçando um paralelo entre sua própria existência e a de Winston: é necessário lutar contra o sistema, mas é impossível não se agarrar a ele.