Categoria: Patrícia Bernardo de Almeida

Para não me esquecer do George Orwell

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Por Patricia Almeida

Fazer um seminário sobre 1984 me fez ter a oportunidade de reler esta obra que é uma de minhas favoritas. Para mim, a literatura é algo imprescindível, necessário. Como disse Todorov, “se me perguntam por que eu amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é porque ela me ajuda a viver”.

Por isso, com este meu último texto aqui no blog quero trazer alguns livros de George Orwell como indicação de leitura. Provavelmente todos conhecem A revolução dos bichos, que, assim como as demais obras/filmes abordados nos seminários, é muito atual. Essa obra se passa em uma granja cujo líder é o Sr. Jones, que acaba destituído do poder em decorrência de uma revolução liderada pelo Porco Maior. Com esse livro, Orwell satiriza revoluções nas quais os “inferiores” conquistam o poder e, em seguida, acabam sucumbidos por ele.

Tem também o Dias na Birmânia, que é o seu primeiro romance e nos mostra como era a situação nas colônias britânicas até o início do século XX. Ainda não li Na pior em Paris e em Londres, mas este é o próximo na lista de leitura. De acordo com algumas resenhas no Skoob, a obra “narra as aventuras de um jovem professor inglês convivendo com a miséria de Paris; após ser roubado em um hotel, largou seu emprego e resolveu descobrir como era a vida de gente que não tem dinheiro nenhum, mostrando a vida de um mendigo durante 24 horas no final dos anos 1920”.

Sorte a nossa temos acesso a todas essas obras. E sorte a minha por ter redescoberto George Orwell depois de tantos anos da primeira vez em que fiz a leitura de 1984. Essa viagem iniciada por “Mídia, complexidade e poder” ainda vai longe.

 

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Big Brother is REALLY watching you

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Por Patricia Almeida

Na obra 1984, somos apresentados a uma maneira bem sufocante de monitoramento: as teletelas. Por meio delas, a população era vigiada a todo momento, em todos os lugares. Fez algo? O Grande Irmão saberia. Pensou em algo que não deveria? Ele saberia também.

Há cerca de um mês, li algumas matérias sobre o Getterson, um jogador de futebol que quase teve a chance de sua vida. Ele seria contratado pelo São Paulo Futebol Clube, mas não o foi. Isso porque tinha um tuíte no meio do caminho…

Em meados de 2011, quando ele tinha 21 anos, o jogador fez algumas declarações em sua conta no Twitter. Nelas, dizia que sonhava em jogar no Corinthians, seu time do coração; em outra delas, declarou que assistiria a um “joguinho dos bambis”, fazendo uma referência pejorativa ao time que, mais tarde, quase o contrataria. Getterson foi descoberto, teve seus tuítes printados e lá se vai o sonho de jogar em um grande time. O SPFC desistiu de sua contratação em decorrência de suas declarações imaturas, de cinco anos atrás.

Há muitas histórias como esta mundo afora. Casos mundialmente conhecidos, como o de Dawnmarie Souza, dos Estados Unidos, que foi demitida após postar comentários sobre seu chefe no Facebook. O fato é que o uso das mídias sociais transformou o cenário das relações trabalhistas, tornando-se pauta recorrente nos tribunais.

Mais do que nunca, faz-se necessário o uso do bom senso. A internet não pode ser considerada um lugar sem lei, de oba-oba infinito. Certamente, estão a nos observar e seremos avaliados por aquilo que postamos. Sendo assim, quero aproveitar para dizer que escrevi este post durante o meu horário de almoço. Vai que…

Sobre a tal escola sem partido

Por Patricia Almeida

Há tempos o modelo escolar tem sido questionado. Já passou da hora de os alunos deixarem de ser meros espectadores para se tornarem ativos no dia a dia escolar. O aprendizado se dá por meio da troca, da vivência e da convivência. Bem sabemos disso… mas e essa tal escola sem partido sobre a qual estamos ouvindo nos últimos dias?

Aqueles que defendem o projeto dizem tratar-se de uma não partidarização das escolas. Ou, em termos mais atuais, “chega de petralhas”, “abaixo o marxismo”. Contudo, o que essas pessoas TALVEZ não tenham percebido é que isso é só a ponta do iceberg. O que, de fato, irá acontecer é a exclusão do pensamento crítico. Para que questionar, não é mesmo? O ideal é que voltemos àquele cenário em que os alunos não se pronunciam sobre nada, apenas dizem “amém” àquilo que lhes é oferecido durante o horário em que estão dentro das paredes da escola.

Isso sem falar do que pode ter sido o pontapé inicial para esse retrocesso: a ideologia de gênero. Em 2014, quando o Plano Nacional de Educação foi aprovado, essa questão chegou a ser discutida, mas excluída da pauta, afinal, as “famílias de bem” não querem nem ouvir falar disso. E qual seria a relação entre a escola sem partido e a ideologia de gênero? A resposta é simples: os conservadores.

O modelo ideal para eles é conquistado por meio do retrocesso. Para que discutir desigualdade e preconceito? Para que combater o bullying em sua raiz? O importante é que meu filho seja um rapaz direito, que tenha uma família “normal”. Aqueles que não são assim, que sejam excluídos do convívio das pessoas do bem. Assim como os professores que tentarem plantar a sementinha do pensamento crítico… Ah, a esses o exílio!

 

1984 e Jogos Vorazes

Por Patricia Almeida

Talvez alguns de vocês tenham torcido o nariz para o título deste post. Antes de tudo, preciso que vocês se libertem de alguns possíveis preconceitos: Jogos Vorazes não é uma simples história para adolescente. Há muito mais ali, basta ver as suas referências, dentre elas, 1984, de George Orwell.

1984 nos apresenta um mundo no qual não há liberdade. A população é constantemente vigiada pelas teletelas, há controle da língua e a onipresença do Grande Irmão, que controla tudo e cuja presença manipula a todos por meio do medo.

No decorrer da história, vamos conhecendo Winston, o protagonista da obra de Orwell. Mesmo em meio ao silêncio, ele tenta se manter “pensante” e contrário ao Partido, até que é descoberto e passa a sofrer duras penalidades.

Em Jogos Vorazes, temos uma figura parecida com o Grande Irmão: o presidente Snow. Nitidamente autoritário, ele domina e impõe o seu governo a todos os distritos. Assim como ocorre em 1984, vemos o medo como um mecanismo de dominação. Como forma de punição a uma guerra ocorrida há tempos, os distritos são obrigados a trabalhar para a capital, sede do governo de Snow. Além disso, todos os anos, dois representantes de cada distrito são enviados à arena para a realização dos Jogos Vorazes, dos quais apenas um sairá vivo. Enquanto alguns jovens se digladiam na arena, olhos atentos da capital os assistem, como mera distração.

Não há como fugir desse maldito destino, e poucos o questionam, pois são manipulados a acreditar em tudo o que lhes é falado. Assim como em 1984, por meio da mídia, o governo de Snow manipula a população, instigando-a contra seus supostos inimigos e informa da maneira que bem lhe convier acerca da situação dos distritos.

Em meio a esse enredo, somos convidados a acompanhar a trajetória de Katniss Everdeen, que luta pela liberdade e pelo fim do domínio de Snow.

Fica a dica e o convite para os livros/filmes. Jogos Vorazes é bem diferente de Crepúsculo!

 

Da série feminismo: casamento

Por Patricia Almeida

Casar é legal, principalmente quando ocorre de maneira natural. No meu caso, depois de anos de namoro, casamos. Nesse meio-tempo, algumas coisas acontecem para nos tirar do sério: a reforma que nunca acaba, o pó por todas as partes do apartamento, os móveis que atrasam, o vizinho chato que reclama. Mas nada disso me tirou tanto do sério quanto o machismo nosso de cada dia.

Tudo começa no cartório. É chegado o dia de marcar o casamento civil. Documentos pra cá, assinaturas pra lá. De repente, a pergunta: “Vai acrescentar o sobrenome?”. E eu respondi: “Não”. É então que todos as testemunhas, no nosso caso, pais e irmãos, me olham como se eu fosse um extraterrestre. Por falta de sobrenome, já tenho dois, não preciso de mais um. Não é questão de não ter que colocar o sobrenome do marido, mas da obrigação de fazê-lo. Quer colocar, coloca. Mas por que seria tão estranho não colocá-lo?

Daí vem a festa de casamento. E os topos de bolos… Já reparou? Dá uma olhada:

Topo de bolo II

E as plaquinhas que as daminhas carregam?

Placa de casamento

Gente, por favor, estamos em 2016. Apenas parem de colocar a mulher em um papel de desespero. Casar não é obrigatório, tanto para a mulher quanto para o homem. Parece óbvio, mas às vezes precisamos desenhar. Apenas parem.

Não obstante, depois do casamento, surgem as primeiras visitas, e com elas dicas de culinária e de limpeza da casa. Claro que para mim. “Patricia, tem um produto ótimo que você pode passar nos tacos.” Respiro fundo uma, duas vezes. Nisso o marido se envolve e diz que ele também limpa, cozinha e passa roupa. E é nisso que eu me apego.

Amigos, lembrem-se: estamos em 2016.

 

Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força

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Por Patricia Almeida

1984 sempre foi um dos meus livros favoritos. A lucidez da escrita de George Orwell e a atualidade de suas palavras são impressionantes. Talvez o que mais tenha me chamado a atenção nas duas vezes em que li o livro foi a questão da novilíngua.

Bem sabemos que a língua é uma das maiores forças que temos. É com ela que existimos no mundo. Marcos Bagno diz em seu livro Preconceito linguístico:

Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz: “só existe língua se houver seres humanos que a falem”. E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano “é um animal político”. Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo (mais um presente que ganhamos de Aristóteles), chegamos à conclusão de que “tratar da língua é tratar de um tema político”, já que também é tratar de seres humanos. (BAGNO, 1999, p. 9)

Em 1984, vemos um regime totalitário preocupado com a linguagem, afinal, ela dá poderes ao povo; assim, é preciso fazer com que a língua se inverta. É preciso que o slogan “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força” seja aceito e, mais do que isso, acreditado. E este é o objetivo da novilíngua.

Ao se limitar o uso das palavras, torna-se muito mais difícil realizar uma oposição ao sistema. Afinal, como manifestá-la sem palavras para isso? Como exprimir ideias de oposição se as palavras para tal foram eliminadas? Temos, assim, a capacidade argumentativa e de raciocínio restringidas, fazendo com que a dominação e o status quo sejam mantidos. Quando o intelecto é aprisionado, assim também o é o indivíduo, juntamente com o seu senso crítico, suas vontades e desejos. E tudo isso ocorre de maneira natural, sem que ao menos o sujeito perceba.

E nos nossos dias? Estaríamos também vivendo em meio a uma novilíngua? Basta pensarmos nas guerras infundadas, como a realizada por George W. Bush – a famosa Guerra ao Terror. Quem era o inimigo? Buscava-se a paz por meio da guerra, tal qual o slogan que deu título a este post?

A Oceania de Orwell é real, tanto quanto é real e urgente a recuperação de nossa capacidade de questionar.

 

Referências

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. São Paulo: Loyola, 1999.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

 

Slow Media

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Por Patricia Almeida

Nós estamos mergulhados hoje no que Zygmunt Bauman cha­ma de “modernidade líquida”. Essa expressão que tanto fez sucesso aplica-se ao mundo midiático, que gerencia um fluxo de informações, por vezes contraditórias, por meio de uma massa quase infinita de suportes e de telas onipresen­tes. Esse funcionamento ininterrupto da produção midiática tem por consequência privar o público do tempo necessário à reflexão. Para além do efeito de distração imediata, essa torrente inesgotável conduz a um profundo embrutecimento e a uma forma de alienação.

Para lutar contra a indigestão de solicitações midiáticas, um co­letivo de cidadãos e de profissionais reuniu-se, formando o Slow Media. Esse coletivo estima que é indispensável fazer a experiência da lentidão para reencontrar o controle de nossas vidas. Slow Media convida a consumir tranquila e qualitativamente mídias originais, à imagem dos produtos defendidos por Slow Food no campo alimentar.

Slow Media vê nas novas tecnologias a causa principal da ace­leração dos fluxos midiáticos. A internet e os telefones celulares acabaram com as barreiras temporais. Os fatos são relatados em tempo real, acabando com a noção de tra­tamento da informação. Assim, esse movimento se levanta contra os abusos das tecnologias em nos­sas vidas. Julgadas indispensáveis, elas provocam o rompimento dos laços diretos com o outro e limitam as capaci­dades cognitivas e de concentração, já que nossos pensamentos não podem mais seguir uma linha, porque as solicitações midiáticas intempesti­vas provocam interrupções.

Colocar momentaneamente as mídias de lado pode se materiali­zar a partir de condutas racionais simples e eficazes, por exemplo, vi­ver alguns dias por semana sem ligar o computador pessoal, desligar o celular à noite e aproveitar esse tempo ganho para voltar a ler um livro com calma. Finalmente, aprendendo a renunciar à invasão das mídias no cotidiano, cada um terá melhores condições de apreciar suas reais necessidades no campo tecnológico.