Categoria: Mayra Sartorato

‘Você vê preconceito em tudo’

Por Mayra Sartorato

Envolvi-me em uma nova discussão. Um colega me abordou cantando “Nega do Cabelo Duro” como uma piada ao meu corte de cabelo. Por incrível que pareça, importei-me menos com sua sutileza em comentar uma característica minha do que com o “cabelo duro”. Apontei que o “cabelo duro” é uma questão imposta esteticamente – e inalcançável para aquelas que não têm o cabelo liso. E, então, eu que já era conhecida por ser a “que vê machismo em tudo”, agora tenho nova fama: “ver preconceito em tudo”.

“Imagine? Você acha que alguma menina se importa com uma música ao ponto de ir contra a própria natureza?”, perguntou-me o colega. “Sim”, respondi.”Você gosta de problematizar tudo”, ele rebateu.

A conversa não abalou a minha crença do “sim” à pergunta dele. Pelo contrário, na verdade: para fomentar ainda mais minha convicção, fui impactada por uma postagem na qual uma mãe comenta a tristeza de uma filha de 12 anos por ter sido alvo de comentários preconceituosos de colegas por causa de seu “cabelo duro”. Mesmo assim, meu colega disse que a jovem de 12 anos estava era de “mimimi”.

Por mais relevante que a música de Luis Caldas possa ser, sua música – como um todo, na verdade – não condiz com a realidade. E há de quem diga que isso é mimimi. Mimimi é negar algo que está explicito na sua cara só para reforçar as suas certezas.

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Viver é como estar n’O Processo

Por Mayra Sartorato

– O senhor não tem permissão para sair. O senhor está detido.

– É o que parece – disse K. – Mas por quê? – perguntou então.

– Não fomos incumbidos de dizê-lo.

Uma manhã de sexta-feira não é um bom dia para enrolações. É a semana “útil” que chega ao fim, a energia vai se esvaindo, a paciência, chegando ao limite. Quando entrei no metrô às 6h30 da manhã, enlatada feito uma sardinha, eu já sabia que meu humor matutino não estava no auge. Já previa o que estava por vir: algumas horinhas no Poupatempo.

Segui faixas de cores que não faziam muito sentido. Pedi instruções a funcionários não muito prestativos. Fiz processos desordenados. Recebi informações a, mas no final das contas, eram a + b com um porém no c.

Primeiro, pego senha para a triagem – e recebo o aviso de que era preciso uma cópia do documento a mais do que o site dizia. Saio, faço… Depois, espero outra vez para que o status do meu documento seja avaliado – e a cópia a mais é jogada na lata do lixo pelo funcionário. Em seguida, eu e a senha mais uma vez: para a foto. Paguei pelo trabalho – não sem poucas delongas: sacar dinheiro, ir à agência do banco, pego a fila… Minha vez é anunciada de novo, dessa vez para o exame médico. Recebo um novo boleto. É hora de pagá-lo: saco mais dinheiro, vou à agência pela segunda vez, fila de novo e de novo… Depois disso, o destino é o “Retorno Bancário” – ou como chamam 19 minutos em uma fila para, enfim, a atendente me dizer que em 8 dias úteis receberei meu documento.

Me senti como o K., em O Processo, de Franz Kafka. Sem explicações, sendo empurrada para a burocracia seguinte. Tão zonza que, no final das contas, já não me lembro que documento era…

– Justamente aí é que está a dificuldade – disse K. – Nem mesmo eu sei.

2016: o ano em que declaramos (estado de) guerra

Por Mayra Sartorato

Estamos vivendo em estado de guerra: tendo todos nós o direito a tudo, nos tornamos inimigos uns dos outros e, com medo de sermos passados para trás, começamos a atacar o outro só para nos sentirmos protegidos.

Contextualizo esse conceito, idealizado por Thomas Hobbes. Uma pequena parte do meu trabalho, na redes sociais, é acompanhar comentários de leitores. Tenho notado, claramente, a polarização do discurso – desde a eleição de 2014, com mais evidência. A agressividade, por outro lado, passou a ser constante a partir do início do processo de impeachment. No entanto, depois da eleição de Donald Trump, os nervos parecem estar ainda mais à flor da pele.

Hoje, em uma matéria sobre um grupo de extrema direita que fez saudações nazistas em comemoração à vitória do republicano, um leitor pró-Trump fez um comentário extremamente nocivo. Foi respondido com maestria, sem agressões. Mesmo assim, não gostou. E, bem, partiu para o ataque.

Não vou reproduzir seu nome ou seus comentários. Todos nós temos em mente uma situação assim – ninguém está imune. Ele não é o único, não é o primeiro e não será o último. Mas é um reflexo do estado de guerra. De não confiar que há um poder (seja o Estado ou a justiça, por exemplo) apto a proteger a sociedade – e então é cada um por si.

Ou, no máximo, aliados efêmeros.

Qual é o limite da justiça?

Por Mayra Sartorato

Para prender um “criminoso”, vale tudo? Inclusive infringir as leis, tornando-se, assim, um criminoso você mesmo?

Há 10 dias, cinco jovens da zona leste de São Paulo desapareceram. Alguns deles, tinham passagem pela polícia. Eram “vida loka”. Da periferia. Desagradavam a ordem pública. Nenhum deles, no entanto, tinha mandados de prisão pendentes.

Apesar disso, foram assassinados. Emboscados em uma cidade da Grande São Paulo. Mortos sem a chance de se defender. Para piorar: a emboscada – que resultou na chacina – foi organizada por policiais.

Um deles, depois do rebuliço do caso admitiu ter criado um perfil falso nas redes sociais para atrair esses jovens para essa emboscada. Admitiu ter acessado os dados desses meninos e tê-los como alvo. Isso porque, supostamente, dois desses cinco jovens estavam envolvidos na morte de um colega policial.

O policial que os atraiu para o encontro diz que a intenção era prendê-los. A própria corporação duvida disso. Não admitiu mais nada, mas já teve prisão decretada por 30 dias. Basicamente, porque ele se tornou um criminoso para pegar “criminosos”. A questão, porém, é que ele terá acesso a algo que esses jovens não tiveram: um julgamento. Defesa. E, finalmente, direito à vida.

Quando a agenda setting e a espiral do silêncio são insuficientes…

Por Mayra Sartorato

Exceto pela FOX News, todos os veículos de comunicação que acompanho usaram sua capacidade de determinar a pauta – e, com isso, “manipular” a opinião pública – a favor de Hilary Clinton ao longo dos meses de campanha que antecederam as eleições norte-americanas. Como a história viria a demonstrar, não funcionou: a agenda setting –  conceito elaborado por Maxwell McCombs e Donald Shaw, em 1972, que diz respeito a essa escolha de assuntos de modo a direcionar a audiência – não foi o suficiente para evitar a derrota da candidata democrata.

A meu ver, essa é uma prova de que a mídia, apesar de ser nitidamente o quarto poder, não tem a capacidade de mover montanhas pelo que apoia. Muito embora tenha feito uso de todos os subterfúgios possíveis – entre eles a agenda setting já citada e a espiral do silêncio, especialmente em relação aos escândalos envolvendo a candidata -, não foi capaz de manipular seus espectadores contra algo que era intrínseco a eles: o ódio ao “politicamente correto”.

Afinal, é isso o que Donald Trump representa: uma negação à empatia, à pluralidade e aos direitos humanos – ou, como gostam de bradar os conservadores, é contrário ao que é taxado como politicamente correto. Contra esse sentimento tão aterrador, não há poder midiático forte o bastante.

Igualdade de gênero e a perspectiva de não precisar viver com medo

Por Mayra Sartorato

Na última sexta-feira, mudei-me de apartamento. Por alguns dias, a maior perspectiva foi reunir em caixas, malas e sacolas todas as pequenas coisas que acumulei ao longo dos anos. Na sexta-feira, o grande dia, porém, a situação mudou: diante da expectativa dos profissionais da empresa de mudança e de funcionários de companhias de telefonia que trocariam os serviços do meu endereço anterior para o novo, eu passei a me preocupar em combinar a agenda perfeitamente de modo a não estar sozinha quando esses desconhecidos chegassem.

É uma situação justificada – pelo menos para as mulheres. Todas nós em algum momento de suas vidas já fomos vítimas de algum tipo de assédio por homens; em casos como esses, dentro de nossas próprias casas, muitas vezes. Por vezes comentários pequenos – “como a senhorita é bonita, dona!” ou “achei o seu cabelo lindo, mocinha” -, por outras, “agressões” mais pesadas – “agora que tenho seu endereço, eu podia vir jantar aqui com você um dia desses!”. Todas as situações que citei já aconteceram comigo, quando tive de receber um funcionário desconhecido em minha casa.

Por sorte, morando com meu namorado, não precisei passar por isso dessa vez. Na ocasião anterior, ainda sozinha, pedi à NET que enviasse uma mulher a minha casa. A resposta? “Difícil, dona, só temos uma mulher instalando equipamentos”. Fiz questão de me alojar na agenda dela, só para descobrir que ela é a única que restou porque todas as suas colegas passaram ou presenciaram assédio dos colegas em visitas como essas.

Os tempos melhoraram para as mulheres em relação aos últimos anos. Mas é em situações como essas que eu comprovo, na pele, o que diz o Fórum Econômico Mundial: aqui no Brasil, levaremos pelo menos 95 anos para chegar à igualdade de gênero. Diante da realidade, no entanto, penso se essa previsão não é otimista demais…

Os “defeituosos” de Doria e a mídia: reflexos um do outro

Por Mayra Sartorato

Quantas vezes, na última semana, você ouviu falar de deficientes na mídia?

Provavelmente uma: no caso de João Doria, o prefeito eleito de São Paulo, que, ao citar a AACD, disse se tratar da “Associação para Criança Defeituosa”.

Parece unir duas questões distintas, mas elas são, na realidade, reflexos uma da outra. A AACD, embora tenha nascido com o nome citado pelo novo prefeito de São Paulo, já não é chamada assim desde 2000, 16 longos anos atrás.

Doria deveria saber que é “inadequado”, palavra usada pela própria AACD, usar a palavra defeituoso para falar de deficientes? Sim. Mas quantas vezes ouvimos falar desse grupo na mídia? Poucas. E a falta de exposição é, claramente, um desserviço à minoria – especialmente tão pouco tempo depois do final de uma Paralimpíada.

Ao mesmo tempo, pessoas como Doria são um dos motivos pelos quais a mídia não fala dessa parcela da população brasileira. Afinal, são uma audiência que não está interessada nesse tipo de notícias. Nem ao menos o suficiente para pesquisar se o correto é falar “defeituoso” ou deficiência.

Obviamente, um ciclo vicioso que faz dos “defeituosos” de Doria e da mídia um reflexo um do outro.