Categoria: Maria Isabel Neves de Campos Mello

Para terminar…

Maria Isabel Campos Mello

Gostaria de encerrar nosso semestre agradecendo, novamente, a todos que fizeram parte desse processo. Já agradeci antes, em um post que fiz questão de ler em voz alta para a classe, mas diferente de meses atrás, minha sensação não é mais de “medo da exposição” e acredito que todos devem estar se sentindo mais satisfeitos com as próprias palavras e ações.

Quero dizer que foi muito bom acompanhar nossa evolução como grupo. Poder conhecer um pouco de cada um por meio dos textos, seminários e participação em sala traz a sensação que sempre há algo novo para descobrir e explorar. Nós todos temos características interessantes ao outro.

Com relação aos seminários, posso dizer que foi uma experiência muito gratificante poder discutir sobre livros que foram lidos há tantos anos. Foi como voltar no tempo de forma mais madura. Digo o mesmo com relação ao Cidadão Kane.

Já com relação aos “Abutres”, foi completamente diferente, acredito que para todos do meu grupo. Escolhemos o filme por não saber do que se tratava e, junto com a sensação de “como não vi esse filme antes?”, vieram todas as reflexões, histórias, debates com pessoas que se tornaram amigos queridos.

Fico muito feliz por ter feito parte dessa turma e por ter escolhido a disciplina. Estar semanalmente com vocês e, claro, com o Professor Dimas foi um prazer! Os textos, imagens, filmes, músicas e conversas me ajudaram muito a lidar com situações pelas quais eu passei.

Espero que as próximas turmas possam aproveitar da forma como eu aproveitei.

Vou sentir falta.

Muito obrigada!

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“Infiel – A história de uma mulher que desafiou o Islã”

Maria Isabel Campos Mello

Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália em 1969. Contrariando todas as expectativas, hoje ela é escritora, ativista e foi eleita deputada do parlamento holandês. Conhecida mundialmente por sua luta pelos direitos da mulher e pelas críticas ao fundamentalismo islâmico, hoje vive cercada de guarda-costas nos Estados Unidos, após ter sofrido uma grave ameaça do assassino do cineasta Theo van Gogh, seu parceiro no filme Submissão, sobre a situação da mulher muçulmana atual.

Em Infiel, Ayaan faz uma autobiografia e descreve fases de sua vida com uma riqueza de detalhes impressionante. O livro é dividido em duas partes, Minha infância e Minha liberdade, que explicam como uma menina nascida em um dos países mais pobres da África, e educada sob as rígidas normas da religião foi eleita, em 2005, pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo.

 

“Minha mãe também nos contava histórias. Tinha aprendido a cuidar dos animais da família e a conduzi-los pelos desertos aos lugares mais seguros. As cabras eram presa fácil para o predador; as meninas também. Se os homens atacassem minha mãe ou suas irmãs no deserto, a culpa era exclusivamente delas: sabiam que deviam fugir assim que avistassem um camelo desconhecido. (…) Ser estuprada era muito pior que morrer, pois sujava a honra de todos os membros da família.” (Hisri Ali, 2012)

“(…) Duas outras mulheres abriram minhas pernas. O homem, que provavelmente era um “circuncidador” itinerante tradicional do clã dos ferreiros, pegou a tesoura. (…) Então o homem aproximou a tesoura e começou a cortar meus pequenos lábios e o meu clitóris. Ouvi o barulho, feito o de um açougueiro ao tirar a gordura de um pedaço de carne. Uma dor aguda se espalhou no meu sexo, uma dor indescritível, e soltei um berro. Então veio a sutura (…)” (Hirsi Ali, 2012)  

 

Os trechos acima, extraídos do livro Infiel, são exemplos do que passam as meninas que vivem sob as regras do fundamentalismo islâmico. Para nós, ocidentais, fica muito difícil nos darmos conta que, enquanto estamos aqui, existem mulheres sendo tratadas como animais, não tendo qualquer autonomia sobre seus corpos, sendo vendidas e escravizadas. Pior, achando que isso é normal e que é o que está reservado a elas.

Por sorte, existem outras mulheres corajosas, que são capazes de desafiar todo um sistema e mostrar que a vida dos seres humanos não deve ser assim. Ayaan travou uma batalha a favor da liberdade, igualdade e democracia em países muçulmanos. Os avanços são pequenos perto do que a causa mereceria, mas só o fato de ela ser hoje uma mulher respeitada, premiada  e de suas palavras estarem disponíveis para o mundo, já nos traz alguma esperança.

Vale a leitura.

 

Procrastinação

Procrastinação

Maria Isabel Campos Mello

Levar o carro na revisão, cancelar a TV a cabo, consertar a porta do armário. Quantas vezes já deixamos essas tarefas para o outro dia? Você tem que entregar um texto na segunda de manhã. Quando ele será feito? Domingo à noite. Por que isso?

Procrastinação é o nome  dado a esse ato (ou hábito?) de adiar aquilo que precisamos fazer. De acordo com o dicionário de Oxford, o nome tem origem no latim: pro significa “a frente” e crastinus, “de amanhã”. E quem você pensa que esse é um hábito moderno, está enganado. Existem relatos de procrastinadores desde a 750 a.C. na poesia grega.

Em pesquisas rápidas na internet, encontramos muitas dicas para acabar com a procrastinação, formas de se tornar uma pessoa mais proativa, exercícios para colocar em prática e fazer render melhor a rotina. Mas não é tão fácil encontrar o que leva as pessoas a sabotar as próprias missões.

O interessante é que não procrastinamos somente quando temos que fazer algo que não gostamos. Ler aquele livro, visitar uma amiga antiga, escrever o post do Dimas!

Existem pesquisadores que afirmam que a procrastinação pode ter causa genética, a pessoa nasce assim e pronto. Eu prefiro outra teoria, que diz que o ato está intimamente ligado à impulsividade e que, essa sim, está muito mais presente atualmente.

As pessoas impulsivas buscam recompensas emocionais imediatas ao invés de uma melhor futuramente. Adiamos grande parte das coisas que temos para fazer porque elas costumam consumir tempo e exigem certo esforço. Então por que não trocar essa atividade por outra com a qual já estamos acostumados e a sensação de missão cumprida vem rapidinho? O agora parece muito mais atraente.

E é nesse ponto que eu queria chegar. Se ansiedade nos faz procrastinar, não há bem que possa sair disso. Apesar de parecer contraditório, a impulsividade e ansiedade está nos deixando mais preguiçosos. Adiamos um monte de missões, que se acumulam, nos deixando mais ansiosos ainda.

Como resolver essa questão? Como já foi dito, a internet tem milhares de fórmulas. Mas eu não acredito em fórmulas que não trabalhem a causa do problema. Podemos até tentar, mas enquanto não soubermos compreender e tentar melhorar a nossa relação com tempo, enquanto não soubermos dar a devida importância aos minutos e horas do dia, nada vai adiantar.

Enquanto continuarmos acordando com pressa, comendo rapidinho, correndo para dar conta de tudo ao mesmo tempo, não tem como dar certo. Temos que aprender a fazer as coisas com calma, concentrados no que estamos fazendo. É fácil? Não, mas é um exercício. Resolve? Não sei, mas os dias parecem melhorar e a ansiedade diminuir. Então, quem sabe, esse seja um caminho. Eu tenho tentado e espero que traga algo de positivo na minha vida. Caso contrário, nem esse post estaria aqui hoje.

Da série feminismo: casa e filhos

Maria Isabel Campos Mello

Pegando carona no post da Patrícia, lembrei de uma pesquisa publicada em junho passado realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O tema era a divisão das tarefas domésticas entre casais casados, ou que vivem em união estável.

Das 810 mulheres entrevistadas, 70,8% dizem ser as principais encarregadas pela arrumação da casa onde moram. Entre as casadas, o número é ainda maior, 80,8%. Com relação ao cuidado com os filhos, apenas 16% afirmam dividir as tarefas com o marido.

Deixando esses números de lado, como se já não fosse suficientemente chocante a diferença de comportamento, quantas vezes alguém ouviu um colega de trabalho dizendo que vai ter que ir embora no meio do dia porque o filho está doente? E a mãe?

O marido que acompanha a mulher em todas as consultas médicas durante a gravidez é quase um herói. O que troca as fraldas e dá banho então… E aquele que lava o banheiro depois? Podem construir um altar!

E o que dizer das professoras que mandam bilhetes a respeito da educação, alimentação e comportamento das crianças direcionados apenas às mamães. Só a mamãe prepara a lancheira? Só a mamãe tem interesse em saber se o filho estava com dor de ouvido?

Hoje mesmo, a rádio CBN publicou o seguinte em sua página do Facebook: “Marido cuida de filhos de brasileira morta em Nice”. O leitor desavisado logo pensa na generosidade do homem. Que atitude bonita. Estranho seria se ele mandasse as crianças para um orfanato, afinal, os filhos também eram dele!

Não se sabe o motivo, mas algumas horas depois, a CBN mudou o título. Espero que tenham reconhecido o “equívoco”.

Tudo certo

Maria Isabel Campos Mello

Ela nunca tinha tempo. A vida corrida, trabalho exaustivo, tarefas intermináveis. Sempre teve vários amigos. Primeiro na escola, depois na faculdade. No escritório, era conhecida por todos.
Cada vez mais cobrada. Ser pontual, ágil, não perder tempo. Ser promovida, entregar o melhor projeto, fazer a melhor apresentação. Estar bem vestida, o corpo perfeito, cabelo impecável. Celular de última geração, bolsa da nova coleção.
“Happy hour depois do trabalho?”
“Desculpe, não posso.”
“Almoço no próximo sábado?”
“Estou sem tempo.”
Ela se sentia bem, muito bem. Um destaque na carreira. Exemplo de executiva a ser seguido. No ano passado, foi disputada por três empresas. Tomava as decisões, ganhava o quanto queria, não se preocupava com dinheiro.
Outro almoço recusado. As viagens cada vez mais curtas. O tempo cada vez mais escasso.
Foi madrinha de casamento da melhor amiga, mas não conhece sua filha, hoje com um ano e meio. Maternidade é muito impessoal, resolveu visitar em casa, quando tivesse tempo.
“No meu aniversário faço uma festa. Quero rever todos os amigos.”
O aniversário chegou, não conseguiu organizar nada. Estava cansada.
Não foi ao encontro dos amigos da faculdade, precisava dormir cedo. Acordou, direto para a academia.
Chegou em casa depois de um dia difícil. Acendeu as luzes, abriu a geladeira e se orgulhou do apartamento novo. Foi para a sala, sentou no sofá. Checou o celular, sem mensagens. Queria conversar. Sentiu vergonha de ligar para as antigas amigas, o último namoro terminou há dez meses. O silêncio tomou conta. Abriu a bolsa, pegou um comprimido e foi para o quarto. Amanhã está tudo certo de novo. Boa noite.

Um pouco sobre feminismo

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Maria Isabel Campos Mello

O filme “She’s Beautiful When She’s Angry”, produzido e dirigido por Mary Dore, revela as origens dos movimentos feministas ocorridos nos Estados Unidos entre 1966 e 1971, apresentando ao espectador algumas das principais responsáveis pela criação de atos e coletivos que tiveram força para protestar e defender os direitos das mulheres.

Em uma época quando era normal as ofertas de emprego serem quase exclusivas aos homens, a não ser por alguns anúncios de vagas para secretárias, várias jovens, não satisfeitas com a condição de futuras-esposas, se uniram para questionar as injustiças do mercado de trabalho, a desinformação a respeito de outras mulheres, a falta de políticas para o controle de natalidade e cuidado com os filhos. Também trouxeram à tona questões sobre sexualidade e violência, dentro e fora de casa.

Difícil não admirar essas mulheres, hoje senhoras, que um dia, sem as facilidades da internet, conseguiram mobilizar milhares de outras em função de temas que nem sequer eram abordados. Claro que houve resistência, de homens e mulheres, que não entendiam a razão para tanta reclamação. Se o casamento era considerado um trabalho não remunerado, essas mulheres só podiam odiar os homens. Se elas estavam exigindo creches para seus filhos, preguiçosas. Se não queriam ter filhos, egoístas.

A luta contra essa mentalidade não foi tarefa fácil, mas o que impressiona é que, mesmo passado o tempo, as questões continuam as mesmas. Os avanços são inegáveis, mas ainda é pouco. Os cartazes vistos no filme podem ser usados hoje na Avenida Paulista. Se disputamos a diretoria de uma empresa com outros homens, moramos sozinhas, escolhemos ter filhos ou não, temos que agradecer a essas mulheres. Se elas foram capazes de fazer o que fizeram, hoje deveria ser muito mais simples. O problema é que nunca é simples quando se trata de mudar pensamentos e atitudes. Para isso, “She’s Beautiful” é referência.

“A Montanha”: baseado em fatos reais

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Maria Isabel Campos Mello

Fundamental para a elaboração do roteiro de A Montanha dos Sete Abutres, a história de Floyd Collins (1887 – 1925) foi a sensação dos jornais norte-americanos da época.

Collins era um respeitado explorador de cavernas que, embora tenha desenvolvido importantes trabalhos relacionados à espeleologia, tornou-se conhecido pela forma de sua morte.

Durante três semanas, trabalhou sozinho na exploração de uma das cavernas do Mammoth Cave National Park, localizado no estado do Kentucky. Tudo corria normalmente, até Collins sofrer um acidente, que o deixou completamente no escuro, com uma perna presa sob uma rocha.

A 17 metros da superfície e 35 metros da entrada da caverna, ele foi encontrado por amigos no dia seguinte. Recebeu água, comida, luz e aquecimento, mas não conseguiram remover a pedra que o impedia de sair de lá.

Uma equipe de resgate foi acionada, mas por não conhecerem bem a caverna e a região, acabaram optando por um método de salvamento mais complexo do que o necessário e, quando conseguiram chegar a Collins, cerca de duas semanas após o acidente, ele já estava morto.

A situação agoniante da tentativa de resgate foi amplamente noticiada pela imprensa sensacionalista, transformando a situação em um verdadeiro circo. Norte-americanos de diversas partes do país se deslocaram para a região para fazer parte do espetáculo que tinha sido criado. Não se sabe qual o grau de preocupação das pessoas em relação ao sofrimento daquele homem, mas, depois de sua morte, elas foram embora e tudo voltou ao normal.

O corpo foi deixado na caverna e um funeral foi realizado na superfície. Poucos anos depois, mesmo contrariando ideais de alguns exploradores, a família conseguiu que Collins fosse enterrado em um cemitério.