Categoria: Lucas Peixoto

Considerações finais

Por Lucas Peixoto

No final da última aula do semestre da disciplina de Mídia, Complexidade e Poder, tivemos a oportunidade de discutir a metodologia de ensino utilizada em sala de aula e avaliar a qualidade das aulas ministradas pelo professor Dimas Künsch. De minha parte, e também de todos os outros colegas de classe, o que fica é o excelente modelo de ensino e a incrível capacidade do professor de fazer com que os alunos participem dessa experiência.
Em minhas considerações falei de como o convite à participação dos alunos acabou colaborando para “quebrar o gelo” e também com o fim do tradicional “frio na barriga” dos colegas mais tímidos nas exposições e comentários dos textos escritos no blog e nos seminários. Lembrei que na minha trajetória pessoal, ainda nos tempos da graduação, apesar da escolha pelo Jornalismo e da ideia, própria do senso comum, de que todo jornalista é falastrão e inconveniente, sempre fui um sujeito bastante tímido – característica que, felizmente, perdi com o passar do tempo.
Espero poder continuar em contato com os demais colegas e com o professor no futuro e agradecer pela oportunidade de expandir meus conhecimentos e de ter podido colaborar de alguma forma com as observações que fiz em sala de aula. Agradeço também pelo valoroso aprendizado que tive ao acompanhar a desenvoltura e a personalidade com que todos se posicionaram nos fantásticos seminários apresentados.

Um grande abraço e boa sorte a todos!

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Edgar Morin e o saber

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Por Lucas Peixoto

Ao fazer a leitura do texto “Os sete saberes necessários à educação do futuro” do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, notei quão necessário se faz um ensino de qualidade que possibilite a qualquer pessoa ampliar o seu campo de conhecimento para além da mera especialização profissional da área que se pretende seguir. Todos entram numa escola e posteriormente numa faculdade pensando em se tornar o melhor naquela área específica sem se preocupar com análises de contexto.

O conhecimento ainda é tratado de forma compartimentada, dividida e sem preocupação com a formação de um todo coerente que possibilite o crescimento intelectual e humano do indivíduo. Uma informação deslocada de um dado contexto e isolada não faz sentido. Essa prática retira a possibilidade de análise do meio em que  o conhecimento está inserido.

O estudo especializado é uma forma de pensamento reducionista que se mostra incapaz de compreender contextos e características particulares, tornando o pensamento setorizado, desconexo e esquartejado em algumas partes. A educação ideal, para Edgar Morin, pressupõe uma análise global do saber que seja  capaz de unir diversas partes do conhecimento de forma ordenada e que permitam a reflexão.

Em seu texto, Edgar Morin critica o pensamento tecnocrático pois acredita que este não possui nenhuma profundidade, ainda que possa chamar para si a defesa da racionalidade. Essa característica, longe de ter base na realidade, ele lembra, esconde o seu real problema de fundo: faz com que se tente repetir padrões determinísticos característicos de uma lógica mecânica, eliminando o fator humano dessa equação, sem o qual o saber jamais será pleno.

A Escola de Frankfurt e a modernidade

Escola-de-Frankfurt

Por Lucas Peixoto

A Escola de Frankfurt como grupo responsável pela divulgação e propagação do conhecimento  é certamente a experiência mais incrível e crítica dos reflexos da cultura de massas na sociedade e seu poder de persuasão sobre os indivíduos. Um dos principais nomes desta escola de pensamento é Max Horkheimer. De origem marxista e judia, ele criou a Revista de Pesquisa Social, na esteira do Instituto de Pesquisa Social em 1923, criado por Carl Grünberg. Nesta revista, Horkheimer formou um grande grupo de intelectuais alemães que contava com Walter Benjamin e Theodor Adorno.

Em 1933, com a ascensão de Hitler e do nazismo, esses pesquisadores tiveram de fugir para outros países. Horkheimer foi para os EUA, onde desenvolveu o conceito de “indústria cultural” no livro “Arte e cultura de massas” de 1940, resultado do espanto que sentiu quando  se deparou com o país mais próspero do mundo – uma democracia de massas que o remetia ao que vira acontecer na Alemanha no início da década de 30.

Em seu livro, Horkheimer apontava que a cultura de massas era fruto de um mecanismo de produção industrial próprio dos sistemas capitalistas. Em seus estudos, os teóricos frankfurtianos enxergaram a massiva produção tecnológica, bem como o desenvolvimento dos meios de comunicação, como problemáticos e responsáveis pela mistura entre a técnica e a cultura – ideias distintas que colaboraram para a transformação da arte em mercadoria.

A lógica da criação de produtos que passam a ter grande importância no meio cultural é resultado imediato das sociedades de massa que se desenvolveram ao longo da história. Em todos os setores, esse cenário se mostra cada vez mais presente e ratifica a crença de que o lucro, os resultados imediatos e o sufocamento da liberdade criativa sempre se sobrepõem à capacidade artística e intelectual do indivíduo.

 

O poder das obras-primas

Por Lucas Peixoto

É incrível notar os pontos de convergência existentes entre as quatro obras retratadas nos seminários das aulas de Mídia, Complexidade e Poder, do professor Dimas Künsch. Todas elas tratam de uma particularidade: o poder que os veículos de comunicação (“Cidadão Kane” e “A Montanha dos Sete Abutres”) e os governos totalitários (“1984” e “Admirável Mundo Novo”) têm quando exercem controle sobre corações e mentes.

Fica claro que os valores presentes nessas obras são atemporais. Muitas delas sequer fizeram sucesso em suas respectivas épocas, tornando-se clássicos indiscutíveis muitos anos depois. Aí reside a capacidade dos grandes gênios de todos os tempos: ampliar os significados presentes em uma obra para o futuro. De fato, o que vemos são clássicos que permanecem atuais, fortes e que nos fazem discutir os tempos em que vivemos.

É possível que todas essas obras-primas questionassem aspectos relevantes que talvez não fossem comuns àqueles períodos. “Cidadão Kane”, de Orson Welles, é inspirado na vida de William Randolph Hurst, magnata americano da imprensa e criador do famoso “jornalismo marrom”- prática de veículos de comunicação que recorriam ao sensacionalismo barato para ganharem destaque. Os livros “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, são alegorias dos regimes totalitários do século XX, mas colocam em cheque os sistemas democráticos dos tempos atuais e suas sanhas persecutórias adormecidas.

“A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder, inspirando-se em um caso da vida real, conta a história de um fracassado e inescrupuloso jornalista em busca da grande reportagem de sua vida, às custas do sofrimento alheio. À luz de todos os eventos ocorridos nos últimos anos, do crescimento do poder da imprensa à espetacularização de suas práticas, passando pelos riscos à liberdade promovidos por regimes antidemocráticos, essas quatro histórias persistem como relatos atuais e de extrema relevância ao que está em curso.

Choque de realidade

jornalismo marrom

Por Lucas Peixoto

O sensacionalismo é talvez a prática mais danosa segundo os princípios do bom jornalismo. A busca pela matéria fácil – e chamativa -, pelo click em uma matéria de grande apelo, mas desprovida de conteúdo, o assassinato de reputações que destrói as vidas de pessoas que sequer tiveram chances de defesa mas já foram julgadas e condenadas. Há um sem número de exemplos a serem utilizados. O triste caso “Escola Base” não deixa mentir.

Durante as aulas da disciplina Mídia, Complexidade e Poder, conduzidas pelo professor Dimas Künsch, pudemos assistir a trechos dos filmes “Mera Coincidência” e “O Quarto Poder”. Ambos, lançados em 1997, são complementares e tratam precisamente da forma inescrupulosa como a imprensa se utiliza de fatos forjados para promover uma agenda jornalística hedionda e criminosa.

Em “Mera Coincidência”, o presidente dos EUA se vê envolvido em um escândalo sexual de proporções avassaladoras para a campanha política que se aproxima (e aqui cabe exaltar o caráter visionário do filme, uma vez que o então presidente americano, Bill Clinton, se envolveu um ano depois do filme em uma situação parecida com a secretária Monica Lewinsky, o que quase lhe custou a presidência do país). Na ficção, para conter a crise, a Casa Branca se mobiliza para criar um fato novo que possa colocar panos quentes no problema e salvar o presidente: uma guerra em um país distante.

No filme “O Quarto Poder”, um jornalista inescrupuloso se aproveita do assalto realizado por um aloprado a um museu – onde ele trabalhava antes de ser demitido -repleto de crianças em passeio escolar para fazer uma matéria e conseguir reviver os velhos tempos de quando era um conceituado profissional de imprensa. Para isso, o veterano repórter conta com a cumplicidade e a inocência dos colegas de emissora.

Os dois filmes tratam com muita propriedade das idiossincrasias do jornalismo, que, a princípio, tem o propósito de informar e alertar a sociedade sobre seus problemas, e, em contrapartida, é instrumentalizado por canalhas ávidos por audiência e grandes contratos – uma realidade que, lamentavelmente, é um terrível choque nas pretensões de qualquer novato na profissão.

Os demônios de Robert McNamara

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Por Lucas Peixoto

O documentário Sob a Névoa da Guerra (2003), dirigido por Errol Morris e vencedor do Oscar em 2004, trata de um importante e turbulento período da história norte-americana. O principal personagem do documentário, Robert McNamara (1916-2009), foi Secretário de Defesa dos EUA entre 1961-1968 nas administrações John Kennedy e Lyndon Johnson e teve papel fundamental nos eventos que afundaram o país na impopular Guerra do Vietnã.

Em seu relato, McNamara, então um senhor de 87 anos, faz um apanhado de vários momentos vivenciados por ele desde o começo de sua carreira como o brilhante estudante formado em Administração em 1937 na faculdade de Berkley na Califórnia e depois professor de Contabilidade na conceituada Harvard em 1940, passando por um papel de destaque no Departamento de Cálculos e Estatísticas nas Forças Armadas dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1960, McNamara se tornou o primeiro presidente não membro da família Ford a comandar a empresa, transformando-se num dos executivos mais bem pagos do mundo. No mesmo ano, aceitou um convite do presidente recém-eleito John Kennedy para integrar seu governo. O ex-Secretário de Defesa, demonstrando uma notável memória, fala sobre o até então desconhecido bombardeio ao Japão que ceifou 100.000 vidas em 1945, a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962 e a escalada do conflito armado no Vietnã a partir de 1965.

O documentário, para além de um magnífico trabalho histórico, é também um aprofundado estudo a respeito de política e diplomacia sob a ótica de um personagem especial que, embora tenha sido o mais preparado e qualificado para o cargo que ocupou, se deparou com a necessidade de tomar decisões duras e questionáveis do ponto de vista humano que foram de encontro aos seus próprios valores morais. Este é o relato de um homem que tentou até o fim de sua vida exorcizar seus demônios.

 

Um mundo paralelo

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Por Lucas Peixoto

Há bastante tempo a publicidade tem ganhado destaque ao se utilizar de vídeos, fotos e outros tipos de mídias para veicular seus produtos. Assim, o consumidor é transportado para uma outra realidade na qual ele é peça de uma engrenagem responsável por vender sonhos. Nos acostumamos a ver o imponente cowboy  fumando um cigarro em meio a uma paisagem bucólica, ou a um homem comum que ao entrar no carro se transforma em um galã de cinema. Este é o imaginário criado pelo mundo da publicidade.

Nos últimos anos essa realidade mudou, visto que uma grande quantidade de empresas aderiu ao compromisso com questões sociais e ecológicas. O mundo da publicidade passou por uma radical mudança de filosofia e de ideais. As marcas de cigarros, outrora símbolos de status popularizados pelo cinema americano, passaram a expor em suas embalagens fotos horrendas de deformações físicas, órgãos humanos em estado falimentar, além de um grave problema que assombra todos os homens: a impotência sexual.

O  polêmico fotógrafo italiano Oliviero Toscani, em sua obra A publicidade é um cadáver que nos sorri, nos apresenta um “processo de Nuremberg da publicidade” que conta com as seguintes acusações: crimes de malversação de somas colossais, pilhagem, inutilidade social, mentira, contra a inteligência, persuasão oculta, adoração às bobagens, exclusão e de racismo, contra a paz civil, contra a linguagem e contra a criatividade. Toscani inovou ao fotografar pessoas que jamais haviam sido contempladas pela publicidade, além de ter mexido com as mais fervorosas crenças da sociedade e discutido a ética publicitária.

É possível discordar de pontos trazidos pelo italiano, mas é impossível deixar de considerar um fato inconteste em sua argumentação: o caráter vazio das peças publicitárias das maiores empresas do mundo nos força à reflexão do papel que essas organizações deveriam ter nos dias de hoje e o compromisso com a realidade.