Categoria: Leonardo Duarte de Oliveira

A ‘Ditadura da Beleza’, por uma adolescente

Texto de Laura Teixeira (aluna de 12 anos de uma escola pública de São Paulo)

“É fato que padrões de beleza sempre existiram e mudaram com o passar do tempo. Na sociedade contemporânea há, como nunca visto antes, a incessante busca pelo corpo perfeito, graças ao poder midiático e que traz enormes consequência a quem se propõe a alcançá-lo. Para entender melhor este fenômeno precisa-se analisar suas causas e consequências.
Na Grécia Antiga, o corpo masculino grande, forte e saudável era disseminado pela arte, como em vasos que representavam os Jogos Olímpicos. Mais tarde, no Renascimento, o corpo farto da mulher era sinônimo de fertilidade e assim pintado em telas, como a de Sandro Botticelli, “O Nascimento de Vênus”. Hoje, com a tecnologia, a mídia é a principal causa e o meio distribuidor do modelo de corpo perfeito. Diariamente a sociedade é bombardeada por fotos de pessoas esteticamente perfeitas, para estimular a adesão a esse padrão. Seja em propagandas, revistas, novelas, filmes e até em letras de música, em que há a apologia ao corpo feminino esmerado, todos os canais de comunicação distribuem a padronização do corpo, tanto feminino quanto masculino, e, pelo poder das tecnologias atuais, esse espalhamento é muito maior. Quem se beneficia com isso é a indústria estética, que vende dietas, remédios, exercícios, tratamentos e cirurgias que prometem proporcionar o físico ideal.
Assim, há uma série de consequências ligadas à busca do padrão. Os problemas físicos podem ser relacionados às dietas e aos remédios que podem causar gastrite, por deixar o estômago vazio constantemente. Há também a possibilidade de se desenvolver úlceras que podem levar ao câncer. Já o uso abusivo de tratamentos e cirurgias estéticas podem destruir o corpo de uma pessoa, como o que aconteceu com Andressa Urach, pelo uso exagerado de hidrogel. Os problemas também podem ser psicológicos, como a bulimia (nutrição excessiva seguida de arrependimento) e a anorexia (falta de ingestão de alimentos). Ambas podem causar profunda depressão.
Desta forma, visto o mal que o padrão de beleza, na sociedade contemporânea, pode causar, mudanças são necessárias. A mídia deve reverter esse quadro, criando propagandas que mostrem a diversidade estética e que promovam a auto-aceitação. Nas escolas e em casa, os professores e os pais devem ensinar os pequenos a terem saúde sem se preocupar com padrões. Assim, o futuro poderá ser melhor, com pessoas sadias e felizes com o seu corpo, independente de como ele for.”

É bom saber que ainda existe uma esperança no fim do túnel. Se daqui alguns anos a aluna pensar em estudar uma pós-graduação, acredito que ela se identificaria com a disciplina Mídia, Complexidade e Poder…

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O poder da mídia e as oscilações do mercado de ações

Por Leo Duarte

ações
Nas últimas semanas o que mais tem aparecido nas redes sociais são memes relacionados ao jogo de realidade aumentada Pokemon Go. Aqui no Brasil, ele ainda não existe, ninguém sabe se vai existir de fato, mas os comentários não param.
A tiro do marketing da empresa Nintendo foi certeiro. Antes mesmo de lançar o produto no mercado, conseguiu criar tanta expectativa nas mídias que viu sua ações dispararem apenas com a especulação. Em uma semana de lançamento em apenas 3 países, os papéis do grupo avançaram 50%¹ , chegou ao pico acumulado de 86% de alta, sem contar todos os recordes de downloads de aplicativos nos celulares.
Pouco tempo mais tarde², algo parece estar dando errado. O jogo foi liberado em mais alguns países, incluindo o Japão, mas as ações da empresa despencaram. O motivo alegado foi que os desenvolvedores do título pisaram no freio diante de preocupações com sobrecarga dos servidores que hospedam o jogo. As ações vêm tendo uma queda diária de 18% nos últimos dias.
O fato é que a especulação feita pela mídia é tão ou mais poderosa que a especulação do mercado. Elas andam juntas e ligadas. Outros casos, como do próprio Eike Batista, já mostraram que escândalos em jornais e revistas, boatos diversos, influenciam na oscilação do mercado de renda variável.
Como o investimento em ações é uma aposta no desempenho futuro da empresa, o boato preenche um vazio de informação, ou seja, o mercado financeiro tem o boato como um dos elementos que fazem parte da estrutura, definindo comportamentos e dinâmicas.

¹ dados de 14/07/2016
² dados de 20/07/2016

Há quanto tempo você não senta no seu sofá?

Por Leo Duarte

Fazendo referência à modernidade líquida de Zygmunt Bauman, podemos afirmar que hoje o derretimento dos sólidos são para a busca de novos líquidos, ou seja, as grandes instalações de empresas com galpões, diversas salas de escritórios e departamentos, arquivos de documentos, tudo hoje pode estar centralizado num único laptop que provavelmente está na mesa de cabeceira no dormitório de um empresário que administra  através da Internet, a terceirização de sua fábrica que talvez nem esteja no Brasil.
Os poderes se liquefazem e não param por aí. Não é só nas empresas que o “macro” cedeu lugar ao “micro”. Muito provavelmente, o dormitório em que o empresário está com o laptop não faz parte de um casarão antigo, com pé direito alto e quintal com jardim. A tendência do micro também está presente e cada vez mais forte no mercado imobiliário atual.studio
Basta prestar atenção num desses jornais de lançamento de prédios entregues no semáforo que é possível reparar algumas curiosidades: a grande maioria são de pequenos apartamentos (outro dia recebi um anúncio de apartamento de 18m², sim, dezoito, no centro de São Paulo!!!); observando o desenho da planta é nítido como as salas estão cada vez menores, com espaço para no máximo um sofá de dois lugares, menores que os próprios dormitórios, menores que as próprias “varandas gourmet”, quando estas existem no projeto.
Em visita a um modelo decorado durante um trabalho de gravação para
a construtora, perguntei ao corretor o motivo dos quartos e as varandas serem maiores que a sala. A resposta foi o que eu já deduzia: “hoje em dia, as pessoas chegam em casa e vão direto para o seu quarto ficar no laptop trabalhando, não sentam mais no sofá para ver televisão, muitas vezes fazem as refeições na rua, então o dormitório é a nova sala de estar, e nas raras vezes que recebem amigos, pois não se tem mais tempo para isso, ficam na varanda gourmet, então a cozinha não precisa ter espaço para mais de uma pessoa também”.
A minha curiosidade foi além: “e em relação ao lazer que o prédio vai oferecer, é bem completo, parece um clube; mas e se todos os moradores resolverem usar ao mesmo tempo não virará um caos?” e a resposta: “ninguém usa o lazer, ninguém tem tempo, é apenas formalidade para valorizar o condomínio”. Já num tom de ironia, mas com um raciocínio “moderno líquido” admirável, o corretor continuou: “enquanto as pessoas não percebem isso, a gente continua colocando espelhos nas paredes do apartamento modelo decorado para dar sensação de amplitude, além disso, neste corredor de entrada do prédio vamos colocar um banco e aqui será mais um item de lazer deste “maravilhoso” clube, o Espaço de Convivência… que provavelmente ninguém usará, mas estará no memorial descritivo como item de lazer”.

É possível não deixar rastros?

Por Leo Duarte

digitais

Um rastro digital é o vestígio de uma ação efetuada por um indivíduo no ciberespaço. As particularidades dos rastros digitais são partilhadas por outros tipos de rastros, mas encontram na inscrição digital a sua intensificação.
A máxima da pragmática “não podemos não comunicar” pode ser reescrita: não podemos não deixar rastros, afinal, comunicar é deixar rastro. Além das informações pessoais que divulgamos conscientemente nas redes sociais, toda a ação de navegação, busca e download deixa algum tipo de rastro , um vestígio mais ou menos explícito, suscetível de ser capturado e recuperado.
Se antes o ato de fazer alguma conta ou inscrição em algum site ou plataforma dependia de um gesto adicional à navegação, hoje, está incorporada à ação. Um check-in em algum lugar depende de um cadastro prévio, e além disso, é a inscrição de seu próprio rastro que passará a ser referência para outras inscrições de outras pessoas que também passarem por ali.
Se historicamente era necessário arquivar para não esquecer, agora é preciso esquecer para não arquivar, pois na rede, o arquivo é assegurado por padrão. Os rastros digitais são persistente e facilmente recuperáveis. Isto devido à diminuição relativa do intervalo entre a ação, a inscrição do rastro e sua recuperação. Existe a possibilidade de monitorar e capturar o rastro em tempo real, de modo a possibilitar vias diferenciadas de recuperação. O Google Insights, por exemplo, permite que recuperemos os rastros de busca de termos em períodos específicos, visualizando a sua frequência numa linha do tempo.
Vestígios se inscrevem nos navegadores e nos sites através de cookies e beacons, contendo o registro de nossa navegação, são exemplos dessas outras camadas de rastros, menos visíveis.
Enfim, são muitas marcas, quase que invisíveis, de ações que muitas vezes nem são percebidas. Um aplicativo que, em sua face, quer apenas divertir, porém, indiretamente alimenta os gigantescos bancos de dados publicitários.

Redes livres: uma esperança à privacidade

Por Leo Duarte

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Segundo a Universidad Anáhuac, as redes livres são uma ótima alternativa para garantir mais segurança e privacidade e vão de encontro ao monopólio, como exerce o Facebook atualmente.
As redes livres trabalham com o conceito de federalização de servidores, ou seja, qualquer pessoa pode ter seu servidor autônomo e dialogar com outros servidores em uma dinâmica que atenda aos seus próprios interesses. É a lógica da federalização de um país transferida para a esfera digital.
Assim como o Brasil é um país federalizado, com vários estados autônomos, que juntos formam o país e que têm legislações específicas que respeitam a regionalidade e a cultura, os servidores federalizados funcionam da mesma forma. Na rede federada, qualquer um pode ser dono de um servidor que o conecta nessa rede, como se qualquer pessoa pudesse ter o seu próprio servidor de Facebook.
Nesse sentido, o usuário que não tiver conhecimento de como criar um servidor, pode simplesmente procurar uma rede livre e procurar um servidor, de qualquer país, que mais lhe agrade. Se você não concorda com a legislação brasileira, por exemplo, pode usar um servidor da Indonésia sem ter seu conteúdo censurado e ainda dialogar com milhares de servidores ao redor do mundo.
Atualmente já há alternativas bem viáveis de redes de comunicação livres e federadas que os usuários podem se cadastrar, utilizar e se comunicar com os amigos e o resto do mundo:

Noosfero
Plataforma web para redes sociais que possui as funcionalidades de Blog, e-Portfolios, RSS, discussão temática e agenda de eventos em um mesmo sistema.

Diaspora
Rede federada em que os servidores podem ser instalados em qualquer lugar do mundo, garantindo a descentralização de dados. O anonimato é garantido pois não é obrigatório utilizar sua identidade real. A privacidade também é garantida pois o próprio usuário concentra seus conteúdos e define com quem ele será compartilhado.

RedMatrix
Plataforma descentralizada que permite manter o controle das necessidades de comunicação com criptografia automática e um controle fino de acesso. Já funciona como uma rede global e distribuída.

Actor
Mensageiro instantâneo, criptografado e feito com base em Software Livre que funciona como alternativa ao Whatsapp.

De onde vem a receita do Facebook?

Por Leo Duarte

A resposta é fácil! Os dados coletados de seus usuários são o principal ativo da rede criada por Mark Zuckerberg!

fb-tecladoOs números são assustadores. De acordo com relatório divulgado em 2015, o Facebook já ultrapassou o número de 1,5 bilhão de usuários, aproximadamente metade dos internautas do planeta. A receita da empresa no segundo trimestre do ano passado foi de R$ 13,5 bilhões.
Como toda companhia de porte global, a empresa tem buscado diversificar seus negócios para manter e ampliar seu poder econômico. Mark Zuckerberg esteve na Cúpula das Américas, realizada no Panamá, e tentou vender seu projeto de internet “gratuita” a diversos países, entre eles o Brasil.
Outra iniciativa, e que causou polêmica, foi a criação do Instant Articles em parceria com outras nove empresas de comunicação, entre elas o The New York Times, o National Geographic e o The Guardian. A ideia da plataforma é que os leitores não saiam mais da rede social para ler o conteúdo destes veículos, que seria publicado diretamente no Facebook. Mais uma forma de concentrar a informação, em troca de partilha de receitas publicitárias. Um dos grandes problemas que muitos enxergam na atuação da empresa é a estratégia de criar a dependência em relação aos seus serviços para se cobrar mais adiante.
Outra ação da empresa é a restrição da visualização de posts. Somente 2% a 4% dos seguidores ou amigos de cada página ou de cada perfil do Facebook conseguem visualizar posts que não sejam “impulsionados”, ou seja, promovidos com pagamento de créditos. O site se defende que é uma forma de entregar para os usuários somente o conteúdo de “alta qualidade”, qualidade segundo seus próprios critérios, obviamente…
Não apenas pelo valor pago, esta ferramenta de controle que filtra e seleciona tudo aquilo que deve ou não circular de acordo com os interesses da companhia também acabada influenciando no debate que estará em voga e assim, definindo comportamentos.
Tanto o Facebook quanto o próprio Google extraem informações pessoais dos usuários para vender anúncios e produzir marketing de acordo com o modo de utilização de seus serviços. Em outras palavras, é com estes dados que as duas companhias acumulam lucros estratosféricos.
Calcula-se que o lucro da companhia com cada usuário, por meio de anúncios direcionados, gire em torno de 20 centavos por mês, o que faz o negócio valer a pena somente para quem tem um contingente grande de usuários.

Invasão ou Evasão de privacidade?

Por Leo Duarte

privacidadeNas redes sociais digitais, a exposição generalizada da intimidade permite maior exploração das informações pessoais ali depositadas, e com a autorização prévia do autor. Neste contexto, visibilidade, vigilância e identidade contribuem para a desvalorização da privacidade.
Parece inapropriado falar em invasão de privacidade quando se observa o vasto compartilhamento de informações com o objetivo da busca de exposição e audiência, na verdade a invasão se tornou evasão da privacidade.
Facilitada pelas redes sociais, a exibição pública caminha para a naturalização, dando chance ao sonho dos que desejam ser “celebridades” cativando uma audiência particular. A questão da privacidade nas redes sociais aponta para a necessidade e de reflexão sobre o conceito em meio a tantos mecanismos de busca, rastreamento, indexação, vigilância e visibilidade.
Se a privacidade, antes, era vinculada à existência de espaços privados, como sua própria residência ou até o seu dormitório, hoje o conjunto de dispositivos tecnológicos conferem acesso público a este ambiente privado. Embora câmeras de vigilância e escutas telefônicas estejam associadas à invasão de privacidade, webcams instaladas pelos próprios indivíduos em seus quartos são indicativos de um movimento de evasão das paredes protetoras do espaço privado.
Na cultura midiática, a notoriedade pública torna-se medida de sucesso. O fim dos limites entre o público e o privado produzirão uma crescente desvalorização da privacidade. No âmbito digital, a privacidade já pode ser considerada um obstáculo à realização de um mundo mais aberto, ou seja, a privacidade, antes compreendida como conjunto de direitos, agora passa a ser uma detestável opacidade que relega o indivíduo ao anonimato.
A explosão das redes sociais digitais, que possibilitam a promoção individual para uma audiência cativa, é mensurada pela quantidade de seguidores ou “curtidas”. Por confundir com o imaginário do espetáculo, a visibilidade torna-se cada vez mais desejável ainda que traga consigo a vigilância.
Talvez seja o momento de reabilitar a privacidade como resistência e afirmação dos direitos individuais ao invés de qualificá-la de obsoleta, declará-la morta e entregá-la aos cães.