Categoria: KANE/1SEM16

Já ouviu falar em Sense8?

Por Karinna Taddeo

Imagine se você fosse capaz de se conectar mentalmente a uma pessoa que nunca conheceu e que pode estar em qualquer parte do mundo. O que você faria?

Essa é a premissa de Sense8, uma série das irmãs* Wachowski, criadoras do filme Matrix.

A história mostra a vida de oito pessoas que têm uma conexão entre si, apesar de não se conhecerem. Elas começam a se comunicar e percebem que conseguem compartilhar sensações, memórias, idiomas, cheiros, gostos, sons e até habilidades, embora tenham diferentes culturas e vivam espalhadas pelo mundo.

O interessante é que cada personagem tem um perfil distinto do outro e a série mostra como a diferença entre os seres humanos é justamente o que permite que a espécie sobreviva: aliando nossas aptidões e conhecimentos, somos mais fortes.

Além disso, a série discute questões complexas como homossexualismo, religião, machismo, transexualidade e pobreza, fazendo o espectador refletir sobre temas importantes e atuais.

Está esperando o quê? Entre logo na Netflix e assista à primeira temporada. Garanto que você vai querer fazer uma maratona!


*Os irmãos Wachowski agora são as irmãs Wachowski.

Da série feminismo: a pressão da sociedade

Por Karinna Taddeo

Inspirada pelo post Da série feminismo: casamento, da Patricia, resolvi escrever sobre o tema. Assim como ela, não alterei meu nome depois de casada, pois isso nunca fez sentido na minha cabeça: já tenho quatro nomes, por que adicionaria mais um? Lembro-me até hoje do momento em que a funcionária do cartório me perguntou se eu adotaria o sobrenome do meu marido e como rapidamente respondi com um enfático “Não!”. Não tinha sequer pensado na possibilidade, era como se na minha cabeça isso não existisse mais.

Passado algum tempo, comecei a refletir sobre isso: por que eu não titubeei ao afirmar que não adicionaria o nome do meu marido e por que as mulheres, em geral, acabam alterando seu próprio nome por pura obrigação, sem se questionar por que o fizeram?

Vejam bem, não sou contra a adição de sobrenome tanto por parte da esposa quanto pelo marido (sim, o homem também pode incluir o sobrenome da mulher), desde que tenha sido uma escolha e não uma imposição da sociedade. Mas o que acabo vendo entre algumas amigas é que há uma pressão, muitas vezes por parte dos próprios parentes, para que mostrem para a sociedade que estão casadas e que “deram certo” na vida. Afinal, para boa parte da família tradicional brasileira, “ficar para titia” não é algo que se deseje para uma filha, já que o casamento é encarado como o suprassumo da vida feminina.

Foi aí que me lembrei da minha educação e de como minha mãe não fazia comentários que me fizessem sentir que tinha a obrigação de casar um dia. Ela nunca me pressionou para “achar um bom partido” nem ficava falando “quando você se casar…” ou “cuidado para não ficar para titia”.

Hoje, vejo que devemos parar de forçar as pessoas, principalmente as mulheres – o público-alvo desse tipo de imposição –, a pensar no casamento como o auge da sua vida. É necessário mostrar para todos que cada indivíduo deve levar a vida da forma como bem entender, uma vez que é perfeitamente possível ser feliz e ter uma vida cheia de realizações mesmo que você não tenha se casado. Precisamos libertar as pessoas desse estigma de que ser solteiro é ruim e parar com essa loucura – sim, loucura! – de que só se pode ser feliz a dois.

O tempo

Por Karinna Taddeo

Esta poesia de Mario Quintana vale uma boa reflexão. Como estamos levando a nossa vida?

O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Charles Foster Kane

Por Karinna Taddeo

Charles Foster Kane é o personagem principal de Cidadão Kane. Tenho lido e ouvido esse conjunto de três nomes com uma certa frequência, desde a primeira vez em que vi o filme, em 2004, mas somente hoje, nesta madrugada fria de julho, parei para analisá-lo.

Para quem não assistiu a esse clássico, segue uma contextualização. A mãe de Kane recebe de um inquilino inadimplente a escritura de uma mina abandonada como forma de pagamento. Quando se descobre que a mina é lucrativa e a família tornou-se rica, a mãe de Kane entrega o filho a Walter Thatcher, bancário que ficaria encarregado de prover uma boa educação a Charles.

O fato de ter passado a infância longe do convívio de sua mãe está indicado no próprio nome de Kane. A palavra “Foster” equivale, em português, a “adotivo”, “de criação”. É como se Charles tivesse sido adotado pelo banco, uma vez que não foi criado por sua família biológica.

Agora, analisemos o sobrenome Kane. Se pensarmos na sua pronúncia no inglês, podemos perceber que a sonoridade assemelha-se ao nome Cain (em inglês), ou seja, o Caim filho de Adão e Eva. Esse personagem bíblico mata o próprio irmão por ciúmes e depois parte para uma terra distante. No caso de Charles, ele se afasta de seu amigo Jedediah Leland por conta de seu orgulho e depois, no fim de sua vida, morre em Xanadu, isolado de todos.

Para os nativos de língua inglesa, essas associações devem ser corriqueiras, mas para nós, falantes do português, a relação entre o nome do personagem e a sua vida só nos aparece quando paramos para refletir sobre o assunto.

Pensar incomoda

Por Karinna Taddeo

Ultimamente, temos visto uma ascensão do conservadorismo e dos partidos de ultradireita pelo mundo. Ao pensar sobre esse assunto, lembro-me de Cidadão Kane, de Orson Welles. No filme, há uma fala em que o personagem principal, Charles Foster Kane, afirma: “[people will think] what I tell them to think”.

Ao ler jornais nacionais e estrangeiros, tenho observado que cada vez mais esses partidos conservadores manipulam as informações e fornecem dados errados apenas para atingir seus objetivos. Um exemplo bem atual é o caso da saída do Reino Unido da União Europeia, popularmente chamado de Brexit: os políticos a favor da saída adulteraram dados de forma que a população fosse enganada e votasse Leave (sair). Passado o referendo, eles retificaram as mesmas informações, alegando que os dados não estavam corretos. Muitos eleitores que optaram pelo Leave nas urnas se sentiram enganados e se arrependeram de seu voto. A falsificação de dados foi descarada, mas para esses políticos os fins justificam os meios. A questão é que boa parte dos eleitores não refletiu sobre o ocorrido após a votação, uma vez que a doutrinação já estava completa.

Não é exatamente isso o que os ultraconservadores querem? Que paremos de refletir, que joguemos a culpa dos nossos problemas nos refugiados, nos marginalizados, nos pobres, em vez de pressionarmos os políticos para que tenhamos uma sociedade mais justa? Em tempos de crise mundial, é muito mais fácil direcionar o ódio da população para as minorias, culpando-as de todo o mal, do que dar educação para os excluídos ou acolher o refugiado que não teve escolha senão fugir de seu próprio país. Meu receio é que o conteúdo das aulas de História tome vida novamente e que cometamos as mesmas barbáries uns contra os outros. Por isso, precisamos sempre filtrar as informações que recebemos e procurar por variadas fontes antes de formar nossa opinião.

Em tempos de ultraconservadorismo, pensar incomoda.

Domingo de manhã

Giovanna Betine

domingo de manhã

Domingo de manhã é um não-lugar e um não-tempo: apenas existe para o esvaziamento. Eis a sua finalidade. O despertador não toca e a cama permanece sendo templo; o lugar de meditação. A penumbra do quarto se mistura ao raio de calor que passa pela fresta em sinal de recomeço. O quarto continua cercado de silêncio e bocejo. Ficar deitado num domingo de manhã é a experiência de imaginar que ninguém mais existe, que somos únicos no mundo e que qualquer problema pode ser resolvido por meio das divagações que a cama proporciona.

Domingo de manhã é dia de sono sem polícias, sem acordes que precipitem o que quer permanecer dormente. Eu, se acordo cedo neste dia, não me levanto. Se o telefone toca, não atendo. Não ligo a TV, apenas o celular. Consulto o e-mail e percorro alguns sites. Seleciono a playlist e viajo. Volto a dormir. Domingo de manhã não serve para grandes afazeres, apenas para os pequenos. Então penso. Porque pensar pode ser pequeno demais, às vezes. Esfrego os pés pelo lençol liso [sim, liso, pois quase não me mexo ao dormir] e sinto um frescor infantil, um prazer de Amélie Poulain.

Percebo que o dia lá fora pode trazer ares de promessa, mas não encontro motivação maior do que a de poder não-ser. Domingo é dia de não ser, porque é o primeiro: pertence ao inédito e vulnerável. E nessa rotina de verificar que sou imprestável aos domingos de manhã, pergunto-me o que as pessoas fazem. Sim, tenho almoços de família a frequentar. Adianto os trabalhos da semana. Coloco a leitura em dia. Entretanto, não me poupo do ritual de idealizar que meus problemas estão do lado de fora do quarto. Aos domingos de manhã, não permito que eles passem pela porta fechada. Este dia não pertence aos calendários nem cronômetros.

Levanto-me numa camisola qualquer e descalça percorro a casa. Escolho de que forma vou dar carinho a mim mesma: um filme pra ver, um livro pra ler, no que escrever. Mas ainda assim, esqueço de que há vida do lado de fora. Domingo de manhã é dia de ser egoísta e pensar que se eu continuar fiel à minha meditação solitária, o imaginário se concretiza. Todo domingo de manhã é dia de Ano Novo, tendo uma semana virgem pela frente. Ócio criativo. Preguiça consentida. Momento neutro dedicado ao ato religioso e ético. Prestação de fidelidade a si mesmo. Rito despretensioso.

Momento de comprar o pão e voltar a pé pra casa. Fazer a caminhada que permitirá o almoço farto. O jornal folheado com calma. O passeio com o cachorro. Permitir-se arranhar pela unha do gato. O compromisso com as crianças. Pequenos serviços que marcam a atemporalidade do que está reservado para o autoesgotamento. Não deprecie o tédio dos domingos pela manhã; não exalte a folga das manhãs de domingo. São as horas do não existir no mundo. Elas servem apenas para não fazer nada. E tentar preencher o nada é pecado que nem mesmo os domingos de manhã podem perdoar.