Categoria: João Pedro B. Boaventura

Catalogação Humana

João Pedro Boaventura

Pensei direitinho no que seria meu último post e, ao ver no Facebook uma postagem escrito “E se eu te dissesse que os maiores cientistas de exatas eram filósofos?”, lembrei-me de uma ideia que eu sustentava quando eu era bem moleque e que acabou sendo esquecida na minha memória, especificamente, a respeito da divisão entre ciências humanas e exatas.

Digo, por que tanta insistência em catalogar as coisas como “de humanas” ou “de exatas”? Ainda, por que nos catalogarmos como “sou de humanas” ou “sou de exatas”? Acredito que isso tenha se originado na época do positivismo, que visava o progresso fragmentado e especializado, com um foco específico, aí criou-se essa divisão brusca entre as duas como se não se complementassem.

No passado, a física se desenvolveu com Aristóteles que foi um dos primeiros a delimitar a existência de algo chamado “matéria”. René Descartes não era apenas o matemático que desenvolveu a lógica cartesiana, mas também um filósofo que dissertou a respeito da existência de Deus na natureza. Hoje, mais do que nunca, a sociedade acaba sendo prejudicada abusivamente por culpa disso.

Na contemporaneidade digital, pro exemplo, onde a produção de conteúdo hoje é praticamente toda digitalizada, ambos esses lados de pensamento acabam sendo prejudicados. O lado “de humanas” por não ter o conhecimento técnico a respeito das tecnologias para onde seu conteúdo produzido para otimizá-lo já dentro de sua plataforma; e o lado “de exatas”, que, atendo-se primordialmente à parte técnica da questão, acaba deixando passar todo o potencial imaginativo que determinadas plataformas oferecem. Caberia, então, um conhecimento completo de ambas as partes que se complementam e acabe otimizando o resultado final, onde o criador desse conteúdo sabe de todo o potencial assim como de suas limitações.

E ainda, as discussões que têm como base a expansão da tecnologia técnica, como a questão da iteligência artificial ou clonagem, por exemplo, não têm um pé na área de sociologia, de humanas, julgando o forte impacto nas relações interpessoais que tais desenvolvimentos trariam?

As questões de pluralidade e multidisciplinaridade foram perdidas nessa era de produção científica massificada. Esses conceitos atuais de otimização do desenvolvimento, feito de forma robótica, nos são introduzidos desde a formação básica, ensino fundamental e médio, onde até mesmo a própria filosofia, nos é ensinada de forma determinista e, por que não, chata, uma vez que parte da sociedade as considera inúteis. Essa divisão de exatas e humanas deveria ser tanto introduzida quanto encerrada em cursinho pré-vestibular, que não visam formar o cidadão para a vida, mas apenas fazê-lo entrar numa faculdade para corresponder o capital que nessas instituições foi aplicado.

E é claro, isso abre para outra discussão: Por que diabos o sistema de ingresso em universidades é como é?

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Vale julgar um livro pela capa?

João Pedro Boaventura

Essa história de “Não Julgue um Livro pela Capa” é engraçada. Insistem que isso não é algo a ser feito nunca. No entanto, o nosso sistema econômico baseado em relações mercadológicas QUER que isso aconteça. A sociedade midiática em que nós vivemos está cansada de fazer isso e todo o produto criado no intuito de vender é projetado para seguir essa lógica.

Digo, se vamos à banca de jornal e compramos a revista, muitas vezes é porque o assunto nos atraiu porque a capa estampa tal assunto. O que é um trailer para um filme senão uma espécie de capa? Um vídeo de gameplay de um jogo? Não são capas factuais, mas metafóricas. A indústria sobrevive dessas capas. O trailer cria a expectativa para um filme que será consumido pelo seu público. A expectativa criada é uma espécie de julgamento feito. É por isso que não é incomum aparecerem filmes absurdamente ruins com trailers interessantes que às vezes vendem o produto como algo que ele não é.

Pensei nisso assistindo ao remake/reboot dos Ghostbusters. O trailer era bem ruim, e digo isso independente do chororô bobo suscitado por conta da mudança dos personagens principais, que agora é uma equipe de mulheres. O que foi feito aqui é que julgaram o livro pela capa, mas com os argumentos errados. O filme em si é bem interessante e o trailer foi ruim, mas não por causa da mudança dos protagonistas.

A conclusão que se tira disso (eu acho, né?) é que não é problema julgar um livro pela capa – senão o indivíduo ia se tornar uma espécie de escravo consumista de algum tema específico que o atraia. O problema é julgar da forma errada. Ou, ainda, a capa pode até ser feia, mas dar uma folheada a mais para checar o conteúdo também não é nenhum crime.

Paradoxo de Lex Luthor

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Independentemente das críticas feitas à abordagem do personagem interpretado pelo Jesse Eisenberg no filme “A Origem da Justiça”, Lex Luthor levanta um questionamento interessante a respeito de Superman. Nessa encarnação, o empresário é também um teólogo e vê a figura do Superman como messiânica. Devido a traumas na infância, Luthor não acredita em deuses porque se ele fosse como o representam, jamais deixariam algo ruim como aquilo acontecer.

Ilustrando, ele cita outro dilema de Epicuro, algo além e diferente do tetrafármaco. O paradoxo citado por Lex Luthor, provindo do pensador em questão, é que “se Deus é todo-poderoso, ele não pode ser de todo bom. Se ele é de todo bom, ele não pode ser todo-poderoso”.

Tal lógica vai ainda mais além no pensamento original de Epicuro. Ele não levanta apenas a questão da onibenevolência e onipotência, mas também a da onipresença. Teoricamente, Deus não pode ter as três características em simultâneo. Se ele é onibenevolente e onisciente, ele não é onipotente, caso contrário, iria extinguir o mal do mundo. Se ele é onipotente e onibenevolente, ele não é onisciente, pois não saberia onde o mal está. Se ele é onisciente e oinipotente, ele não é onibenevolente, algo levantado do filme. Lex afirma que Deus é uma entidade tribal que escolhe lados. Ainda, isso é trabalhado ao longo de várias representações do Superman, como quando ele é incapaz de salvar alguém ou reverter alguma tragédia e os jornais da ficção questionavam “Onde está o Superman”? No próprio filme, Lex afirma “Deus toma partido”.

Afinal, Superman é onibenevolente e onipotente, mas não onisciente.

Indo mais além e esquecendo um pouco a mitologia midiática do mundo hoje. Epicuro faz um questionamento na antiguidade clássica, antes da idade média a respeito de um Deus de poder absoluto. Na idade média, a Igreja alienava a população vendendo a ideia de um Deus onibenevolente, onisciente e onipresente, o que mostra que muito desse conhecimento perdido e ocultado fez falta durante a “Idade das Trevas”.

Se bem que, considerando que o medo do inferno era presente naqueles tempos, o paradoxo de Epicuro continuou correto, afinal, um Deus onibenevolente não puniria ninguém, não mandaria ninguém ao inferno.

João Pedro Boaventura

Quem é ditador?

Gosto desse desenho do Pato Donald, lançado em 1943. Todas as vezes com que me deparo com qualquer citação ao Grande Ditador do Chaplin, acabo me recordando desse curta-metragem em animação. Nele, o Pato Donald acorda numa Alemanha Nazista e é obrigado sempre de forma repetitiva e mecânica a trabalhar em prol do Führer, sempre com os soldados fazendo propaganda a ele, como se servi-lo fosse a melhor coisa do mundo.

É interessante ver também que, apesar do Pato Donald estar lá trabalhando, ele não faz a mínima ideia do que está realmente fazendo. Ele só está lá, como quando um sonolento Pato acorda já saudando os três líderes do Eixo: Hirohito, Hitler e Mussolini. Ele só vai de acordo com a música. Isso ressalta o aspecto da manipulação. Ela te manipula para deixar você ocupado e você simplesmente não se questiona o motivo, só o faz.

O que mais me chama a atenção, no entanto, é o final. Não sei se é por interpretação minha, apenas, ou o desenho realmente quis dizer isso, mas, Donald, ao acordar com a Estátua da Liberdade e a abraçando, com um pijama de estrelas e listras, fazendo apologia à bandeira americana, é justamente uma crítica feita não só à Alemanha, mas também ao próprio Estados Unidos, que, apesar de não pedir para idolatrar uma figura concreta, apega-se a símbolos com o mesmo poder que um Hitler. Acho isso muito esquisito, tratando-se da própria Disney.

João Pedro Boaventura

Aperte Y para ser alegre.

João Pedro Boaventura

Todos os anos acompanho as conferências da E3, uma feira de jogos que mostra os futuros lançamentos de jogos de videogame. Já tem uns três anos que essa feira é um tédio que só, mas essa edição de 2016 me apresentou a um jogo curioso. Talvez foi o único título que realmente me surpreendeu durante a conferência da Microsoft, na segunda-feira do dia 13.

Durante o seminário de Admirável Mundo Novo, antes de apresentar algumas obras que, de algum jeito, foram influenciadas pelo livro original, comentei que, por tal literatura clássica não atrair mais tanta gente de forma espontânea, são criados mecanismos que trazem novamente esse tipo de material em pauta novamente. Enfim. Lá estava eu, assistindo, quando começou o trailer, com uma citação a Leon Tolstói. Em seguida, aparece uma visão em primeira pessoa – utilizada em games para fomentar maior imersão na obra, dando a crer que é o próprio jogador que está lá – lendo um jornal e a data era 1964. É óbvio que é coincidência, mas eu acabei fazendo piada “é jogo sobre o golpe militar?”. Esse mesmo comentário, mesmo sem deixar de ser coincidência, ia começar a fazer um sentido meio assustador.

Em determinado momento, a tela começa a escurecer e o personagem parece desesperado. Em seguida, o mesmo pega umas pílulas e cabe ao jogador pressionar Y para “tomar alegria” ou X para “lembrar”. Em seguida, ele joga as pílulas longe (provavelmente apertou X, o vídeo não deixa nada claro). O tempo passa e entra uma mulher que o chama para uma sala de conferências. Ela vê as pílulas no chão e pergunta “Você não tomou sua alegria?”.

À medida que o vídeo de gameplay (gravações do jogo em si sendo jogado) avança, tudo vai ficando mais escuro até chegarmos na sala de conferência, onde encontramos uma galera batendo numa pinhata. Começamos a bater nela, e ela, de repente, começa a jorrar sangue. Quando nos damos conta, estávamos batendo num rato morto.

Achei engraçado, assim como no 1964 brasileiro o povo se iludia e ignorava o que acontecia, isso acontece aqui também. Foi um dos poucos jogos apresentados que me interessaram em toda a feira de games. Já garanti a minha pré-venda. A graça dessas novas formas de mídia interativa e imersiva é que novas formas de narrativa podem ser extraídas dela. O que é ainda melhor: não é a mesma história, mas uma nova.

 

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A Persistência da Memória

O ser humano perde aos poucos a capacidade de contar a sua própria história? Talvez. Talvez deixamos de viver o agora e apreciar os pequenos momentos da vida porque estamos preocupados em demasia com o futuro ou com o passado, criando soluções alternativas para uma espécie de universo metafórico definido pelo “e se aquilo tivesse acontecido assim…”.

O documentário Solo (2009), conta com um cenário simples – uma tela verde mal feita – e, na tela, em primeiro plano, seu único personagem e agente: Antônio Abujamra, falecido em 2015. Encarnando o personagem de si mesmo, Abujamra conta sobre a sua vida e como ela toda é moldada não por grandes acontecimentos, mas por pequenos acontecimentos casuais do dia a dia que o marcaram para sempre.

Na película, Abujamra discute a respeito de seu divórcio, de um caso curioso a respeito de um número errado para quem ele ligou, de uma vez que deixou uma pedinte a ver navios no farol e outros assuntos. Conhecendo a veia teatral de Abujamra, é difícil saber se os momentos de emoção forte são reais ou forçados.

A ideia do filme dirigido por Ugo Giorgetti é justamente a persistência da memória. Sobre como as pequenas coisas são as que nos definem. Quando algo lá da década de setenta, sessenta, definiu a pessoa (ou personagem, eles se confundem) Antônio Abujamra pelo resto da vida. E nos faz refletir, como algo que aconteceu nos meus três, quatro anos, uma lembrança boba e bem antiga, talvez uma das primeiras ainda registradas no cérebro, pode ter ajudado a delimitar o indivíduo que sou hoje.

João Pedro Boaventura

A cultura da Noiva-Sacrifício

É recorrente na ficção o enredo da chamada noiva-sacrifício. Geralmente em narrativas envolvendo pequenos povoados, é recorrente a figura de uma moça escolhida logo criança e paparicada até atingir determinada imagem, quando é oferecida como sacrifício a alguma divindade cultuada. Tal figura da noiva, em vida, é tratada como uma celebridade e com o maior cuidado.

Em um episódio da décima segunda temporada de South Park, os garotos do controverso desenho estão vendo um debate político entre Obama e Hillary (para as pré-eleições de 2008) porque seus pais os obrigaram (“É IMPORTANTE!”, disse um dos adultos na sala quando indagado a real necessidade daquilo) quando o debate é interrompido com o PLANTÃO BRITNEY, com as últimas notícias a respeito dos desastres cometidos pela Britney Spears em sua época de crise (quando o episódio foi ao ar). A maluquice da vez cometida seria que a cantora foi flagrada urinando atrás de um arbusto. “Essa garota é um desastre”, repetem ao longo do episódio.

Após diversos acontecimentos, os protagonistas da série acabam descobrindo que toda a intensiva cobertura acerca do declínio da cantora era porque ela estaria destinada a morrer de qualquer jeito e atribuíram o motivo a alguma coisa relacionada à colheita do milho (é, um motivo bobo proposital). Interessante ressaltar que, assim como a noiva-sacrifício da ficção, Britney é uma figura midiática escolhida desde criança para assumir aquele papel determinado a ela na sociedade.

Isso tudo tem a ver com a necessidade do ser humano em acompanhar desgraças. É da compulsão natural grudar os olhos na TV em coberturas como a do ônibus 171 ou do sequestro da jovem Eloá. Esse tipo de espetacularização da vida humana em jogo vem desde as arenas com gladiadores que apostavam a própria vida em prol do entretenimento.

A questão envolvendo a Britney é uma variação desse sentimento. Ela, como é conhecida pelo público desde a infância, torna-se uma figura midiática onde o relevante não é o que ela produz, mas o que faz, como uma Maria Antonieta, moderna (rainha altamente midiática, muitas vezes considerada como “a primeira socialite”).

Dessa forma, criamos nossas próprias noivas-sacrifício. Criamos celebridades e as moldamos de tal jeito que qualquer transgressão disso acarreta numa polêmica que acaba repercutindo para o deleite dos apocalípticos. Britney Spears foi um exemplo. Não é preciso andar muito para encontrarmos o nosso próprio exemplo em solo nacional. A cantora Sandy, por exemplo, por estar na mídia desde a infância, acabou criando uma figura à qual ela se tornou presa, como é exemplificado pela polêmica declaração dela que estampou a capa da Playboy e causou maior furor do que a coelhinha do mês.

Digo, é meio bizarro. A vida de um indivíduo escolhido desde a infância pode não ser literalmente sacrificada, mas com certeza é metaforicamente, em prol de uma oferenda ao onipresente deus da mídia.

João Pedro Boaventura