Categoria: Jade Campos Drummond

O sensacionalismo de Kane e de muitos outros

No filme Cidadão Kane (1941), o sensacionalismo jornalístico é um tema muito perceptível durante a narrativa. O personagem principal, Charles Foster Kane, assume a direção do jornal The Inquirer e logo já determina mudanças específicas nesse sentido, como a utilização de manchetes que ocupem os três blocos da capa, tornando as chamadas para as notícias visivelmente mais espalhafatosas.

Essa estratégia de conquistar a curiosidade do leitor a partir das manchetes não se limita ao filme e, muito menos, à década quando foi produzido. Inclusive, com as mídias digitais cada vez mais fortes no dia-a-dia da sociedade, títulos exagerados se tornam corriqueiros. A lógica por trás é a mesma: vender. A diferença: o meio utilizado para monetizar.

Tanto nos jornais impressos quanto nas mídias online, as empresas pagam por espaços publicitários nos meios de comunicação de acordo com o alcance que eles possuem. Quanto maior for o seu alcance, mais lucro com anúncios você terá. Nos jornais impressos eram contados os exemplares vendidos, já no meio online essa monetização é medida de duas formas: anúncio de modalidade CPM (Custo por mil impressões, ou número de visualizações) ou CPC (Custo por clique no anúncio). A visibilidade vale dinheiro. E, nesse contexto, é difícil imaginar o cenário sensacionalista mudar.

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Invisibilidade LGBTQ na TV asiática

Jade Drummond

A iniciativa de direitos humanos Not Only Voices entrevistou em 2015 cerca de 80 ativistas e pessoas ligadas à questões LGBTI no Sudeste Asiático. Em Singapura, conversaram com a advogada e ativista Deryne Sim, que contou um pouco sobre a realidade local e como as pessoas lidam com as diferentes orientações sexuais. Durante a entrevista, um assunto que chama a atenção é a censura da TV local à exibição de imagens positivas de pessoas LGBTQ.

No país, ainda existe uma lei (seção 377A) que criminaliza atos homossexuais entre homens, mas que até agora só é utilizada quando o ato ocorre em espaço público. Já no código de TV aberta diz que “a programação não pode glamorizar ou promover o estilo de vida homossexual”. De acordo com Deryne, se existem cenas com um casal homossexual feliz, elas devem ser cortadas. Se for um casal gay triste, um assassino louco ou se, no fim, um homem deixa de ser gay, aí tudo bem.

“Por isso, pessoas de gerações mais antigas não entendem o que é ser LGBTQ, como são as nossas vidas. Eles são mal informados e têm uma visão muito negativa de pessoas gays. Enquanto a geração atual tem acesso à internet, o YouTube. Nós sabemos… Somos mais expostos a pessoas LGBTQ e não temos medo deles, como é o que acontece com os nossos pais”, opina Deryne. Como advogada e ativista, ela diz passar por conflitos de interesse durante o trabalho. Pois, para garantir que a empresa esteja cumprindo as leis, precisa solicitar que sejam cortadas cenas em que apareçam demonstração de afeto homossexual. Enquanto isso, ela mesma se assume como lésbica.

Esse tipo de censura colabora para a invisibilidade da vida LGBTI na Singapura e em países asiáticos vizinhos que seguem a mesma lógica. Além disso, desrespeita a integridade editorial de alguns programas estrangeiros que são editados para que possam ser exibidos no país. Deryne cita como exemplo as séries The O.C. e Modern Family, nas quais as edições cortaram relacionamentos lésbicos inteiros ou editaram o suficiente para que o envolvimento de um casal gay pareça ser somente amizade.

José Mayer e o poder da repercussão midiática

Por Jade Drummond

Na última sexta-feira (31), foi divulgada uma denúncia de assédio sexual sofrido pela figurinista Su Tonani, envolvendo o ator global José Mayer. O relato, publicado no blog #AgoraÉQueSãoElas do jornal Folha de S. Paulo, chegou a ser tirado do ar por algumas horas, mas o texto logo tomou conta das redes. Em uma escrita muito pessoal e com diversos detalhes, Su descreve uma relação de assédio sofrida por oito meses com José Mayer, com quem trabalha na emissora Globo. Dentre diversas interações desrespeitosas, chama atenção o relato de uma situação recente em que o ator colocou a mão na genitália de Su, dizendo ser um desejo antigo.

No mesmo dia, José Mayer negou todas as acusações com a desculpa (patética) de que estavam misturando ficção com a realidade: “as palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra [que ele interpreta na novela], não são minhas!”, disse Mayer. Entretanto, a repercussão contra o ator foi grande, com o apoio de diversas colegas de trabalho dos dois envolvidos, como Gloria Pires, Grazi Massafera, Bruna Marquezine, Camila Pitanga e Taís Araújo. Então, para não piorar a sua imagem pública, Mayer (ou a Assessoria de Comunicação dele) resolveu voltar atrás e assumir seu erro em uma carta aberta, na qual põe a culpa de suas ações machistas na geração em que pertence e se diz arrependido (obviamente).

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Funcionárias da Globo fizeram protesto em apoio a Su Tonani, com a frase “Mexeu com uma mexeu com todas”. (Foto: site UOL)