Categoria: Guilherme de Morais Bloisi Rodrigues

Balanço

Foram três anos sem entrar numa sala de aula desde que me formei no fim de 2013. Mas nesse tempo, foquei 101% de dedicação e esforço ao meu trabalho de jornalista esportivo. Ainda assim, o incômodo de estar defasado para estudar sempre me pegou.

Eu gosto de estudar, sempre gostei desde moleque. Só agora que, realmente, dediquei-me pouco a isso, por muitos motivos além do trabalho. Problemas familiares pesados, brigas com pessoas que sempre fizeram parte do meu círculo de amigos e até, por que não dizer, não estar confortável e de bem comigo mesmo, me fizeram demover essa ideia.

Não para este ano. Saí da minha caverna particular e pedi demissão do meu emprego. Em um primeiro momento, minha família não gostou muito da ideia, muito por causa deles serem workaholics em seu estado puro, mas eles sentiram que eu precisava de apoio e me deram. Juntei uma grana e morei fora por um tempo, focando em um aprendizado de uma nova língua.

Voltei. Sem emprego, mas disposto a dar um novo rumo à minha vida e voltar a estudar foi o primeiro passo. Ainda não assimilei e aceitei tudo o que devo sobre a decisão que tomei no início deste ano, mas sigo trabalhando nisso. Acredito que 2016 foi o meu turning point pessoal e estou disposto a aceitar todas as consequências dos meus atos como nunca antes tive.

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Doutor

socrates

Em tempos bicudos como os de atualmente, ele seria um dos primeiros a se manifestar contra a politicagem nacional. Sempre ligado, daria um jeito de dizer o que pensava em qualquer que fosse o meio de comunicação, na Carta Capital, jornal Agora SP ou no Cartão Verde da TV Cultura.

Participação essa que se tornou uma das caras do movimento Diretas Já, no começo dos anos 80 quando iniciou a Democracia na equipe do Corinthians, onde todas as decisões eram votadas e todos os funcionários tinham o mesmo peso do voto. Depois de anos de chumbo no Brasil, liderar um processo como esse não teria outra pessoa para tal como ele.

Perdeu a batalha contra o álcool há exatos cinco anos, no dia em que seu time do coração se tornaria pentacampeão brasileiro contra o Palmeiras. Mas Sócrates é um personagem que faz falta. Sua voz seria importante no conturbado período político que o Brasil volta a viver, inúmeros protestos em várias capitais como os de hoje.

O punho cerrado pro alto, sua marca registrada como jogador, e sua língua afiada faria barulho. Um ruído mais incômodo sem temer uma vaia em público.

Privacidade

Há pouco, saiu uma nota publicada no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, em que o Facebook foi condenado a pagar uma indenização de R$ 55 mil à atriz Giovanna Lancelotti por se recusarem a retirar páginas fakes sobre ela. A notícia nos remete a uma discussão, ainda que embrionária, é importante levantar: a falta de privacidade na internet. Casos polêmicos não faltam.

O mais antigo deles aconteceu com a modelo Daniela Cicarelli, em 2006. Ela foi filmada e numa praia da Espanha fazendo sexo com seu então namorado da época, o empresário Renato Malzoni Filho, e teve o vídeo publicado no Youtube. O casal entrou com um processo contra o site e este teve todo o seu conteúdo bloqueado por tempo indeterminado, posteriormente tendo essa ação revogada.

Em 2012, o caso mais famoso e que gerou uma discussão um pouco mais ampla. A atriz Carolina Dieckmann teve fotos íntimas vazadas na internet. Supostamente, as imagens foram copiadas do computador pessoal dela quando o deixou numa assistência técnica e, assim, alguém teve acesso aos seus arquivos pessoais. O Google, à época, não se manifestou. Em dezembro do mesmo ano, a então presidente Dilma aprovou uma lei federal tipificando o delito como crimes informáticos.

Bom, casos de vazamentos de foro íntimos não faltam por aí. O caso com as duas personalidades que estão em evidência nos meios de comunicação, de certa forma, foram importantes para se abrir um leque de ideias, de discussões e, no exemplo de Dieckmann, uma sanção de lei. A privacidade é importante para todo e qualquer ser humano e há de ser respeitado isso; caso não seja, medidas punitivas com a lei devem ser exercidas sem qualquer possibilidade de brecha.

Sensibilidade

Talvez o acontecido da última terça-feira tenha despertado um novo sentimento a nós, brasileiros. Toda a mobilização do povo colombiano solidário ao acidente com a equipe da Chapecoense vista na celebração ecumênica no estádio Atanásio Girardot, em Medellín, foi tocante, emocionante. Particularmente, recebi a foto de um amigo colombiano  que conheci recentemente, o Santiago, presente à cerimônia de ontem, que me deixou feliz. A equipe do Atlético Nacional ganhou a torcida de todo um povo machucado e sensibilizado com uma coisa tão chocante.

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Esperança essa que vai crescendo à medida em que vemos a homenagem de um jogador global como o uruguaio Cavani, atualmente no PSG da França, que marcou um gol na partida contra o Angers pelo campeonato francês e mostrou sua homenagem ao time catarinense. O minuto de silêncio no estádio Anfield Road, do Liverpool, em jogo válido pela Copa da Liga Inglesa, também correu o mundo e foi aplaudido de pé por nós, brasileiros.

As equipes do Vitória e do Palmeiras, que se enfrentarão na última rodada do Brasileirão no próximo dia 11, já definiram que jogarão a partida com o uniforme da Chapecoense. Agora, o que mais torço para acontecer é que a equipe do Corinthians entre em campo vestido de verde contra o Cruzeiro, no Mineirão, acabando com uma tradição mesquinha de que nada na equipe possa ter um traço da cor que seja (embora a Gaviões da Fiel já tenha se mostrado contra a manifestação). Seria marcante para o esporte essa quebra.

Ainda há abutres e insensíveis personagens como o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, que quer a Chapecoense em campo na última rodada mesmo que com juvenis sob a justificativa idiota de que a partida seria ‘uma grande festa’ em homenagem às vítimas. Mas quebra de preconceitos e manifestações positivas em prol da coletividade do futebol estão aparecendo, ainda que embrionárias – e pra quem acompanha com afinco, sabe que é um meio egocêntrico, visando apenas o seu próprio ideal. Ou talvez eu ainda esteja muito sensível em relação ao acontecido.

Desencontros

Foi difícil a cobertura em tempo real sobre o acidente que matou 71 dos 77 tripulantes do avião que levava a Chapecoense até Medellín, na Colômbia, para a disputa da partida de ida da final da Copa Sulamericana. Logo nas primeiras horas da manhã, veículos de imprensa tentavam, à todo custo, manter a calma no cruzamento de informações para passar ao telespectador (e, evidentemente, às famílias) a maior veracidade possível, para o bem e para o mal.

Chamou a atenção a cobertura à respeito de Danilo, o bom goleiro da Chapecoense. Logo de início, o rapaz de 31 anos foi incluído na lista de vítimas fatais até a Cruz Vermelha colombiana desmentir a informação à ESPN Brasil. O canal também fez parte de um momento em que, particularmente, me chamou à atenção.

Perto das 13h30, mais ou menos, o programa Os Donos da Bola, apresentado pelo ex-jogador Neto, confirmara a informação de que o goleiro foi declarado morto pelo cônsul da Colômbia ao mesmo tempo em que sua mãe entrara, ao vivo, no vespertino Bate-Bola, apresentado por Bruno Vicari no canal a cabo, dizendo que a informação que chegou a família é que o atleta havia sido transferido para um hospital diferente dos sobreviventes, com vida. Horas depois, Danilo foi mesmo confirmado como uma das 71 vítimas.

Ainda que o desencontro de informações se mantinha evidente, houve bastante tato dos veículos de imprensa esportiva ao entrar em contato com as famílias e pessoas próximas às vítimas. O Esporte Interativo, por exemplo, definiu que não faria algo do tipo por decisão editorial. Justo quem, recentemente, ‘enterrou’ o ex-jogador do Internacional Adriano Gabiru, por conta de uma má apuração de informações.

Pra terminar, o Jornal Nacional dedicou o noticiário e encerrou com um lindo editorial lido e puxado por Galvão Bueno. Algo tocante e uma homenagem bastante bonita a todos os envolvidos no triste acidente que deixou o esporte mundial de luto.

Castro e o Brasil

Exatos 36 anos liderando um país. O advogado mais controverso do mundo. Fidel morreu ontem, aos 90 anos, vítima do tempo. Não cabe aqui defendê-lo ou apoiá-lo e, sim, estabelecer a boa relação que ele sempre gostou: o Brasil.

História que começou lá em 1959, logo após vencer o exército de Fulgêncio Batista, foi recebido pelo então presidente dos ’50 anos em 5′, Juscelino Kubitschek e teve a oportunidade de ver a capital federal Brasília em construção.

Muitos anos depois, veio novamente ao país para a posse de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto depois de 21 anos de chumbo (curiosamente, um regime bem diferente do instalado por Castro em seu país). Os dois países haviam voltado às boas após o período de Guerra Fria vivido pelo mundo.

Aí, a relação mais famosa e, na minha opinião, a história mais legal vivida entre os dois países. Brasil e Cuba fizeram a final do Panamericano de 1991, em Havana. Paula e Hortência fizeram miséria na partida e levaram a medalha de ouro. No pódio, uma das cenas mais icônicas: Fidel vira as duas atletas de costas e se ‘recusa’ a entregar as medalhas. Uma brincadeira que rodou o mundo e, até hoje, é falada. Virou pergunta obrigatória tanto para Magic quanto para Hortência.

Os ex-presidentes Lula e Dilma sempre se deram bem com o presidente cubano. Gostem ou não, Castro é uma das figuras que merecem ser estudadas para sempre nos livros de história. Pelo seu regime controverso em relação ao restante do mundo. Socialismo esse que, ainda que polêmico, reduziu quase a zero o analfabetismo e o desemprego. O general marcou, aos trancos e barrancos, seu nome como um dos personagens mais icônicos do século XX, para o bem e para o mal.

20 de novembro

angeli

Charge do cartunista publicada ontem em alusão ao ‘feriado’

O dia 20 de novembro é célebre por ter sido a data de morte do Zumbi dos Palmares, líder da resistência dos quilombolas no séc. XVII contra os bandeirantes que foi traído e teve sua cabeça entregue ao governador Melo de Castro. Zumbi que, pouca gente se dá conta, vem do dialeto africano e significa espectro, fantasma. Hoje eles estão na moda em grandes produções norte-americanas, tem boa aceitação de grande parte do público consumidor desse tipo de filme/seriado de TV. Mas a discussão não é essa.

A data virou feriado facultativo em 2003 conforme instituição da lei nº 12.519 de 10/11/2001. Não são todos os estados brasileiros que aderiram – Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro -, nem todas as cidades – mais de mil cidades ao redor do país, incluindo São Paulo. São alguns dos meios existentes para o porquê de se, não celebrar, mas de se compreender a importância de um movimento muito forte e muito reprimido como o movimento negro.

A marginalização à época era tamanha, somos um país relativamente ‘jovens’ na questão da abolição da escravatura (200 anos, pouco mais que isso). E ainda assim, formas de se exercitar o preconceito em relação aos negros estão aí, na nossa frente, aos montes. Personagens trabalhadores de uma renda baixa, como empregadas, capatazes, ainda são representadas em produções televisivas por pessoas de cor, só pra ficar em um exemplo mais gritante.

Embora, há de se reconhecer a importância fundamental que um personagem tenha alcançado o cargo, talvez, mais alto e de maior representatividade no mundo, que é o de presidente dos Estados Unidos como atingiu Barack Obama em 2008 e que, pena, sairá de lá no fim deste ano.

O racismo é só um dos inúmeros preconceitos que temos o direito e o dever de acabar, tal qual atingir a igualdade de gêneros, de sexo, dentre outros.

Há de se respeitar e, agora sim, celebrar o que fizeram Luther King, Malcolm X e, aqui no Brasil, pessoas como o próprio Zumbi, José do Patrocínio, Milton Santos; na cultura: Lima Barreto, Gilberto Gil, Mano Brown e tantos outros para massificar e deixar na história que o movimento negro é forte e não pode ser reprimido mas, infelizmente, o objetivo está longe de ser atingido. O trabalho ainda é árduo.