Categoria: Giuliana Monteiro

EM BUSCA DE ALTERNATIVAS

Por Giuliana Biselli

A tensão política que assola o país desde o fim do primeiro mandato do governo Dilma trouxe, como desdobramento, uma severa crise econômica. A falta de aliados – e de credibilidade – dificultou a governabilidade e a tomada de medidas necessárias para que o país conseguisse apresentar avanços. A população, e economia como um todo, passaram a sentir na pele uma instabilidade que não dá sinais de que possa ser superada de imediato.

Apenas em 2015, cerca de 500.000 pessoas perderam o emprego com carteira assinada, e quase 191.000 empresas fecharam as portas. Segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o país tem hoje 10,4 milhões de pessoas desempregadas E a perspectiva de melhora dos índices não é animadora: estima-se que, até o final do ano, esse número aumentará para 12 milhões. Na busca por soluções, profissionais desempregados, ou preocupados em aumentar suas rendas, encontraram em trabalhos não usuais uma fonte possível para driblar os obstáculos econômicos impostos pela crise.

Dentre os empregos alternativos encontrados pelos brasileiros, um deles tem ganhado destaque, e cada vez mais adeptos: trata-se da prestação de serviço de motorista particular oferecido pela empresa multinacional americana Uber. Criada em meados de 2009 nos Estados Unidos, inseriu-se no Brasil no início de 2014, momento que se mostrou ideal para a sua expansão entre profissionais das mais diversas áreas.

Para aderir à Uber, os motoristas têm de cumprir alguns requisitos: (i) cadastrar um veículo e contratar um seguro de acordo com os termos e condições da companhia; (ii) utilizar um veículo do ano de 2008 ou mais novo, que tenha quatro portas, ar condicionado e capacidade para cinco lugares; (iii) possuir

carteira de motorista válida, além das licenças necessárias para dirigir profissionalmente na sua cidade; (iv) apresentar comprovante de antecedentes criminais; e (v) dispor de certificado de registro e licenciamento do veículo válido.

Uma vez validada a documentação, feita a capacitação online e o cadastro no aplicativo – o que ocorre, em geral, no prazo de uma semana – o motorista pode começar a prestar os serviços. Wilson, ex-bancário de 31 anos, realizou um investimento de R$ 170,00 e em 5 dias estava nas ruas: “o processo é muito agilizado e organizado, nunca imaginei conseguir um emprego assim rápido”.

E a descomplicação e a simplicidade não são as únicas marcas registradas da empresa. Uma das características mais evidentes do serviço é a flexibilidade dos horários de trabalho, a qual permite que os motoristas ajustem suas rendas conforme eventuais necessidades. Por conta disso, a companhia se coloca como alternativa tanto para cidadãos desempregados, como para aqueles que, pelas mais variadas razões, pretendem incrementar os ganhos mensais.

Os exemplos de profissionais que, antes, dedicavam-se à atividades profissionais diversas – e que viram a Uber como uma solução à crise econômica – não são poucos. Marcel Watanabe, corretor de imóveis desde os 25 anos, conta que encontrou, ao seus 43, dificuldade em atuar no ramo. Por conta disso, decidiu atuar, nas horas livres, como motorista e assegurar uma complementação de seus rendimentos.

Situação semelhante é a de Carlos Freire, 38 anos, professor particular de inglês, teve diversas de suas aulas canceladas, o que lhe permitiu maior folga de horários. Aproveitando o tempo extra e as distâncias entre as residências dos alunos, chegou a trabalhar como motorista cerca de 40 horas por mês, o que lhe garantiu que seus proventos não só fossem mantidos, como também aumentados.

Se para os prestadores dos serviços a alternativa tem se mostrado uma nova e viável forma de renda, para os passageiros também existem vantagens. Dentre elas, encontra-se a classificação dos motoristas segundo as notas atribuídas pelos próprios usuários do serviço, o que resulta em ganhos de eficiência e segurança.

Além da pontuação, os usuários podem fazer comentários pelo aplicativo caso não tenham ficados satisfeitos com algum aspecto da corrida. A Uber não só avalia a crítica como toma medidas a respeito. Leticia Gouveia, estudante de 18 anos, afirma que, após uma determinada corrida na cidade de São Paulo, enviou à empresa sua insatisfação com o motorista, que havia errado diversas vezes o percurso. Menos de 24 horas depois, a companhia, além de responder a mensagem desculpando-se, reembolsou o valor do trajeto. Segundo ela, “o fato de a iniciativa privada se responsabilizar pela prestação de certos serviços tradicionalmente tidos como públicos tem demonstrado uma expressiva melhora na qualidade das atividades”.

Apesar de reconhecerem a importância do serviço no atual cenário brasileiro, muitos dos motoristas não se vislumbram na função nos próximos 5 anos. Quando questionado a respeito, Gilberto Ferreira, 30 anos, engenheiro e ex-empregado de uma das maiores construtoras do Brasil, narra que perdeu o emprego no início de 2015, e, encontrou, na Uber, uma forma temporária de conservar a receita de sua família. “Acho interessante a proposta feita pela empresa e consegui que minha renda fosse reduzida em apenas 20%. No cenário atual vejo como algo positivo, mas, à longo prazo, gostaria de voltar a atuar como engenheiro. A vida estressante do trânsito não é para mim”.

Felipe SIlva, 34 anos, e quatro de seus colegas advogados, perderam o emprego em janeiro de 2016. Os cortes no escritório de advocacia foram altos e o serviço de motorista particular foi a solução para três deles. Apesar disso, todos

continuam encaminhando currículos para que, assim que possível, possam voltar a atuar no ramo da advocacia.

O perfil da maioria dos motoristas, assim como Gilberto e Felipe, é de profissionais que, embora tenham um nível superior de escolaridade, encontram dificuldades em se reestabelecer no mercado de trabalho. Alternativamente – e temporariamente – aceitaram um emprego diferente como solução.

Os próximos passos da Uber no Brasil ainda são incertos, porém, a deficiência dos serviços públicos no atendimento à demanda da população, e a falta de perspectiva de melhora no curto prazo, indicam que a empresa terá dois cuidados daqui para frente: sua regulação, e a concorrência.

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Como produzir um atleta

Por Giuliana Biselli

A necessidade de utilizar de produtos ilícitos para obter prazeres, pessoais ou profissionais, não é uma característica exclusiva da sociedade moderna. A utilização de drogas teve sua origem nos anos 3.000 a.C, época em que o ópio, um látex obtido pelo corte dos bulbos da Papoula somniferum, fora conhecido pelos sumérios. Séculos depois, por volta de 1804, o aprendiz de farmacêutico alemão Friedrich Sertuner isolou o principal alcalóide do ópio e lhe deu o nome de morfina em alusão a Morfeu, o Deus dos sonhos. Esta substância seria, poucos anos depois, utilizada para um melhor desempenho dos animais.

O uso de meios ilícitos visando o aumento do rendimento de um atleta, humano ou animal, é atualmente denominado doping. O constante desenvolvimento da tecnologia, cumulado à necessidade de evolução e superação sobrenatural, compeliu a grande maioria dos atletas contemporâneos a recorrer à utilização das substâncias sintéticas em quantidades anormais. O conceito de seleção natural foi alterado e o ter – ou tomar – se tornou o elemento mais importante da vida de um esportista.

Um dos fatores que explica a enorme utilização das substancias é a ausência de fiscalização. No campeonato mais importante do mundo, as Olimpíadas, os testes não abrangem todos os participantes. Muito pelo contrário, somente os medalhistas – e alguns poucos “sorteados” – são obrigados a fazer o exame. Esse é um dos motivos que explica o porquê das estimativas apontarem que 60 a 80% dos atletas que competem em nível mundial utilizam algum meio de dopagem.

Se o cenário mundial já é alarmante, em nível nacional o sistema está falido. Inexiste controle e a utilização atinge todos os níveis e idades. Os atletas vivem em um mundo paralelo, acima de tudo e todos. Os heróis fabricados se arriscam (se é que há risco envolvido) visando melhor performances e, quem sabe, a participação em competições de alto nível – onde tampouco haverá fiscalização.

Esta – falsa – seleção natural tem que ser confrontada. Enquanto a tecnologia for utilizada para criação de novas substâncias, e não no auxilio para a criação de novos métodos de combate e prevenção, essa uma tendência – que já virou sistema – se perpetuará.

Turismo seletivo

Por Giuliana Biselli

Quem ouve falar de um município que tem mais de cem quedas d’água catalogadas pelo Ministério de Turismo jamais imagina que ele está localizado no estado do Amazonas, mais especificamente a 107 quilômetros de Manaus.

E não é atoa que ele é desconhecido. Por falta de propaganda, apenas soubemos do local por conta de amigos. Despretensiosamente, fomos conferir, durante nossas férias, o que a terra das cachoeiras tem para oferecer.

A paisagem é exuberante: grutas, selvas, cavernas e cachoeiras por toda parte. A genuína beleza natural encanta. E melhor, existem atrações para todos os gostos: as de fácil e rápido acesso e aquelas que exigem um maior tempo ou esforço físico.

Infelizmente, há algo além da beleza que impressiona: a infra-estrutura é extremamente precária. A falta de sinalização, pousadas, restaurantes são sinais de que esse ponto turístico ainda tem muito a se desenvolver.

Um maior envolvimento do Ministério de Turismo na divulgação de destinos alternativos é necessário para trazer recursos para a região, e um consequente desenvolvimento. Infelizmente, o atual descaso de autoridades indica que a mudança desse quadro não esta próxima. Enquanto isso, resta aos turistas, carentes de informação, viajar para lugares previsíveis – e que eles, ingenuamente, acreditam escolher.

A tragédia atrai

Por Giuliana Biselli

Um grupo de pesquisa do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG realizou um estudo em torno da “análise de sentimento” que relaciona o sucesso das notícias com sua polaridade, negativa ou positiva.

Foram analisadas 69.907 manchetes veiculadas em quatro sites noticiosos internacionais ao longo de oito meses de 2014: The New York Times, BBC, Reuters e Daily Mail. E as notícias foram agrupadas em cinco grandes categorias: negócios e dinheiro, saúde, ciência e tecnologia, esportes e mundo.

As conclusões da pesquisa são interessantes.

Notícia negativa atrai mais leitores. Cerca de 70% das notícias diárias estão relacionadas a fatos que geram “sentimentos negativos” – tais como catástrofes, acidentes, doenças, crimes e crises. Os textos das manchetes foram relacionados aos sentimentos que elas despertam, numa escala de menos 5 (muito negativo) a mais 5 (muito positivo). Descobriu-se que o sucesso de uma notícia está intensamente vinculado a esses “sentimentos” e que os dois extremos – negativo e positivo – são os mais “clicados”. As manchetes negativas, todavia, são aquelas que atraem maior interesse dos leitores.

Das cinco categorias de manchetes analisadas, a mais homogênea é a categoria “mundo”, onde só foram encontradas manchetes sobre catástrofes, sugerindo implicitamente que o país onde a notícia é produzida seria mais seguro do que os outros.

Descobriu-se também, ao contrário da expectativa dos pesquisadores, que os comentários postados pelos leitores tendem a ser sempre negativos, independentemente do “sentimento” provocado pelo conteúdo da notícia.

Triste realidade. Pautar preferencialmente o negativo se transformou em estratégia de sobrevivência empresarial – e não há perspectiva de melhora.

A travessia

Por Giuliana Biselli 

Doze pessoas. Esse é o número de habitantes do povoado de Baixa Grande, localizado no interior do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Com a economia baseada em um turismo alternativo – e bem limitado – Bete e Moacir aguardam ansiosamente pelos aventureiros que se propõem a andar, descalsos e sob o sol maranhense, cerca de 30 km nas dunas até o terreno do casal.

Ao chegarem, os turistas repõem as energias com um almoço bastante capichado: arroz, feijão, macarrão e galinha caipira. Segundo a Bete, “é tudo simples, mas feito com bastante carinho”.

Depois do almoço o descanso no redário está liberado. O lugar não é dos mais aconchegantes, mas, para os que caminharam 8 horas e estão em estado de petição de miséria, pode ser considerado um verdadeiro resort.

Às 3 horas da manhã o grupo faz uma nova travessia, dessa vez com destino à Lagoa Bonita. Mais 27 quilómetros  de caminhada são necessários. Apesar de bastante cansados e com o corpo todo dolorido, o visual das dunas abraçando as lagoas faz com que todos esqueçam a exaustão. “Nunca vi paisagem tão impressionante”, conta Leandro, um dos corajosos.

Espécies em extinção

Giuliana Biselli Monteiro

Os Morcegos-vampiro são conhecidos pela prática de regurgitar sangue para nutrir os que não conseguiram se alimentar na mesma noite, evitando, assim, eventual morte de um parceiro por inanição. Este é um claro exemplo de “altruísmo”, conceito definido pelo filósofo francês Augusto Comte, o qual trata da inclinação de natureza instintiva que incita os seres à preocupação com o outro.

A prática do altruísmo, comum em sociedades que tinham por base o conceito de subsistência, quase inexiste nos dias atuais. A dificuldade em encontrar um senso de destino compartilhado se deve à ausência de um pensamento a longo prazo, o “aqui” e o “agora” são os maiores – se não os únicos – objetivos dos indivíduos.

Uma das causas que contribui ao desinteresse no compartilhamento do futuro é o intenso desenvolvimento do mundo virtual, em que se privilegia o instantâneo em detrimento do planejamento. A transformação das conexões, relações, comunicações e interações entre as pessoas não só tornou os vínculos mais frágeis e superficiais, como também mudou as regras do relacionamento. Na “sociedade líquida”, expressão utilizada pelo sociólogo Zygmunt Bauman, o verbo conectar-se substituiu o comprometer-se – tudo é passageiro, e parece se desmanchar no ar.

O individualismo tem se intensificado, a ponto de ser quase impossível de se verificar qualquer forma de altruísmo que não seja o da reciprocidade, também conhecido como a relação de “toma lá, dá cá”. Na grande maioria das situações, o real interesse do sujeito em auxiliar o próximo é obter alguma vantagem em troca.

Muito rara de se verificar, a cultura do sacrifício encontra-se quase no mesmo patamar de extinção que os Morcegos-vampiro. Consequentemente, as pessoas não mais se reconhecem na obrigação de viver em nome de qualquer coisa que não si mesmos. Se existir alguma veracidade no ditado popular “cada um colhe o que planta”, será necessário que os indivíduos estejam preparados para uma colheita solitária.

Samuel Wilder

Giuliana Biselli Monteiro

Samuel Wilder, mais conhecido como Billy, apelido carinhoso dado pela sua mãe, nasceu dia 22 de junho de 1906 em Sucha, na Polônia. Uma das personalidades mais conceituadas da história do cinema, Billy foi indicado ao Oscar vinte e uma vezes, sendo que, das seis estatuetas conquistadas, duas delas foi como diretor.

Apesar de, quando criança, sonhar ser advogado, abandonou os estudos de direito para trabalhar com jornalismo em um jornal em Viena, e, posteriormente, em Berlim. Simultaneamente ao trabalho de jornalismo, frequentava ambientes teatrais, o que o levou a colaborar como roteirista em filmes alemães.

Judeu, em um cenário de ascensão do Hitler, Billy foi obrigado a fugir para Paris, cidade em que dirigiu seu primeiro filme. Não tardou a se mudar para os Estados Unidos, onde, além de adotar a nacionalidade americana e trabalhar como coronel no Exército durante a Segunda Guerra Mundial, consagrou-se como um dos maiores e mais ecléticos diretores de Hollywood.

Após enfrentar diversos problemas de saúde, incluindo câncer, em 2002, aos 95 anos, Billy faleceu em seu apartamento, por conta de pneumonia.