Categoria: Giovanna Betine

Domingo de manhã

Giovanna Betine

domingo de manhã

Domingo de manhã é um não-lugar e um não-tempo: apenas existe para o esvaziamento. Eis a sua finalidade. O despertador não toca e a cama permanece sendo templo; o lugar de meditação. A penumbra do quarto se mistura ao raio de calor que passa pela fresta em sinal de recomeço. O quarto continua cercado de silêncio e bocejo. Ficar deitado num domingo de manhã é a experiência de imaginar que ninguém mais existe, que somos únicos no mundo e que qualquer problema pode ser resolvido por meio das divagações que a cama proporciona.

Domingo de manhã é dia de sono sem polícias, sem acordes que precipitem o que quer permanecer dormente. Eu, se acordo cedo neste dia, não me levanto. Se o telefone toca, não atendo. Não ligo a TV, apenas o celular. Consulto o e-mail e percorro alguns sites. Seleciono a playlist e viajo. Volto a dormir. Domingo de manhã não serve para grandes afazeres, apenas para os pequenos. Então penso. Porque pensar pode ser pequeno demais, às vezes. Esfrego os pés pelo lençol liso [sim, liso, pois quase não me mexo ao dormir] e sinto um frescor infantil, um prazer de Amélie Poulain.

Percebo que o dia lá fora pode trazer ares de promessa, mas não encontro motivação maior do que a de poder não-ser. Domingo é dia de não ser, porque é o primeiro: pertence ao inédito e vulnerável. E nessa rotina de verificar que sou imprestável aos domingos de manhã, pergunto-me o que as pessoas fazem. Sim, tenho almoços de família a frequentar. Adianto os trabalhos da semana. Coloco a leitura em dia. Entretanto, não me poupo do ritual de idealizar que meus problemas estão do lado de fora do quarto. Aos domingos de manhã, não permito que eles passem pela porta fechada. Este dia não pertence aos calendários nem cronômetros.

Levanto-me numa camisola qualquer e descalça percorro a casa. Escolho de que forma vou dar carinho a mim mesma: um filme pra ver, um livro pra ler, no que escrever. Mas ainda assim, esqueço de que há vida do lado de fora. Domingo de manhã é dia de ser egoísta e pensar que se eu continuar fiel à minha meditação solitária, o imaginário se concretiza. Todo domingo de manhã é dia de Ano Novo, tendo uma semana virgem pela frente. Ócio criativo. Preguiça consentida. Momento neutro dedicado ao ato religioso e ético. Prestação de fidelidade a si mesmo. Rito despretensioso.

Momento de comprar o pão e voltar a pé pra casa. Fazer a caminhada que permitirá o almoço farto. O jornal folheado com calma. O passeio com o cachorro. Permitir-se arranhar pela unha do gato. O compromisso com as crianças. Pequenos serviços que marcam a atemporalidade do que está reservado para o autoesgotamento. Não deprecie o tédio dos domingos pela manhã; não exalte a folga das manhãs de domingo. São as horas do não existir no mundo. Elas servem apenas para não fazer nada. E tentar preencher o nada é pecado que nem mesmo os domingos de manhã podem perdoar.

Anúncios

Eduardo Coutinho

Giovanna Betine

Os extras do documentário O Fim e o Princípio (2005), dirigido por Eduardo Coutinho, dizem bem quem foi este homem. No município de São João do Rio do Peixe, sertão da Paraíba, Coutinho e sua equipe descobrem o Sítio Araçás, comunidade pobre e rural composta por 86 famílias. Ao longo de aproximadamente 110 minutos, mergulhamos nas histórias mais fascinantes possíveis. Desde à senhora que diz ao Mestre que Deus não ouve a oração de quem pede pelo outro usando apelido (Deus só atende pelo nome completo das pessoas) à nobreza ímpar de Rosa, moça humilde que acompanha Coutinho de casa em casa. São histórias encantadoras, pois registram os laços de afeto e solidariedade, a religiosidade fervorosa misturada à descrença dos que creem terem sido esquecidos por Deus.

Chama-me a atenção o que Coutinho faz após o documentário ter ficado pronto. Lá nos extras, há 38 minutos de um “outro filme” igualmente precioso: A Volta. Eduardo Coutinho retorna ao Sítio Araçás para mostrar aos moradores o filme sobre eles mesmos. E aí acompanhamos uma sessão aberta de cinema com todos aqueles personagens assistindo a… si mesmos. Vemos a reação de todos ao se enxergarem na tela grande. Assistimos  aos que choraram durante a despedida de Coutinho ficarem felizes por verem o cineasta novamente. Sim, o diretor se tornou um membro familiar querido por todos ali. Achei a iniciativa do Mestre de uma singeleza única. E foi aí que me apaixonei por Eduardo pela primeira vez. Depois, procurei curiosa por seus outros filmes: e aí me apaixonei mais vezes.

O que torna Eduardo Coutinho especial eram atitudes como esta. Para ele, interessava pouco seu filme ficar pronto se ele não pudesse compartilhar a obra com o povo que deu vida à cada história. Ele sabia que, imersos pela pobreza e pela invisibilidade, aquelas pessoas não poderiam ir a um cinema, ou à locadora, ou a qualquer outro lugar para poderem conferir a si mesmos. Eles dependiam de Coutinho para isso. O documentarista tinha consciência de que aquela era a primeira oportunidade de muitos ali constatarem que não sairiam da vida como entraram: sem serem vistos. Com tal gesto de generosidade, ele devolveu a dignidade àqueles seres humanos minimizados pela própria sociedade.

E nós perdemos este homem em 2014.

eduardocoutinho
Não sei quem eu observo em seus filmes: se o cineasta ou o homem. Assistindo à Boca de Lixo (1995),Edifício Master (2002), Jogo de Cena (2007) etc etc etc, não sei se o homem emprestava sensibilidade à técnica do cineasta ou se o cineasta havia sigo tragado pela humanidade daquele ser que se considerava cético para a Fé, e incrivelmente fazedor de bondades mais do que qualquer outro defensor da tal fé. Ele possuía olhos de fotografar luz e calor. Registrou a ruga sofrida do outro sem fazer espetáculo. Registrou a alegria fazendo-nos ter orgulho de sermos portadores de uma cultura tão rica, que por vezes falhamos [até por arrogância] em procurar conhecer. Mas ele foi lá. Lá onde ninguém quer pisar. E tocou. Abraçou. Ele e sua equipe fizeram da câmera um espelho de entregas e descobertas. Causa tristeza saber que não haverá novas histórias que nos transportem a nós mesmos. Espantosamente, o pesar por sua morte vem acompanhado de um sentimento delicado, quase feliz: é coisa de gênio tornar-se imortal.

Rosebud e suas significações

Giovanna Betine

Cidadão Kane (1941), filme dirigido por Orson Welles, é repleto de ironias. Talvez a maior delas diga respeito ao significado da última palavra dita por Charles Foster Kane antes de morrer: rosebud. O termo rosebud foi usado por muitos poetas para fazer referência ao órgão genital relacionado ao prazer feminino: o clitóris. Para Kane, o prazer a essência e a alegria de sua vida também estavam relacionados a algo precioso, particular, escondido e que estava inacabado, como seu castelo Xanadu, que também ressalta o significado do prazer. Tanto que o jornalista só pronuncia essa palavra dentro de Xanadu.

É irônico como um filme sobre a vida de um jornalista -portanto condizente a um cotidiano profissional voltado para a esfera pública – não registrar de forma explícita que a maior busca de Kane esteve naquilo que ele jamais divulgou. E que mesmo o jornalista, não tendo poupado publicações sobre si mesmo, considerava mais importante o que estava no particular. Rosebud é esse lugar que ninguém poderi roubar de Kane. O jornalista ganancioso, sempre incompleto mesmo com suas conquistas, viveu uma vida à procura de ter de volta o prazer íntimo de sua infância, a sensação inexplicável de tornar a se importar com as coisas simples, como brincar na neve com seu trenó.

A última cena do filme mostra a imagem do trenó de Charles Foster Kane. Fica esclarecido o mistério de rosebud: trata-se da marca do brinquedo. Esta cena marca o ápice da ingenuidade de Kane, visto que era com o trenó que brincava na neve antes de ser levado dali e ganhar o mundo e perder a si mesmo. O trenó permanece perdido, enterrado, distante, as mesmas caraterísticas do jornalista.

O filme lança uma última ironia. Orson Welles faz com que somente o espectador veja rosebud escrito no trenó. Todos os jornalistas que investigam o significado da palavra, bem como seus amigos e sua ex-esposa, não tomam ciência desta descoberta. Uma crítica mordaz à imprensa, pois só quem possui distanciamento é capaz de enxergar as coisas como elas são.

(Este texto é parte do artigo Cidadão Kane: a soberba, a crise ética e a descoberta do frágil publicado no livro A fragilidade humana – inquietude e caos na ordem da existência)

Mãe e filho

Giovanna Betine

Mãe e Filho é um filme que conta a história de uma mulher doente e prestes a morrer. Seu filho, com toda a ternura e paciência cuida da mãe fazendo com que esta viva momentos intensos, afastados de qualquer solidão ou sofrimento. Trata-se de um relacionamento cúmplice e maduro entre os dois, afirmando, assim, que no passado esta mãe soube oferecer sabiamente o que ‘hoje’ recebe. A película conta com apenas estes dois personagens, pouca movimentação, poucos diálogos (porém inesquecíveis), muitas paisagens e infinitas reflexões.

Como a mãe já não consegue mais caminhar, seu filho a conduz no colo por toda a redondeza campestre da casa onde vivem. Ele a aconchega em seus braços e os dois revivem acontecimentos do passado, conversas sobre a vida e a morte. Entretanto, as cenas se congelam por um tempo demorado, exaltando a magia e a perfeição do silêncio.

maefilho

Quando retornam à casa, o filho coloca-a na cama e permanece ao seu lado. Ele a alimenta, os dois conversam mais um pouco e, a seguir, nota-se um acordo tácito e amoroso da despedida. Não há lágrimas durante todo o filme, mas elas são desnecessárias, já que o amor impera sob a tristeza. O filho se retira do lar e caminha sozinho pelos campos até chegar num bosque surreal onde permanece parado e pensativo. Um tempo depois ele retorna à casa e encontra sua mãe tal como a deixou, porém já sem vida. Ele a abraça, não chora e pronúncia que ela a espere, mesmo que demore, que ela a espere. O filme termina.

Nós, espectadores, sabemos que naquele lugar sem pessoas, agora vazio pela ausência da mãe, o filho está à mercê da solidão. Ele não tem amigos? Não possui o amor de uma mulher? Não tem uma profissão? Será que a natureza a sua volta continua tão bela? A natureza que era triste e bela acolhia-os como se estivesse ali só para eternizar os últimos momentos entre mãe e filho. Será que ela continua ali?

Esta obra-prima do russo Aleksandr Sokúrov é carregada de significado, sensibilidade e arte em seu mais alto nível. A lentidão com que o filme conduz suas cenas as torna ainda mais belas e profundas. Este ritmo da narrativa se encaixa à morte iminente da mãe e ao cansaço de esperar por seu fim, ao filho que renuncia a própria vida e o mundo exterior. Tudo isso, envolvido por paisagens tristes e belas, todas em tons de sépia. Sem qualquer exagero, cada cena poderia representar um quadro, tamanha a produção artística de Mãe e Filho (1997). Sabe-se que as paisagens foram inspiradas nos quadros do pintor Caspar David Friedrich, mas observar tudo isso em movimento, com um enredo monumental reafirmando o cenário e os sons que o vento produz no quadro fílmico, é de tirar o fôlego de quem aprecia.

 

 

Sobre uma foto

Giovanna Betine

Não é uma bela fotografia por se tratar de Diane Keaton e Al Pacino. Não fossem eles, o registro seria igualmente cheio de aura. Existe uma mulher que esboça um sorriso leve e um olhar penetrante. Existe um homem cuja descontração se mistura à sensualidade de repousar a mão entre as pernas feminina. Ele não se importa que a gravata esteja torta e a camisa enrugada; não é ali personagem milimetricamente planejado. Ela se mantém dama e segura no semblante de quem se sabe desejada.

Passei o dia nostálgica para fotografias de estranhos-conhecidos, embora tecnicamente entenda muito pouco ou quase nada sobre elas. Mas aprecio. Sou sensível ao imóvel e eternizado e admiro quem sabe selecionar o ângulo, este fragmento de realidade. Al e Diane mexeram comigo pois se desgarraram da tela e da posição mitológica que ocupam e registraram o sentimento que é comum a todos. Entretanto, a fotografia – esta ou qualquer outra – cercou-os de ainda mais mitos. Se o frankfurtiano Theodor Adorno estiver certo, e eu creio que esteja, “o mito converte-se em esclarecimento” e aí, então, ficamos todos esclarecidos de algo muito simples: ali havia amor.

Que este amor não dure ou não tenha durado, a fotografia está aí para revivê-lo em sua essência. É sempre presente a experiência de, ao olhar um retrato, tornar a experimentar a sensação do momento. Talvez a preocupação de que o cabelo saia arrumado, a postura elegante, o corte do vestido valorizado. Ou então, o sorriso despretensioso que não deixa transparecer a apreensão que se espalha por dentro. Existe um homem e uma mulher que ao menos na fotografia irão se manter apaixonados e impunes ao tempo. Para sempre. E é provável que isto seja a grande graciosidade: aqui a ilusão não machuca. O clique capta o instante e é ele que faz história e traz alento mesmo quando a lembrança da vida real é maculada por ressentimentos. Al e Diane representam no preto e branco o que é vivido por todos. Nesta foto, eles são um pouco do que somos e ansiamos. Ele, com os lábios abertos, pode tragar o mundo revestido da segurança de macho-galã. Ela pode conquistar qualquer território na figura de quem se vale da delicadeza das pérolas e da sofisticação clássica do vestido de pois.

Ela foi Annie Hall. Ele foi Tony Montana. Assumiram mil papéis que lhes conferiram vida, movimento, personalidade. Mas o estático da fotografia permite imaginar inúmeras histórias que viveram a dois, assim como o pensamento que nutriam na hora da pose e o desfecho comum a qualquer desfecho: a vontade de guardar a trajetória numa caixa, o ímpeto de rasgar o que trouxe lamento, a cruel impossibilidade de anular o que quer que seja e a função maravilhosa que possui qualquer forma de expressão: traduzir o que é universal. Na fotografia é possível que o “felizes para sempre” não soe utópico. Se soar, ainda assim será “dor que desatina sem doer” ou, simplesmente, Amor.

Mobilidade urbana em São Paulo

Giovanna Betine

Na canção Sampa, composta por Caetano Veloso, o músico descreve em versos o que não é difícil concluir sobre São Paulo: “porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”. Já em 1922, ano marcado pela Semana de Arte Moderna, o escritor modernista Mário de Andrade publicava o livro Pauliceia Desvairada. Este título, uma referência à loucura paulistana, trazia em suas páginas as mudanças pelas quais passava a capital: a paisagem se tornava cada vez mais urbana e menos rural marcando um período de explosão demográfica e a chegada de imigrantes vindos de outros países.

O avesso cantado por Caetano aliado aos desvarios paulistanos definem com uma única palavra a frenética velocidade de São Paulo: caos. Caos que se reflete na organização da cidade e das pessoas que nela transitam. Surge, então, a discussão sobre a mobilidade urbana neste grande centro. Entretanto, antes de tal debate é preciso refletir sobre algo anterior e, por isso mesmo, ainda mais complexo: a mobilidade humana.

O polonês Zygmunt Bauman, na obra Comunidade, aborda, entre outras coisas, a relação do homem com os espaços que este ocupa. Importa ressaltar que quando uma cidade cresce, a segurança é um dos itens que primeiro são discutidos. Dessa forma, a principal estratégia de proteção, aponta Bauman, são os muros. “Exatamente essa fissura nos muros de proteção da comunidade se torna trivial com o aparecimento dos meios mecânicos de transporte; portadores de informação alternativa já podem em princípio viajar tão rápido, ou mais, que as mensagens orais originárias do círculo da mobilidade humana ‘natural’. A distância, outrora a mais formidável das defesas da comunidade, perdeu muito de sua significação”.

A partir deste trecho, percebe-se o quanto as mobilidades humana e urbana estão atreladas. A distância perde sua significação a partir do momento em que os meios mecânicos de transporte surgem em quantidade e velocidade. No caso específico de São Paulo, a mobilidade urbana se tornou assunto de primeira ordem em 2013 – ano em que os protestos populares vieram à tona nos espaços públicos da cidade tendo como motivação o preço da passagem de ônibus. Neste mesmo ano, em artigo ao jornal Folha de S. Paulo, o economista e professor da USP, André Franco Montoro Filho, apontou que o tempo perdido no congestionamento paulistano é de aproximadamente 12,5% da jornada de oito horas de trabalho. Em valores monetários, tal porcentagem equivale a R$ 62,5 bilhões por ano.

O custo dessa lentidão não possui apenas agravante financeiro. A qualidade de vida, principalmente, fica ameaçada. Assim, seguindo a linha de raciocínio do planejador urbano Jeff Risom, do escritório dinamarquês Gehl Architects, “a boa cidade, do ponto de vista da mobilidade, é a que possui mais opções”. Segundo estatísticas atuais do IBGE, São Paulo conta com o valor estimado de 11.967.825 habitantes, daí a necessidade de oferecer aos moradores e passantes da cidade opções de transportes em quantidade e rigorosa qualidade. Entre as discussões e medidas mais recentes, ressaltam-se a construção das ciclovias e o fechamento da Avenida Paulista aos domingos. Ambas iniciativas sofreram críticas mas também ganharam apoio dos indivíduos que creem em alternativas que priorizam o meio ambiente e estimulam a saúde física e mental dos habitantes.

Um estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) apontou a diminuição de mortes no trânsito da metrópole. Em 2014, foram 637 óbitos comparados a 519 neste ano. Verifica-se queda também entre passageiros e motoristas (de 115 para 85), pedestres (de 274 para 230), motociclistas (de 220 para 189) e ciclistas (de 28 para 15). Analisando tais dados, entende-se por que o The Wall Street Journal, em setembro deste ano, publicou que se Fernando Haddad fosse o chefe de São Francisco, Berlim ou outra metrópole, ele seria visto como um “visionário urbano”.

As reflexões que Zygmunt Bauman faz sobre a comunidade reafirmam a importância de compartilhar espaços públicos como meios de mobilidade urbana que, por sua vez, contribuem para a qualidade humana. Em outras palavras, ao diminuir ou aposentar o uso do carro, o morador e o flaneur (definição francesa para “uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la”, dada por Baudelaire) de São Paulo passam a interagir com outras pessoas e aproveitar a cidade. Nesse sentido, a função da cidade não é somente ser portadora de vias que levam rapidamente a outro lugar, mas um local de experiências, como ocorre com o fechamento da Paulista aos domingos, avenida que atravessa o centro financeiro de São Paulo.

Os congestionamentos, ainda que signifiquem aglomerados de pessoas, reforçam o isolamento dos vidros fechados e do estresse das buzinas. Mesmo com a lotação em horários de pico, transportes coletivos como ônibus e metrôs contribuem com o meio ambiente reiterando a democracia dos espaços: nestes locais vê-se o homem engravatado dividindo território com o trabalhador de roupa simples; a executiva de scarpin também está representada na correria da empregada doméstica que também “quer chegar”.

As ciclovias igualmente favorecem a vida em comunidade e recuperam a atitude do flaneur, aquele que experimenta. O ato de abrir mão do conforto em prol do descanso mental proporcionado pela atividade física possibilita a integração mesmo dos que estão sempre com pressa. Afinal de contas, a pauliceia precisa – em nome da poesia de concreto que é – continuar sendo desvairada.

Cidadão Kane e sua estrutura jornalística

Giovanna Betine

A narração da vida de Kane é contada por meio de recursos jornalísticos, com destaque para o narrador-onisciente, que se vale de imagens que ilustram sua voz em off. Ele faz um breve resumo de toda a trajetória de Kane, comparando o palácio rico e incompleto de Xanadu com a vida do magnata.

Em aproximadamente nove minutos, o narrador traça um percurso biográfico do jornalista. Nesse tempo,  aparecem trechos de notícias retiradas dos jornais, manchetes e dizeres de amigos e rivais e do próprio Kane , a fim de introduzir o espectador no desenvolvimento do filme. tal apresentação documentária funciona como um lead de uma matéria. com o telespectador ciente do ponto de partida e chegada do filme, a narração avança para o miolo propriamente dito.

20160502_150859

A partir da perspectiva de um grupo de jornalistas, uma outra história se mistura à de Charles Foster Kane: trata-se do trabalho de apuração jornalística  do repórter Thompson, seu esforço em reunir entrevistados e lidar com as diferentes versões recolhidas sobre um mesmo assunto a fim de desvendar a última palavra dita pelo magnata da imprensa.

Assim como numa matéria impressa ou televisiva, tem-se um Cidadão Kane a presença de outros personagens. não personagem no sentido de atores, mas personagens no sentido de pessoas que dão embasamento no intuito de que uma notícia tenha coerência, conteúdo e credibilidade. O filme poderia ser mostrado apenas por seus fatos, pela voz em off do narrador ou pela filmagem exclusiva de Charles Foster Kane. Mas é assim que Welles trabalha, o diretor recorre ao uso e técnicas jornalísticas para contar a vida de um jornalista.

(Este texto é parte do artigo Cidadão Kane: a soberba, a crise ética e a descoberta do frágil publicado no livro A fragilidade humana – inquietude e caos na ordem da existência)