Categoria: Fabio Almeida Silva

Mídia, Complexidade e Poder na visão do U2

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Fabio Almeida Silva

Depois do sucesso com as turnês do final dos anos 80, os irlandeses do U2 sentiram que precisavam de um descanso. A temática das músicas e o engajamento em causas políticas e sociais haviam desgastado a imagem e conferido à banda o status de chata, séria demais para um público que queria apenas sair de casa e se divertir. Definitivamente, era preciso se reinventar.

Então, no final de 1990 o grupo partiu para a Alemanha, onde se reuniria no Hansa Studios para buscar inspiração. Bono e cia. chegaram às vésperas da reunificação da Alemanha, no último voo a pousar em Berlim Oriental. E aquele ambiente tenso pré-queda do muro, com um clima de mal-estar causado pela incerteza política, influiu tanto na concepção dos discos vindouros – Achtung Baby (91) e Zooropa (93) – quanto da turnê Zoo TV.

Crítica e ácida, mas ao mesmo tempo divertida e bem-humorada, a Zoo TV Tour veio em boa hora. De certa forma, era como se a banda apresentasse o mundo a uma sociedade antes isolada. Os shows eram abertos ao som de Zoo Station, que leva o nome de uma estação de trem central em Berlim, fazendo uma metáfora sobre a reunificação da Alemanha. A música saúda a chegada de uma nova era, como uma festa de boas-vindas ao admirável mundo novo no qual eles estavam embarcando. De uma sociedade de parcimônia e hábitos contidos, pautada pelos ideais do socialismo, os berlinenses orientais agora se deparavam com o capitalismo em estado puro, onde o consumismo é a regra e os excessos nunca saem de moda.

O palco também foi pensado para ilustrar as novas relações de poder e consumo que os aguardavam: o Trabant, automóvel símbolo da era soviética, havia se tornado obsoleto, e agora era ressignificado, reapropriado e multicolorido pela cultura pop, sendo utilizado como torre de iluminação para um cenário caótico.

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Por todos os lados, telões de vários tamanhos transmitiam imagens aleatórias de maneira frenética, com mensagens como “Tudo o que você sabe está errado”, “Compre mais” e “Assista mais TV”. Ao mesmo tempo, a música Zooropa, primeira faixa do álbum homônimo, traz uma crítica ao consumismo e ao mundo da propaganda. Composta a partir de uma “colagem” de mensagens publicitárias, ela começa com o lema da Audi (Vorsprung durch Technik, algo como “Um passo à frente através da tecnologia”), passando por slogans de sabão em pó, loterias e outros produtos.

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Ainda no tema mídia, Numb é cantada em tom monótono pelo guitarrista The Edge. A canção expõe o sentimento de torpor e conformismo social causados pelo excesso de informações ao qual somos expostos diariamente.

Para introduzir cada um dos temas abordados, Bono criou diversos personagens. Um deles era o Mirrorball Man, um pregador evangélico maníaco, midiático e narcisista. Mais interessado em fama e glória do que na salvação, vestia-se com roupas brilhantes e trazia um discurso inflamado, onde dizia: “Eu tenho uma visão! Tele-visão!” Além dele, havia também o rockstar The Fly, uma espécie de Elvis às avessas trajando calça e jaqueta de couro preto em vez do tradicional macacão brmacphistoanco.

Já o Mr. Macphisto é uma mistura entre Mefistófeles (o diabo para o qual Fausto vendeu sua alma) e McDonald’s (o Mac no nome e as cores amarelo e vermelho) , sugerindo que ele é apenas mais um produto. Com chifres vermelhos, maquiagem carregada e um andar afetado, ele mantém um sorriso cínico o tempo todo, como se soubesse para onde a humanidade está caminhando – e se delicia com isso.

Resumindo, mais do que um simples show, a Zoo TV Tour era um espetáculo multimídia com direito a transmissão ao vivo de imagens da guerra da Bósnia e trotes à Casa Branca. Feita para entreter e divertir, conseguia ser leve, ao mesmo tempo que criticava os excessos da mídia e do consumismo.

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A escrita e a imortalidade

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Fabio Almeida Silva

Imagine o homem primitivo. No que a semiótica definiria como um constante estado de primeiridade, ainda sem plena consciência de si, ele começa a observar o mundo à sua volta e percebe pela primeira vez o tempo passando. O mistério da vida com a chegada de sua prole, o mistério da morte em um companheiro que jaz inerte… coisas que existiam e não existem mais, coisas que agora são e antes não eram.

De repente, ele se depara com a iminência de seu próprio fim, e instintivamente, começa a rabiscar as paredes. Sem um código alfabético ou qualquer significação em comum, ele apenas desenha o seu dia-a-dia como quem escrevesse “Eu estive aqui”. E ao registrar o que viveu e experimentou, sem querer, alcança a imortalidade.

Não é à toa que a mitologia egípcia atribui a Toth a invenção da escrita. O guardião do livro dos mortos apresenta os hieróglifos como um presente à humanidade, uma forma de guardar fisicamente o que antes era passado apenas através da oralidade. Ao registrar as nossas memórias, podemos ver quem fomos e o que fizemos. E toda vez que escrevemos, algo de nós passa a existir perenemente, ainda que esta seja uma “eternidade momentânea”.

Seja por um texto postado online ou com a pichação em um muro, esses signos sinalizam a existência de alguém. E talvez, mesmo que inconscientemente, este seja o nosso objetivo: ser reconhecidos e imortalizados. Não um reconhecimento com fama e prestígio, como o dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (uma brincadeira de Olavo Bilac, que dizia que os escritores são imortais por não terem onde cair mortos), mas simples, como o do homem primitivo do começo da história, de apenas deixar registrado: eu estive aqui!

A complementaridade dos opostos em Penny Dreadful

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Photo Credit: © 2013 Jim Fiscus/Showtime.

Fabio Almeida Silva

Penny Dreadful foi uma série exibida no Brasil pela HBO e disponibilizada na Netflix, cuja terceira e (infelizmente) derradeira temporada foi exibida em junho de 2016. A série é ambientada em Londres na reta final da Era Vitoriana, e traz entre seus protagonistas personagens populares da literatura e do folclore, como Dorian Gray, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Frankenstein, Drácula e Van Helsing, entre outros.

Em sua primeira temporada, o enredo traz um grupo que se reúne para resgatar a filha desaparecida de um nobre explorador britânico. Mas apesar do objetivo principal, cada personagem parece estar atrás de sua própria redenção. E conforme eles são apresentados, fica evidente que neste universo nada é tão simples que possa se enquadrar na clássica construção arquetípica “Bem x Mal”, ou do herói altruísta versus vilão egoísta.

Demolindo a velha fórmula, temos “gente do bem” que perde qualquer escrúpulo para alcançar os seus objetivos. E entre a “gente do mal”, um demônio cujo objetivo de sua existência é conquistar a sua amada. E aos poucos, começamos a nos questionar quanto à natureza dos personagens: o doutor Frankenstein, que pesquisa formas de compreender “o fino tecido que separa a vida e a morte”, o estaria fazendo em prol da humanidade ou apenas em busca de fama e reconhecimento? E a sua criatura, seria um abominável monstro assassino ou somente um ser injustiçado se defendendo em uma sociedade cruel com os desvalidos?

No final das contas, a conclusão é a de que não existem bem e mal absolutos, mas uma “dança” constante entre eles dentro de nós. Como luz e escuridão, ambos são complementares e indissociáveis, e ajudam a moldar quem somos. E em Penny Dreadful, fica ainda mais difícil distinguir essas diferenças.

Em mares desconhecidos

sailingFabio Almeida Silva

Em um dos primeiros textos que li nesta matéria, mais precisamente “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, de Edgar Morin, o autor fala sobre a necessidade de se enfrentar as incertezas. Ele nos estimula a seguir adiante em busca de conhecimento, e sobre como mesmo buscando tudo o que nos for possível compreender, o futuro permanece imprevisível.

Desde então, uma metáfora descrita naquele texto tem ressoado constantemente nos meus pensamentos: a de que a busca pelo conhecimento é como navegar em oceanos de incertezas por entre arquipélagos de certezas.

Pessoalmente, aquela foi uma das aulas mais libertadoras que já tive, pois foi como uma carta branca: uma permissão para errar. Depois de anos doutrinado “pelo sistema” com a pressão de buscar sempre a nota mais alta, almejando mais o resultado final do que realmente aprendendo durante o caminho,  se aventurar pelo universo acadêmico com este fardo a menos é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma responsabilidade.

Livrar-se destes dogmas não é uma coisa fácil, como pude constatar durante a apresentação dos seminários. Gaguejei, engasguei com as palavras, me senti uma fraude expondo um trabalho no qual não me considerava suficientemente preparado para explicar, mas no final… deu tudo certo! E então veio o alívio.

Talvez alguns de vocês também tenham se sentido assim. Depois da tormenta, a sensação de que ela não foi tão forte quanto pensávamos que seria. Aprendi muito, não apenas com o nosso “capitão” Dimas, mas também com os outros tripulantes ao lado. E talvez este seja o grande Phármakon: enfrentar águas cada vez mais revoltas, que botem o nosso casco à prova. E com certeza, nos cruzaremos por aí em outros mares!

Substituindo Deus(es)

deusFabio Almeida Silva

Em Admirável Mundo Novo temos um universo onde os laços familiares e emotivos e a religião foram substituídos pela lógica da ciência e tecnologia. A figura de um Deus todo-poderoso onipresente, onisciente e onipotente dá lugar ao endeusamento do industrial que instituiu uma visão revolucionária aos métodos de produção.

Neste sentido, é impossível não relacionar este ser ao homem moderno descrito por Marc Augé: “O Homem do Século das Luzes é o indivíduo dono de si mesmo, de quem a Razão corta os laços supersticiosos com os deuses, com a terra, com a família; é o indivíduo que afronta o porvir e se nega a interpretar o futuro em termos de magia e de bruxaria.”

Sem remorsos quanto ao que é certo ou errado. Sem aconselhamentos de seres superiores por meio de livros sagrados ou consultas a oráculos. No entanto, este novo homem, confiante nas vitórias da ciência, também encontra um revés: não possui nenhuma referência histórica ou raiz que o ligue à ancestralidade. Em um momento de dúvida, não há a quem recorrer senão ao soma.

No livro, em certo trecho é citado que ele não “sabe o porque, mas em assuntos psicológicos Nosso Ford prefere ser chamado de Nosso Freud”. Jogada de mestre de Huxley, que mantém a coerência do pensamento científico, já que é de Freud a frase “Deus está morto”, ao mesmo tempo que evidencia a ignorância de quem não tem a menor referência de quem foi o pai da psicanálise.

Em um capítulo, John, O Selvagem, e Mustaphá Mond, Administrador Mundial, Da casta Alpha-Mais-Mais, tem uma discussão sobre o divino.

John pergunta:

– Mas se os senhores não ignoram Deus, porque não falam sobre ele? Porque não permitem a leitura desses livros sobre Deus?

– Pela mesma razão que não apresentamos Otelo: eles são antigos. Tratam de Deus tal qual era há centenas de anos, não de Deus como é agora.

– Mas Deus não muda.

– Acontece que os homens mudam.

Mais à frente, ainda no mesmo assunto, John elenca diversos motivos pelos quais acredita na necessidade da religião, entre eles, a diminuição do consumismo:

– E o desprendimento então? Se tivessem um Deus, teriam um motivo para o desprendimento.

– Mas a civilização industrial somente é possível quando não há desprendimento. É necessário o gozo até os limites impostos pela higiene e pelas leis econômicas. Sem isso, as rodas cessariam de girar.

No final das contas, fica claro que quem dita as regras não é um Deus-Ciência. Não há pensamento no bem comum, no progresso para o bem da humanidade. O grande regulador da sociedade em Admirável Mundo Novo é um velho conhecido nosso, o Deus-Consumo.

Admirável Tecnologia Nova

Fabio Almeida Silva

A ovelha Dolly, primeiro clone bem sucedido de um mamífero, foi apresentada ao mundo em 1996. Admirável Mundo Novo, que se passa em uma sociedade baseada na clonagem humana, foi lançado em 1932. Entre o cenário apresentado no livro e a mera constatação científica de sua real possibilidade, passaram-se 64 anos. Isso por si só bastaria para explicar o fascínio que o livro de Aldous Huxley exerce sobre o público até hoje, mas este é apenas mais um dos detalhes do rico universo apresentado no livro.

Entre partidas de golfe-obstáculo, drogas sintéticas e hipnopedia, muitas invenções que hoje são realidade e tantas outras que talvez nunca saiam do papel nos são apresentadas pela mente criativa de Huxley em sua obra-prima. Comparando algumas das tecnologias descritas no livro com invenções similares disponíveis hoje, temos:

Soma

Embora não exista uma droga sintética totalmente sem efeitos colaterais como o Soma, há uma gama de drogas que causam sensação de euforia, como o Ecstasy e o LSD, do qual o próprio Aldous Huxley era entusiasta. Outras, prescritas como no livro para eliminar sentimentos indesejáveis, atuam como antidepressivos, como o Valium.

Contraceptivos

Embora existam registros de técnicas contraceptivas desde o Egito antigo, preservativos de tripa de carneiro e outras invenções mais ou menos confiáveis, anticoncepcionais administrados por via oral como os que Lenina Crowne tomava só se popularizaram em meados da década de 50.

Hipnopedia

A hipnopedia, uma técnica de aprendizado durante o sono, caiu em descrédito, mas isso não impediu que fossem lançados produtos utilizando o método. No final dos anos 90, o Grupo Teleshop – aquele das facas Ginsu, meias Vivarina e os óculos Ambervision – chegou a vender um curso de línguas do tipo em fitas cassete. Uma breve busca na internet revela que ainda há diversas opções.

Transporte aéreo

No livro, dois tipos de transporte aéreo são descritos: um helicóptero e um foguete para voos intercontinentais. Embora já existisse naquela época, o helicóptero era rudimentar, inseguro e não era utilizado regularmente como meio de transporte. Mesmo assim, o equipamento descrito ainda está em um estágio mais avançado do que o atual. Não existem aparelhos para pilotagem por leigos, em larga escala e substituindo o automóvel.

Já para os “foguetes”, o mais parecido que tivemos em escala comercial foi o avião supersônico Concorde, aposentado em 2003 e capaz de alcançar a velocidade de km/h 2.200. Considerando o material e a tecnologia disponível para a época, talvez ninguém acreditasse que o autor acertaria tão em cheio em tantas áreas diferentes.

A distopia de um mundo novo

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Admirável Mundo Novo (Brave New World), foi escrito por Aldous Huxley, um jornalista provindo a aristocracia, em 1932. Na época, a obra, que trabalha temas como coletivismo e força de trabalho alienada se mostraram como uma crítica ao desenvolvimento acelerado dos campos da tecnologia e ciência e analisa um panorama negativo sobre o amanhã das relações trabalhistas, uma vez que a narrativa retrata uma sociedade controlada em todas as esferas possíveis, envolvendo a biológica – todos os humanos são gerados artificialmente -, psicológica (os trabalhadores são incentivados a consumir drogas que alteram o humor, denominado soma) e social, uma vez que os cidadãos são definidos por castas.

Dentre as críticas presentes, também é possível analisar uma consideração negativa ao sistema de produção fordista, criticando que tal formato ultrapassou as barreiras comerciais e industriais a ponto de ser implantado na reprodução da espécie humana. Além disso, todos os indivíduos gerados são condicionados a ponto de se sentirem obrigatoriamente felizes dentro de sua determinada hierarquia social.

Esse paradigma é quebrado quando a obra nos apresenta, de forma contrastante, a uma das últimas sociedades naturais presentes no universo retratado, onde o espaço físico e os indivíduos são tratados como animais em extinção em um cativeiro, ou ainda, em um zoológico. É assim que o personagem Selvagem é introduzido. Ele não passa de um animal de circo para aquela sociedade altamente tecnológica. Muito do desenvolvimento da narrativa se deve ao choque de culturas entre Selvagem e aquele mundo artificial.

Bernard, por outro lado, é uma cria artificial. Contudo, circunstâncias especiais em sua concepção o tornou diferente. Ele se mostra como uma espécie de contraparte para o Selvagem. Bernard é independente do pensamento coletivo presente naquela sociedade e não concorda com as práticas uniformizadas presentes nela, ao contrário de Selvagem, que por livre e espontânea vontade quer ser introduzido nela.

A obra de Aldous Huxley é uma distopia. Dessa forma, ao contrário de uma Utopia, considerado “um mundo para se almejar”, distopia nos soa como uma placa de aviso. Não é uma previsão imutável. É uma realidade em potencial que deveríamos lutar para evitar.