Categoria: Anderson Luiz de Melo

Lugares e Não-lugares

No texto Sobremodernidade, Marc Augé propõem chamar os espaços em que “se pode ler a identidade, a relação e a história” de lugares, e os não-lugares seriam “os espaços onde esta leitura não se faz possível”.

Os não-lugares seriam destinados apenas a circulação, consumo e comunicação, ambientes onde não se estabelecem relações sociais duradouras, a interação e o convívio perduram o tempo de conclusão de uma compra ou de um embarque aéreo.

Um mesmo espaço pode ser lugar e não-lugar, dependendo do prisma de interação escolhido para análise; recorrendo ao exemplo do autor, o que transforma um aeroporto em um lugar é o convívio diário entre os funcionários, mas se considerarmos apenas o trânsito dos passageiros, aquele lugar torna-se um não-lugar.

E quanto aos rolezinhos? Os encontros organizados pelas redes sociais, que reúnem milhares de adolescentes em shoppings (espaços de consumo); seria possível afirmar que eles alteram o status desses espaços, transformando os corredores dos shoppings em lugares? Tendo em vista a interação social que está no cerne do evento.

charge do Pelicano

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#Renamore

No primeiro capítulo de Sem logo, a jornalista canadense Naomi Klein evoca os primórdios do conceito de marca no século XIX, quando a prática do marketing trabalhava o caráter de novidade dos produtos.

Nas palavras de Naomi Klein, “a publicidade devia informar os consumidores da existência de algumas novas invenções, depois convencê-los de que sua vida seria melhor se usassem, por exemplo, carros em vez de bondes, telefone em lugar de cartas e luz elétrica em vez de lampiões a óleo”.

A prática publicitária evoluiu acompanhando a indústria e seus produtos, constituindo-se em um fazer complexo, responsável não mais pela simples venda de produtos, mas pela produção de identidades de marca.

A lógica publicitária da produção de identidades de marcas atingiu tal complexidade, que para se agregar valor a uma marca a Des-venda de um produto pode ser utilizada, essa é a lógica da campanha de dia dos namorados da Vivo; em tempos de uso abusivo do celular, uma das maiores empresas de telecomunicações do Brasil propõe que as pessoas deixem os celulares de lado para viverem as relações humanas (o amor).

Os dias eram assim

A série Os dias eram assim, nova produção da Rede Globo para o horário das 23h, é uma história de amor nos sombrios dias vividos pelo Brasil após 64.

Os dias eram assim é um exemplo para se discutir a complexidade da mídia. A mesma Rede Globo que está produzindo a série e “denunciando” os horrores de um triste período da nossa história, apoiou o regime militar. Hoje o horário das 23 horas é destinado a uma produção que tece duras (e justas) críticas ao governo dos militares.

Os dias eram assim tem um potencial didático, desmonta a fábula construída entorno da ditadura, algo necessário nos dias atuais, quando essa fábula parece estar se popularizando, então é ponto pra Globo? Seria, ou é?

No entanto, estamos falando da Rede Globo que fortaleceu esses discursos fundamentalista através de coberturas jornalísticas tendenciosas sobre a Lava-jato; a Rede Globo que ignorou os comícios pelas Diretas Já, e refez o voto de silêncio na véspera da Greve Geral de 2017, e os dias? Ainda são assim.

 

FEminejo

A aparição de jovens cantoras sertanejas nos últimos anos, atraiu a atenção de parte da militância feminista, possibilitando a alcunha do termo Feminejo.

Essa associação do sertanejo com o feminismo, já seria possível se considerássemos apenas o contexto histórico em que o movimento esteve inserido (desde sempre); pela primeira vez temos uma quantidade significativa de mulheres entre os artistas de maior expressão da música sertaneja; podemos citar as duplas Maira e Maraísa, Simone e Simaria, Day e Lara, além das solos Naiara Azevedo, Paula Matos e Marília Mendonça.

No entanto, essa associação entre o sertanejo e o Feminismo não se limita a quantidade de interpretes mulheres, algumas das músicas se caracterizam por romper com os tradicionais arquétipos femininos, recorrentes na música brasileira e mundial; a liberdade sexual, o controle do próprio corpo e a igualdade de direitos se estabeleceram como temática recorrente, de um movimento artístico historicamente caracterizado por uma retórica machista.

 

 

 

 

Funk Queer

Entre os arranjos metafóricos das obras distópicas, a questão do controle dos corpos é uma das que (com maior evidência) possuem seu par na realidade, reassumir o sentido de propriedade de nossa presença corpórea é um ato político, de potencial utópico.

Entre os corpos mais vitimados por esses regimes, está o corpo homossexual, existe uma quantidade considerável de instituições, valores e dogmas, compondo uma estrutura de vigilância entorno dos homossexuais.

O Funk Queer é pautado pelo empoderamento de corpos através do sexo, rompe com as amarras sociais que cerceiam, delimitam ou penalizam a prática sexual; um exemplo é a música Todo dia, de Pablo Vitar.

Na construção desses discursos de empoderamento, palavras são fundamentais, e passam por processos de ressignificação, para romper com a lógica do controle, e também com os padrões heteronormativos, impostos aos homossexuais, ouça “Enviadescer” da MC Linn da Quebrada.

#QuemÉVocêNaRua?

Um dos aspectos da sociedade atual que corrobora com o potencial metafórico de 1984, é o controle dos corpos. Diferente da distopia de Orwell, os corpos do mundo real não são controlados apenas pelo Estado, estão todos inseridos em uma complexa estrutura, da qual os ideais capitalistas, também na forma de narrativa publicitária, fazem parte.

A publicidade mobiliza fatores culturais, bens simbólicos, posicionamentos ideológicos e experiências sensoriais e/ou mesmo eróticas, para promover sua lógica por meio do “imaterial”.

No entanto, ao incorporar outros aspectos em sua narrativa, a publicidade pode configurar-se em espaço para o exercício e promoção do pensamento crítico. Um exemplo dessa “propaganda engajada” é o vídeo promocional da linha de maquiagem Natura Faces.

Faces é pra ela, é pra ele é pra todo mundo, um slogan que rompe as barreiras de gênero; e ganha a forma de narrativa em um comercial marcado pela diversidade de corpos, plurais em suas cores e formas, que assumem/exercem suas individualidades no espaço público, desafiando o regime de controle da sociedade.

 

Metrópolis

Uma narrativa distópica sobre um futuro próximo, quando toda a população está dividida em duas classes, a dominante e a operária; essa descrição nos remete à Oceania de Orwell, mas estamos falando de Metrópolis, a cidade fictícia do filme homônimo alemão de 1927.

Dirigido por Fritz Lang, considerado o maior cineasta alemão, Metrópolis é o mais influente e visionário filme mudo de todos os tempos. Mesmo se tratando de uma produção em preto e branco, é uma incrível e apaixonante experiência visual, nos ganha pelos arranjos cenográficos, inspirados na cidade de Nova York, acredite, as cores não fazem falta.

Um filme de dualidades, uma metáfora sobre a exploração da força de trabalho, repleta de simbolismos, são incontáveis pentagramas espalhados pelas cenas, os princípios marxistas estão em harmonia cênica com explicitas referências à mitologia/liturgia cristã.

É impossível não falar de Maria, umas das personagens com maior potencial simbólico. Maria é a personificação do contra poder, e faz com que Metrópolis ocupe lugar de destaque entre as obras distópicas, pois coloca o feminino como figura central da mobilização social, sem romper com o status de sacralidade.

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