Categoria: Ana Clara Fulanetti Squilanti

Tá com dor de cabeça? Chama a Neosa

Morei em Araraquara durante a faculdade, então toda vez que decidia visitar meus pais, tinha que pegar um ônibus para Campinas, e depois de lá pegar um circular para Indaiatuba.

A rodoviária de Campinas marcou muito minha vida. Em 2010 ela foi reformada e ficou enorme. Toda moderna, cheia de lojas e etc. Tinha até escada rolante.

Em um desses finais de semana que viajava para Indaiatuba,enquanto me movimentava pelas plataformas, me deparei com uma propaganda enorme:

neosa

Fiquei chocada. Talvez porque estivesse cursando Farmácia e Bioquímica, mas mesmo assim. Era a primeira vez que via a doença ser tratada tão casualmente, e ao mesmo tempo tão comercialmente. Vivemos em uma sociedade tão medicalizada, que necessitamos de remédio para tudo, a qualquer hora.

Não estou falando para nos mantermos com dor, longe disso. Mas será que toda dor de cabeça precisa de remédio? Será que não custa esperar um pouquinho e ver se passa?

Além disso, a Neosa pode mascarar muita coisa, afinal ela trata sua dor de cabeça, sua febre e etc. Às vezes não era só uma dor de cabeça, mas algo muito mais sério.

Mas não dá tempo.  Melhor remediar. Sempre.

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Vida e morte, e morte em vida

Estamos morrendo todos os dias, me disse um professor.

A morte talvez seja a única coisa certeira na vida. Não há nada mais inevitável do que ela. Hoje temos recursos para adiá-la, contorna-la, torna-la mais confortável, mas é fato que todos morreremos um dia. Então, porque grande parte de nós não lida bem com ela? Medo do que acontece depois, do sofrimento? Apego aos que partem, solidão?

Antigamente, enterrar os corpos dos seres amados tornava a terra sagrada. Devolver à terra os corpos dos ancentrais, fazia também que eles mesmos se tornassem sagrados, pois se acreditava que o homem era nascido dela. Nessa época pagã, era costume construir as casas ao lado dos túmulos; era habitual entender a vida e a morte como intimamente ligadas.

Foi o cristianismo que introduziu a noção de sacralidade da vida; foi então que se passou a concebê-la como um dom de Deus a ser preservado. Pondo-se no lugar da Filosofia, a Religião aparece agora como aquilo que traz reconforto e consolo.

Quando alguém parte, o medo do que há do outro lado assombra os que ficam. Para onde foi meu pai, irei vê-lo um dia? Será que descansa, está num lugar bom?  E lembra também, que um dia morreremos.

Será que surge um questionamento moral quanto à vida que vivemos? Não é comum vermos pessoas dizerem fazer o bem para depois ir para o Céu. O medo de poder ir para o Inferno acaba por motivar as pessoas a serem boas. Bizarro. Fazer o bem pelo medo de ser punido por não tê-lo feito mais tarde. Acho que a motivação está um pouco errada.

“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos” – Picasso

Não manda nude

A americana Whitney Bell criou uma exposição um tanto quanto irreverente ao primeiro olhar. “I Didn’t Ask For This: A Lifetime of Dick Pics” contém 200 fotos de pintos que ninguém solicitou. Sabe aquele “Manda nude”? Então, essa exposição trata de todos os nudes que foram enviados sem prévia requisição ou autorização.

Em entrevista, a fotógrafa explica que o objetivo da mostra não é expor os homens que enviaram suas partes íntimas, mas sim mostrar à que são expostas às mulheres.

whitney-bellCom a tecnologia, o assédio hoje em dia pode ocorrer em qualquer lugar. Qualquer um pode te mandar um nude não-requisitado, seja via Whatsapp, e-mail, ou Messenger do Facebook. Basta ter o contato de alguém.  Talvez o assédio até seja maior hoje em dia, afinal as pessoas podem se esconder atrás da tela do computador ou celular. Não precisa mais abordar alguém no cara-a-cara.

O fiu-fiu se extendeu da calçada para o celular. É triste, mas nem dentro de casa mais estamos seguras.

http://www.vice.com/pt_br/read/fotos-de-pinto-exposicao

Catraca Livre em queda livre

Após o enorme deslize na semana passada, para não usar um outro termo pior, o Catraca Livre vem perdendo milhares de seguidores.

Como já escrito aqui no Blog, no dia da tragédia com a delegação do Chapecoense, a página do facebook do Catraca Livre quis pegar onda na notícia e se deu mal. Vários posts de muito mal gosto referenciando o ocorrido foram feitos pela manhã, com revolta dos usuários.

A empresa inicialmente não recuou e defendeu que o que estava feito era jornalismo, e somente no período da noite se retratou. Ao divulgar uma nota se desculpando e assumindo a culpa, o jornalista Gilberto Dimensteise complicou mais ainda, usando um tom arrogante e autoindulgente escrevendo, entre outros, o seguinte absurdo:  “Ganhei todos os prêmios possíveis como escritor e jornalista”.

Os seguidores não perdoaram. Iniciou-se um boicote à pagina, que envolvia desde estímula à pessoas descurtirem a página, até manifestação na porta da Edição.

Até o momento, a página já perdeu cerca de 1 milhão de seguidores.

É, Catraca. A audiência de vocês está caindo em queda livre. Melhor usar um pára-quedas melhor na próxima tentativa de se redimir.

catraca

 

O direito de protestar e os direitos humanos

No último domingo, dia 20, Dia da Consciência Negra, houveram duas manifestações na Av Paulista: uma que marchava pelo direito dos negros, e outra a favor da Operação Lava Jato.

Manifestações estas, que, ao meu ver, são benéficas à sociedade como um todos. Afinal, deveria interessar a todos nós a segurança dos direitos humanos para qualquer pessoa, e o fim da corrupção, não?

Não.

A nossa sociedade brasileira anda tão dual que estes temas viraram dicômitos, a ponto da polícia ter criado um cordão de isolamento para separar as manifestações a fim de evitar conflitos.  O triste é saber que a polícia estava certa.

Uma mulher negra que marchava em pról de seus direitos foi atacada verbalmente por um manifestante do outro ato. “Sou machista sim, sua vagabunda”, dizia ele em alto e bom sol, em plena luz do dia.

Triste. Triste para a democracia. Triste para todos nós. Para nossos direitos. Enquanto continuarmos a nos enxergar, nos classificar e, como consequência, nos separar por causa do ódio, demoraremos muito para ver que só juntos conseguiremos algo.

http://www.msn.com/pt-br/video/assistir/manifestante-do-mbl-ataca-mulher-na-marcha-da-consci%C3%AAncia-negra-veja/vp-AAkz9oZ

 

http://gazetaweb.globo.com/portal/noticia.php?c=22541

Na montanha dos sete abutres de 2016

Há pouco mais de uma semana, em Indaiatuba, interior de São Paulo, minha cidade natal, um jovem cometeu suicídio. Se jogou de uma das muitas altas caixas d´água da cidade.

Aconteceu no fim da tarde, sob os últimos raios de sol. Não foi de súbito. Se demorou no alto da torre, o que acabou por dar tempo para o público chegar. Ávidos por desgraça, chamaram os bombeiros, como bons cristãos, mas empunharam o celular para gravar o que se sucederia ali.

A queda do homem foi filmada por mais de um abutre. Recebi pelo menos três vídeos no Whatsapp, de diferentes ângulos. Piadas se formaram sobre o ocorrido. Julgamentos sobre a índole da pessoa também. Se fosse coisa boa não estaria ali, li de um conhecido. O caso ficou mais viral na minha rede do que o da Fabíola e a manicure.

Vídeos íntimos vazados me horrorizam, mas até que entendo a bizarra curiosidade humana. Mas um suicídio? Que curiosidade mais mórbida. A queda de uma vida de sua própria montanha. Que horrível espetáculo a ser assistido.

Atrasados ou genuinamente politicados?

Mais do que atrasados, o Brasil parece estar “empurrando com a barriga”.

Enquanto por aqui se discursa em poucas ocasiões sobre democratizarmos nossa mídia, em muitos países leis específicas já foram criadas, teoricamente com o único intuito de privilegiar a forma como a informação é levada à população.

Em países considerados mais desenvolvidos encontramos a Alemanha com um limite estabelecido por lei de 30% de mídias para uma mesma companhia. E temos nos EUA a proibição de propriedade cruzada – por exemplo, uma mesma empresa não pode ser dona de 01 canal de TV e 01 jornal na mesma cidade.

Contudo na vizinha Argentina, a questão ficou um pouco mais polêmica sobre sua integridade em apenas fazer o bem ao povo. Criada no governo de Cristina Kirchner uma lei regulamentando o oligopólio dos detentores de canais de comunicação é ainda muito discutida. A “Ley de médios” surgiu principalmente com o intuito de restringir a porcentagem de mercado que uma mesma empresa poderia administrar, e fazê-la repartir com outros tipos de comunicadores não tão massivos. Ocorre que por lá muitos acusaram a criação da lei como fonte de um interesse político – ou pior, como um interesse de censura –, já que com a aprovação da lei o poder midiático do Grupo Clarin que detém a maior parte das mídias perderia, por exemplo, 20 concessões de TV, e esse grupo é o mais desarmônico ao governo.

A questão é, como podemos nos espelhar nos países que querem avançar em pró da população se hoje, com essa forte bipolaridade partidária, dificilmente qualquer mudança que o governo adotasse não seria subjugada por questões políticas. Ou será que o fato de não termos em pauta nenhuma regulamentação séria até hoje já não seja uma prova da politicagem inserida no nosso país? Regulamentar as mídias deveria ser um tema eminente em um país que já sofreu tanto, acontece que com o momento atual talvez apenas seja plausível uma decisão conjunta entre governo, oposição, mídias e população, caso contrário ou nada sai do papel ou tudo será sempre vetado por alguma vertente.