Categoria: ADMIRÁVEL/2SEM15

Shakespeare em Admirável Mundo Novo

Eduarda Costa

Foi de um verso de “A Tempestade”, de William Shakespeare, que Aldous Huxley retirou o título da obra Admirável Mundo Novo, publicada 1932. Além do nome, as muitas referências a Shakespeare na obra são evidentes.

O  pesquisador Ronaldo M. Marinky afirma que a obra shakesperiana serviu “quase como uma moldura para o romance de Huxley”. No total, Marinsky encontrou 55 referências a 14 peças de Shakespeare na obra. A maioria das menções são feitas pelo personagem John Savage.

Na obra de Huxley, as relações sexuais são desprovidas de valor sentimental e as pessoas são concebidas em laboratório, de modo geneticamente planejado, longe do conceito de família e moldadas para exercer funções em sociedade. John, fruto do descuido de uma relação carnal entre Thomas, importante diretor de Incubação e Condicionamento (D.I.C), e sua amante Linda, é um selvagem.

John cresce em conflito com culturas distintas. Com a mãe, aprende conceitos do mundo civilizado, bem como hábitos primitivos como caçar e plantar, junto aos selvagens. Apesar do analfabetismo que preponderava na reserva, aprende a ler e ter contato com a obra shakespeariana. É por meio dessa leitura que John tem contato com maneiras de expressar suas emoções e liberta-se da anestesia emocional apresentada na sociedade descrita por Huxley.

Enéais Farias Tavares, no artigo Discurso utópico e distópico nas paisagens e narrativas de Admirável Mundo Novo, de Aldoux Huxley, afirma que por ter contato com os sentimentos por meio da literatura, John é “o pretenso revolucionário, que tentará levar a esse mundo intelectualmente vazio algo das percepções e ilusões que aprendeu com a leitura de Shakespeare e de outros autores”.

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Huxley e as drogas

Eduarda Costa

Em “As portas da percepção”, de 1954, Adouls Huxley descreve suas experiências pessoais com a mescalina, alcalóide extraído de um cacto mexicano, sob supervisão médica. “Céu e inferno”, de 1956, faz uma análise crítica do uso de drogas. Ele constata que, se as alucinações produzidas pela droga podem alcançar uma atmosfera mística, também podem conduzir o paciente às margens da auto-aniquilação.

“As portas da percepção” traz também uma crítica à religião contemporânea, analisando as religiões como um obstáculo que mais afasta o religioso do sagrado do que une as pessoas em torno da experiência transcedental.

Em entrevistas posteriores à publicação dos livros, Huxley dizia compreender o uso de drogas como estimulantes de uma experiência significativa, não afirmando, contudo, a necessidade de utilização de drogas para auxiliar no processo criativo em qualquer campo.

Huxley morreu sob os efeitos de uma poção, da qual foi um dos descobridores, a que chamou de medicina moksha, e com que os jovens do seu tempo fizeram uma revolução. No caso, LSD e psilocibina, os responsáveis pela revolução psicodélica dos anos 60 e 70 por movimentos em princípio a ela completamente alheios como a Primavera de Praga e a Revolução de Veludo tchecoslovaca, de algum modo inspiradas na ‘visão cósmica’ a que as drogas psicodélicas dão acesso.

Você sabe conviver com o tédio?

Eduarda Costa

Em Admirável Mundo Novo, o entretenimento exerce a função de manter as pessoas sempre ocupadas para afastar quaisquer crises relacionadas a sentimentos, questionamentos ou insatisfações.

Além do SOMA, que é droga fornecida pelo Estado para proporcionar a sensação de felicidade em todos, o sexo é desumanizado e tratado como uma forma de diversão estimulada até entre as crianças, que têm a sexualidade aflorada. Além disso, o consumo desenfreado e a busca pela beleza são incentivados como meio de entreter os indivíduos.

Isso poderia soar estranho se não se assemelhasse tanto às sociedades atuais, nas quais o tédio se tornou um temor constante. Os smartphones se tornaram a fonte mais acessível de entretenimento entre as pessoas e a falta deles já é sentida pela maioria como um vazio quase insuportável.

É alarmante que a sociedade distópica apresentada por Huxley assemelhe-se tanto sob esse aspecto à sociedade atual. Traz sossego, todavia, o fato de o antídoto da Cultura, também proposto em Admirável Mundo Novo, ainda seja acessível e permita o exercício necessário do convívio com as nossas próprias ideais.

Os desapegados que me desculpem, mas companhia é fundamental

Eduarda Costa

Confesso que às vezes me sinto uma estranha em meio à minha própria geração. Vejo pessoas pregando o desapego, a autossuficiência e o culto aos encantos da solidão e me pergunto, intrigada, onde eu estava matando aula quando ensinaram para essa gente toda que estar só é algo assim tão bom.

Concordo que aprender a apreciar a própria companhia é um passo essencial rumo à maturidade e ao amor próprio. Concordo que o silêncio se faz necessário vez ou outra em nossas vidas. Concordo que saber conviver harmoniosamente com o vazio é sinal de sabedoria e que estar consigo de vez em quando pode significar um alívio em tempos de superexposição e excesso virtual de companhia.

Ainda assim, confesso: eu preciso das pessoas. Preciso do cheiro delas. Preciso das vozes. Dos toques. Das risadas. Das sabedorias. Eu me alimento de companhias e é nas relações que cultivo dia após dia que encontro energia para abastecer a vida com pequenas alegrias. Eu não me basto. Eu precisei das pessoas até para aprender a ser mais feliz quando estou sozinha.

Se a solidão fosse um estado assim tão confortável, desconfio que a comunicação nem existiria. Para que pombo-correio? Cartão-postal? Telefone? E-mail? Facebook? Twitter? Skype? Facetime? Grupos no Whastapp? É… Nós definitivamente somos uma geração de desapegados sedentos de companhia.

Como consumimos cultura?

Eduarda Costa

Em “Admirável Mundo Novo”, desde o nascimento, cada ser humano é educado em Centros de Condicionamento do Estado. Em função dos valores específicos do seu grupo e por meio do recurso da hipnopédia, criam-se neles os “reflexos condicionados definitivos” que o fazem aceitar seu destino.

É evidente que o consumo de cultura é fator determinante na formação ideológica de cada indivíduo e é justamente por isso que Huxley atenta a essa questão na divisão das castas em Admirável Mundo Novo. A formação ideológica de cada indivíduo se dá, além da hipnopédia, pela cultura à qual tem acesso.

É interessante observar como o consumo de cultura realmente influencia e diferencia os indivíduos ainda hoje, o que se nota, por exemplo, ao observar que determinado tipo de música só é consumido por certa classe social de uma população.

Em 2015, isso foi escancarado no Brasil logo após a morte do cantor Cristiano Araújo, em junho. Na ocasião da morte, muitos brasileiros se manifestaram dizendo que nunca tinham ouvido falar sobre o cantor, que popular entre as classes de menor poder aquisitivo, tinha alguns milhões de fãs.

Isso demonstra o quão alarmante é o fato de o acesso e consumo de cultura no país escancararem todas as outras desigualdades que ainda precisamos superar.

Que horas ela volta? e a Cultura do Admirável Mundo Novo

Eduarda Costa

que horas.jpgEm “Admirável Mundo Novo”, desde o nascimento, cada ser humano é educado em Centros de Condicionamento do Estado. Em função dos valores específicos do seu grupo e por meio do recurso da hipnopédia, criam-se neles os “reflexos condicionados definitivos” que o fazem aceitar seu destino.

Durante toda a leitura do livro, curiosa com os recursos de condicionamento utilizados em Admirável Mundo Novo, comecei a atentar aos meios de condicionamento que são utilizados na nossa sociedade, promovendo o conformismo de determinadas parcelas da população.

Quando assisti ao filme “Que horas ela volta?”, notei que a obra pretende criticar esse conformismo ao qual algumas classes são condicionadas. Em diversos trechos do filme, Jéssica, a filha de Val, a questiona sobre as regras de conduta às quais ela obedece, o que fica claro deste o trailer:

No filme, percebemos que o condicionamento existe e persiste. É quase uma hipnopédia.

É tudo culpa delas

Eduarda Costa

Na porta da escola, a mãe desentrelaçou seus dedos dos do filho, entregou-o de mau grado a um funcionário, disse tchau na velocidade de um soluço e virou o corpo num meio giro rápido o suficiente para que ninguém pudesse ver as lágrimas que envergonhavam seu rosto molhado.

Já assisti a essa cena algumas vezes na vida. Assisti pelo ângulo da filha, inclusive. E confesso que sempre fico igualmente intrigada com todos os sentimentos que perturbam o coração de uma mãe.

A mãe já sai culpada da maternidade. Sai culpada por não poder dar o primeiro banho no filho. Por não conseguir amamentar de primeira. Por não ter leite suficiente. Por ter que deixar seu bebezinho na incubadora.

Ela convive com a culpa dia após dia. Se o marido não participa da criação dos filhos, a culpa é da mãe que o acostumou mal. Se os filhos não obedecem, a culpa é da mãe que não soube criar. Se passam muito tempo na escola, a culpa é da mãe que não tem tempo para eles.

Ninguém perdoa os erros de uma mãe. É como se elas tivessem sido previamente treinadas para exercer essa estranha função de cuidar de uma vida iniciante. A jornada não admite erros. A culpa é sempre delas.

Se os filhos crescem e viram babacas, não tenha dúvidas, a culpa é da mãe. Se apitam mal o jogo, se traem a namorada ou dirigem desgovernadamente e te fecham numa esquina congestionada, certamente a culpa é da mãe, aquela puta. Aquela égua. Rapariga. É tudo culpa dela.

É culpa da mãe que não teve pulso firme. Que acostumou mal. Que é frouxa.

Que gritou com os filhos. Que os trancou em casa. Que não deu liberdade.

Deve ser a função mais difícil do mundo. Um caminho sem volta. Uma culpa eterna a carregar. O filho é para o mundo, mas ai dela se não souber cuidar.

Elas dizem que vale a pena; que é recompensador ter um filho para amar. Mas eu sei que não é bem assim. Sei que o ideal mesmo seria viver numa sociedade que parasse de as culpar.