Categoria: ADMIRÁVEL/2SEM14

Jair Bolsonaro e a liberdade de expressão

Na última eleição, o Brasil elegeu o Congresso mais conservador desde 1964. Diversos setores identificados com o conservadorarismo estarão bem representados por religiosos fundamentalistas, ruralistas e ex-militares.

Essa semana, o deputado Jair Bolsonaro deu um gostinho do que podemos esperar a partir do ano que vem. Ele subiu ao púlpito da tribuna da Câmara para dizer as seguintes palavras para uma colega da casa:

“Não saia não, Maria do Rosário, fica aí. Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, ‘tu’ me chamou de estuprador no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui para ouvir!

Vejamos o tal episódio ocorrido no Salão Verde:

Como se vê, a deputada em nenhum momento chamou Bolsonaro de “estuprador”. E, mesmo que o tivesse dito, isso justificaria um representante da nação subir à tribuna para tratar o crime de estupro como um prêmio do qual nem todas mulheres são merecedoras?

A frase do deputado do Partido – vejam só! – Progressista carrega em seu bojo o mais puro creme do machismo, cuja ideologia é responsável pela morte e estupro de milhares de mulheres todo ano no país.

O intrigante é ver que muitos profissionais de comunicação saíram em defesa do direito de Jair Bolsonaro expressar sua opinião. Ora, a garantia da liberdade de expressão dentro de um regime democrático deve estar cercada pelas balizas da própria democracia. Tratar um crime como uma questão de merecimento, e ainda se apresentar como um criminoso em potencial, fere todos os preceitos básicos da democracia. É mais do que quebra de decoro, é mais do que “polêmica”, é crime.

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Rolezinhos, consumismo e preconceito

“Somos mais desejados pelos produtos do que nós mesmos os desejamos” – Edgar Morin

Há algo de religioso no mundo do consumo. Lojas são erguidas como templos, marcas são veneradas como tótens, consumidores se apresentam como fiéis. Os produtos, em si, são o de menos. A áurea divina que ronda as marcas evangelizam os consumidores. O Iphone, por exemplo, não é mais importante que o estado de espírito que a marca Apple pode proporcionar aos seus seguidores.

Onipresente, onividente e onipotente, o Deus mercado oferece tudo o que o consumidor precisa. Nesse contexto, em que apenas os que podem consumir são bem vindos, o consumo é um valor que confere dignidade ao sujeito.

Com a ascensão social da chamada nova classe C, um novo grupo fiéis foi convidado pra rezar a oração do consumismo. Os jovens desse novo grupo forjaram na periferia uma nova vertente do funk carioca, o Funk Ostentação, cujas letras estão inseridas dentro dos preceitos mais sagrados do consumismo: a veneração das marcas e a exaltação do consumismo. Mas parece que os fiéis mais tradicionais torceram o nariz, como mostra essa reportagem:

Capturar

Esses jovens da classe C, recém-chegados ao mundo do consumo, passaram a organizar encontros nos tradicionais templos: os shoppings – antes restritos às classes A e B. Um verdadeiro terror para um nicho de consumo que oferecia não somente produtos, mas principalmente exclusividade.

Nas redes sociais, fiéis mais conservadores pregavam: “Fazer rolezinho em biblioteca eles não querem, né?”

Ou seja, quando novos consumidores se apresentam pra integrar a missa, quem sempre pôde participar lembra que há valores mais importantes que os ditados pelo Deus Mercado.

Uma questão bastante curiosa. Até porque num mundo em que o consumo representa dignidade, fazer rolezinho em biblioteca deveria ser pecado.

A espiral do silêncio e as eleições na classe média paulistana

Chegando na garagem do meu prédio, quatro ou cinco carros enfileirados ostentam adesivos do candidato que eu não votar. É a reta final do segundo turno, os ânimos estão exaltados e a minha candidata é desprezada por essas bandas.

Adentro o elevador, onde dois vizinhos de andares distintos me recebem com seus sorrisos plásticos. Retribuo com uma simpatia igualmente plástica, como de costume.

Já me preparando pra evitar a fadiga eleitoral, decido tomar as rédeas e pautar a conversa pelo mais tradicional assunto de elevador: o tempo.

E aí? Chove ou não chove?

O vizinho não cai na minha:

Não vai chover, não. E a falta de água não é culpa da chuva. É culpa desses políticos.

Concordei balançando a cabeça, enquanto a vizinha emendava:

Pior que estou achando que a Dilma vai se reeleger, viu? – disse olhando pra mim

Na certeza de que todos os bem nascidos ali presentes votam no mesmo candidato, o outro vizinho inciou sua ladainha olhando pra mim.

Ah, pelo amor de Deus! Essa bandida não vai ganhar, não. Porque só gente sem instrução vota nela, não é?

Respondi com um silêncio emoldurado por outro sorriso plástico. Como é que eles poderiam ter tanta certeza de que todos ali pensam igual, a ponto de desprezar os eleitores da candidata adversária?  Eu não estava diante de PHDs, mas fiquei constrangido em revelar meu voto diante de tanto desprezo. Não haveria tempo pra eu me explicar, a dor de cabeça seria considerável. O elevador chegou ao meu destino e tive a sensação de ter sido salvo pelo gongo.

Me arrumei correndo e parti para uma consulta médica.

Eu sabia o que me aguardava. Era sexta-feira, a eleição seria no domingo. Claro que o assunto que eu temia viria à tona. A consulta se encaminhava para o final, quando o doutor, do alto da sua escolaridade, jogou na minha cara:

Então é domingo que a gente vai tirar essa corja do poder?

Mesmo conhecendo o senso comum que ronda o meio social em que vivo, ainda me surpreendo com a convicção. Ela é tão grande, que meus interlocutores não sentem o mínimo pudor com a possibilidade de eu ser um apoiador da candidatura oposta. É uma certeza religiosa, construída com a ajuda de uma mídia igualmente despudorada.

Pensei em tentar fugir da espiral do silêncio que avançava sobre mim, mas essa frase, quase covarde, foi o máximo que consegui:

É, complicado….mas o outro candidato também não é flor que se cheire.

No que o doutor, esse sim PHD, cravou sem medo de ser feliz:

É, mas o PT é uma organização criminosa, uma quadrilha, né?

Silenciei novamente. Derrotado, constrangido e envergonhado por silenciar, saí do consultório e voltei pra casa.

Lá estavam os carros aecistas e outros vizinhos esperando o elevador. Acenei de longe, democraticamente, e subi 17 andares de escada. O custo de inciar um embate político com detentores de verdades absolutas é altíssimo. E eu não costumo discutir religião com testemunhas de Jeová.

A espiral do silêncio venceu. O consolo é que, ao final, a minha candidata também.

Muniz Sodré lança novo livro

Muniz Sodré

Por Ariádiny Rinaldi

Muniz Sodré, um dos mais importantes teóricos brasileiros da Comunicação, acaba de lançar seu novo livro: “A Ciência do Comum”. No texto de introdução à obra, “O espírito do tempo eletrônico”, Sodré se mostra preocupado em relação à amplitude semântica que engloba o termo comunicação e seus conceitos técnicos: comunicar, informar, mídia, signos, etc..

“A menos que se pretenda insistir no desenvolvimento de uma ciência sem nome, cremos ser necessário fazer uma pausa reflexiva sobre a palavra comunicação enquanto síntese nominal de uma variedade de práticas contemporâneas que se estendem desde as trocas intersubjetivas de palavras até a transmissão tecnologicamente avançada de sinais e mensagens. Materializada em indústrias, esta síntese vem se desdobrando em termos técnicos com enormes conseqüências sociais e acadêmicas, sem que o seu nome próprio realmente configure uma unidade[…]”.

No âmbito epistemológico, essa capacidade que certos termos têm de serem capazes de produzir significados, dependendo do discurso, é encarada como fonte de ambiguidade e de problemas para os que aspiram ao esclarecimento. “[…] não se sabe exatamente – isto é, em termos de sistematização cognitiva – do que se está falando quando se diz ‘informação’. Pode-se mesmo escrever um trabalho de grande fôlego sobre a “era da informação” sem a devida categorização conceitual. Em outras palavras, não se está aqui afirmando que o campo de pesquisas da comunicação seja invertebrado, e sim que é fraca a sua vertebração conceitual.”

Para alguns não importa realmente saber o que é comunicação/informação, desde que se conheça os usos sociotécnicos que disso se fazem na vida contemporânea. Mas, para Sodré, a pergunta sobre o que significa comunicação é essencial. Para explicar as consequências dessa falta de síntese, o autor cita a metáfora das “placas”:

“[…]a comunicação seria o conjunto das placas tectônicas sob a superfície do comum. Elas, como suas congêneres geológicacienciacomum_vozes1-246x364s, são essenciais, mas não eternas em constituição ou em alinhamento. Podem deslocar-se por efeito daquilo que, no pensamento marxiano, aparece como Wechselwirkung, ou seja, a ação reflexa, de retorno da superestrutura sobre o que supostamente a determina ou o que, na teoria sistêmica, se descreve como retroação”.  Sodré está apontando para a movimentação profunda crosta, da organização simbólica. A partir dela, decorrem transformações de grande monta nos sistemas educacionais, na produção social de subjetividades e na constituição da esfera pública. “Mas para nós [comunicadores], sobretudo, uma transformação geográfica no sentido de que essas “placas”, por efeito da compressão temporal do espaço, formam um novo “continente”, o oitavo, feito de bytes, virtual, acima ou abaixo de todos os outros.”

Em “A Ciência do Comum”, Muniz Sodré chama a atenção para a importância de se fazer, no meio acadêmico, um resgate filosófico, ético e político da potência reflexiva do campo comunicacional, do qual se faz ausente um consenso intelectual quanto a grandes ideias capazes de reorientar o pensamento social.

Estou farto de semideuses!

Por Ariádiny Rinaldi

Ao discursar sobre o ódio no Brasil, o historiador Leandro Karnal vai além e fala sobre imposição da felicidade nos dias atuais. “Melancolia virou coisa de Lars Von Trie. Não temos mais direito ao mau-humor e infelicidade não passa em testes de empregos”, diz, em tom jocoso. Expressamos uma resistência profunda ao que é negativo. Somos obrigados ao sucesso e, prova disso, está nas atualizações das redes sociais. Lugar onde milhares contam vitórias e gritam o quanto a vida é divertida e maravilhosa. Os que não vivem no mar de rosa, se sentem excluídos e a essa pressão, alerta o professor, é causa de patologias: tomamos remédio para acordar, para dormir, para ter relações sexuais e para dormir.

Como Fernando Pessoa, no Poema em Linha Reta, reivindico o direito à infelicidade: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”.

Poema em linha reta
(Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Admirável mundo novo: encerramento de um ciclo

Mais um ano se vai e também mais um semestre, juntamente com o fechamento de outra disciplina.

Nesse post, gostaria de agradecer ao professor Dimas que fez dessa matéria um verdadeiro mar de aprendizados e de sabedoria em relação a nossa eterna mídia.

Às vezes é até engraçado como as coisas passam de uma forma tão veloz diante de nossos olhos que conseguimos enxergá-las apenas futuramente, quando paramos para pensar naquelas datas em que ocorreram tais acontecimentos.

Em suma desse semestre, sinopses como das obras de “Admirável Mundo Novo” (que inclusive fez parte do meu seminário) e “1984” conseguiram me marcar e me fazer pensar gradativamente nessa questão de um mundo futuro, com todos esses pontos trabalhados em cima do “Grande irmão” e de “um mundo onde o sentimentalismo não teria lugar”.

E a minha opinião e visão de mundo continuam exatamente as mesmas: efetivamente com toda essa ambição de ser, de poder e de querer (aspecto que todos tem ao menos um pouco, atualmente), desejo que figuras como sentimentos, esperanças e sonhos não desapareçam por completo de nós, seres-humanos. Podemos continuar obtendo uma repartição, mesmo que existam os valores considerados “ruins” e que os tais já estejam “tomando conta” do nosso eu-interior. E se assim acontecer, que existam dois mundos conforme a obra. Divisão justa.

Bom final de ano a todos!!

Aldous

E o que era estranho, já não é mais (inclusive é padrão)

Quem nunca ouviu tais expressões? “In” é tudo aquilo que considerado estar dentro da moda ou dos padrões sociais. “Out”, o oposto. Seriam as pessoas que estão completamente por fora do que ocorre nos mesmos.

Tudo que era considerado “impróprio” aos olhos da sociedade na questão de relacionamento amoroso, por exemplo, nos dias de hoje você pode ser julgado “impróprio” se não acostumar-se com novos paradigmas.

E puxando a linha no assunto relacionamento, recentemente, a advogada Patricia Marmo e o artista plástico Alexandro Jordão resolveram trocar todo o simbolismo da aliança dentro de um casamento por tatuagens de verdade ilustrando uma! Dentro disso, houve uma preparação de comer e dormir bem com o intuito de evitar que passassem mal ou sentissem dor na hora da comemoração. E foi em comum acordo: ambos adoraram as surpresas.

E lá se vai um tempo remoto em que tatuagem era um prenúncio de julgamento. Presentemente já tornou-se um hábito comum até para os mais velhos.

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