Categoria: ADMIRÁVEL/2SEM14

Justiça restringe publicidade de cervejas e vinhos

Ariádiny Rinaldi

Não se surpreenda se daqui a um tempo assistir uma propaganda de cerveja sem mulheres sensuais. Sim, é possível. Uma medida efetuada a pedido do Ministério Público Federal estendeu, aos anúncios de cervejas e vinhos, limitações previstas na Lei. 9.294/96, que valiam apenas para bebidas com mais de 13 graus.

Publicidades de bebidas em rádios e na televisão poderão ser exibidas apenas entre 21h e 6h, sendo que, até as 23h, apenas no intervalo de programas não recomendados para menores de 18 anos.  Segundo a decisão, também fica proibida a associação do produto ao esporte olímpico ou de competição, à condução de veículos e a imagens ou ideias de maior êxito sexual das pessoas. Os rótulos das bebidas também deverão conter a advertência “Evite o Consumo Excessivo de Álcool”.

A medida se aplica a todo território nacional e terá validade a partir de 180 dias depois da publicação do acórdão. Se derrubado os recursos (que com certeza virão), os publicitários terão de ser mais criativos.

 

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Ancine estipula limite de salas para grandes lançamentos

Ariádiny Rinaldi

Quando “Som ao Redor” estreou no cinema do país, em 2013, entrou em exibição em apenas 13 salas. Antes, o longa-metragem havia participado de 40 festivais internacionais e sete nacionais e angariado o prêmio de melhor filme pela Federação Internacional de Críticos e ganhado destaque na lista de dez melhores filmes do no do crítico do New York Times, A. O Scott.  Elogiado, o primeiro longa-metragem de Kleber Mendonça Filho foi visto por 10,9 mil espectadores no seu primeiro fim de semana em cartaz. O número foi considerado uma conquista, já que nenhum ator famoso participou do elenco. Em contrapartida, o blockbuster  “Jogos Vorazes: A esperança – Parte 1”, que estreou no País na sexta-feira passada (18), ocupou 1,3 mil salas de cinema. Quase 50% do parque exibidor nacional.

Com objetivo de garantir a diversidade de títulos, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e empresas exibidoras e distribuidoras de filmes assinaram um compromisso que limita a ocupação das salas de cinema por um mesmo filme a partir de janeiro de 2015. No ano que vem, um único título não poderá ocupar mais do que duas salas em complexos de até seis salas. Nos casos dos multiplex com mais de seis salas, o teto não poderá ultrapassar 35%, sendo o limite de 2,5 salas para complexos de sete e oito salas. O projeto regulatório tomará como base a medida adotada na França, na qual foi estabelecido que cada produção poderá ocupar apenas 30 % das salas de cada complexo.

Um detalhe que muito me incomodou na medida é com relação a penalidade para quem descumprir o limite estabelecido. O relatório final da câmara técnica não revela qual será a advertência, mas, a mais provável é a de obrigar o exibidor trocar cada dia ou cada tela excedida pelo mesmo número de dias ou telas para exibição de filmes brasileiros.  Transformar a exibição de títulos nacionais em punição, só contribui para conotar uma carga negativa sobre a produção local. A questão que fica é: mesmo ocupando quantidade democrática de salas de cinema, os filmes brasileiros conquistaram a predileção do público? Acredito que esse é um gosto, que deve ser cativado.

HANNAH ARENDT E O JULGAMENTO LÍQUIDO

Em 1962, Otto Adolf Eichmann,  alto oficial nazista, era julgado no tribunal de Israel por crimes contra a humanidade, dentre outras acusações. A audiência tomava uma proporção sensacionalista com precedentes de fúria, por parte do povo oprimido na épocaem sua maioria, os judeus

A imprensa do mundo todo ganhava cadeira cativa para acompanhar de perto a caminhada daquele velho marinheiro à “prancha”, ou à forca. Essa mesma imprensa definira um lado e deixou claro, mesmo sem as devidas apurações: o lado do júri de Israel, que, de forma cega e contundente, armou um espetáculo de vingança, de ódio-contra-ódio, composto de depoimentos descontextualizados das práticas atribuídas ao réu, que contava com segurança máxima e uma gaiola de vidro, para um homem foragido, enfraquecido e solitário. Não, ele não era nenhum inocente, tampouco um coitado.
Apesar de todo o “circo”, a sentença já havia sido dada. Os jornalistas ao redor do mundo já sabiam o tom das notícias que dariam aos seus leitores, a exceção de uma filósofa e pensadora alemã de origem judaica: Hannah Arendt. Uma professora universitária de reconhecimento indiscutível, autora, dentre tantos outros títulos, de uma das mais importantes obras político-filosóficas após o referido julgamento, “Eichmann em Jerusalém – relatos sobre a banalidade do mal”.

Esta mesma autora da polêmica expressão “banalidade do mal” passara por tempos difíceis, fugindo do nazismo devastador, após tornar-se apátrida. Ela, praticamente uma exilada nos EUA (que tomou como pátria e paixão), foi convidada pela revista New Yorker para assistir ao espetáculo e depois exprimir suas impressões do ponto de vista filosófico.

Como disse o parlamentar Jean Wyllys, recentemente em sua rede social, sobre um caso declarado de violência moral:

Com esta expressão, a filósofa se referia ao mal que não é enraizado (não é radical) nem praticado como atitude deliberadamente maligna. A banalização do mal é feita pelo ser humano comum que não se responsabiliza pelo que faz de ruim ou acha que o que faz de ruim não tem consequências para os outros; não reflete, não pensa.

Arendt se referiu a Eichmann como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”; como um imbecil que não pensava; que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência – e que, por tudo isso, banalizava o mal que praticava.

A banalidade do mal pode, portanto, ser feita por qualquer pessoa carente de pensamento crítico e, por isso, insensível à dor do outro e às consequências de seus atos.

Paralelamente ao que julga o “mal”, há o mundo jurídico, que, como sabemos, é proferido por leis não exatas, subjetivas e cheias de parcialidade, manipuladas pela defesa e/ou acusador. Somado ao fato de que a condenação do nazismo foi unânime em todas as esferas da sociedade, o mundo vivia uma ressaca pós-guerra. Um incômodo, uma sensação de tristeza coletiva, que clamava uma resposta contra o mal que assolou milhões de famílias no mundo todo. Então, não havia exatamente um julgamento sem precedentes, sem certeza, o que incitava o mundo a punir os culpados de forma catártica.

Adolf Eichmann foi levado a julgamento em Jerusalém, por seu papel burocrático na logística das deportações em massa de judeus para campos de extermínio. Simon Wiesenthal, judeu responsável pela prisão de mais de 1.100 criminosos, criador de um centro de documentação sobre as vítimas do Holocausto em 1947, encontrou e sequestrou (prática questionável do ponto de vista humano) Eichmann (sob o nome de Ricardo Klement) na Argentina, por intermédio do Mossad (serviço secreto israelense). O réu foi levado para ser condenado à morte em Israel no ano de 1962.

O sociólogo e filósofo polonês, Sigmund Bauman, recordou-nos a origem do pensamento em sua obra “Modernidade Líquida”, do ano 2000. Bauman nos trouxe de volta a oportunidade da reflexão e conclusão inconteste que há vida após um primeiro pensamento. A vida não é só um prelúdio. É composta também por versos, refrões, rimas, solos e epílogos que a tornam complexa, a ponto de não nos oferecer um desfecho sensitivo completo. É a desmistificação do pensamento sólido, sinônimo de estagnado, ou seja, a prova de uma vida líquida, movimentada e cheia de possibilidades, além da “zona de conforto”.

Condigno aos pensamentos de Arendt, as palavras imprimiam e exprimiam o conhecimento filosófico dela, que partiu para o seu objetivo, analisar, por intermédio da razão, o veredicto. Ainda que fosse contemporânea de Bauman, quebrou a solidez de um pensamento prático, porém tendencioso, e concluiu falhas no processo contra Eichmann, no ensaio que entregou à New Yorker. Questionou a atitude laboral do réu, sem o isentar parcialmente de culpa, concluindo que o sistema totalitário de Hitler era o verdadeiro culpado, eximindo, ainda que involuntariamente, mas não totalmente, seus mediadores.

É importante observar que o gosto pelo mal (tortura, exclusão e desrespeito ao cidadão comum) e seus desdobramentos transformados em prática, é visível em uma esfera atual e local, haja vista as polícias militares dos estados brasileiros ou estadunidenses. O Estado empresta este poder, por intermédio da arma de fogo, nas ruas. E nos escritórios, por decisões administrativas, sejam elas criminais ou cíveis. O papel de Eichmann, que seguia uma lei vigente de seu país, estava ligado, no mínimo, à instância militar, por isso tinha um papel muito próximo, dada a configuração do sistema da época. Sabia o que estava fazendo e tinha papel indireto na decisão final.

Nós, cidadãos brasileiros comuns, despidos de autoridade estatal ou financeira, comumente atacamos o militarismo urbano-cotidiano, para expressar nossa insatisfação para com as intervenções ríspidas a que somos submetidos. Porque é comum atribuir uma culpa direta a quem nos mostra o rosto. Ou a farda. E ainda que munidos dos mais diversos tipos de pensamentos que podem nos levar diretamente à raiz ou à cabeça do problema, disfarçada e blindada de liderança, outros elementos cotidianos fazem com que não acessemos a reflexão que pode nos aproximar do bom senso, um julgamento, talvez, não radical. Então, perguntemo-nos: Quem propõe o mal? Ou melhor, qual é a liderança que ensina e orienta a exclusão?

O princípio deste pensamento inconclusivo sobre o julgamento do membro do nazismo, a filósofa e ensaísta, a imprensa ou a “Modernidade Líquida”, é o filme de Margarethe von Trotta, “Hannah Arendt”, endossado pelos diálogos contidos que são aparentemente fiéis e envolventes sobre o tema. O filme traz o julgamento gravado na época, com vários depoimentos de familiares judeus, mais argumentos de defesa do próprio Eichmann (que se dizia um mero burocrata), preso em uma jaula de vidro com três seguranças e toda uma plateia em favor de sua condenação. Filme mais que recomendado. Vídeos legendados deste julgamento, não há, porém, é possível encontrar a versão original (em alemão) e um documentário parcial sobre o assunto, abaixo, respectivamente:

Julgamento: Adolf Eichmann, o burocrata. Assassino?

Documentário parcial, seguido de comentários efusivos

Mas, enquanto isso, no Brasil, em 2014…

Recentemente, caiu em nossas mãos o relatório final da comissão nacional da verdade, que investigou e apontou os líderes ditadores que, assim como o nazismo, exterminou milhares de pessoas no Brasil, além de deixar sequelas profundas em vítimas e famílias.

O interessante, como era de se esperar em pleno 2014, após 52 anos do julgamento do objeto de estudo de Hannah, é o pronunciamento da presidente Dilma Roussef sobre o próximo passo “jurídico-criminal” a ser dado com relação aos que cometeram crimes contra a humanidade:

Folha de São Paulo, Poder. Quinta-feira, 11 de dezembro de 2014, dia seguinte à publicação do relatório

O Estado de S. Paulo, Política. Sábado, 13 de dezembro de 2014. Eufemismos, anistias e estadismo

Não creio que a linha de pensamento líquido tenha alcançado o seu ápice. Longe disso, justamente porque admite infinitas possibilidades. Creio que a qualidade e o amadurecimento da reflexão é recheada pelo tempo, consequentemente pela experiência, que é a linha de pensamento científico. Ações, ou pelo menos discursos como este – realizados por intermédio de uma liderança soberana que carrega ainda sequelas emocionais pelo objeto contido no relatório – são pílulas no cotidiano humano, que lapida a sentença, rumo á brandura social. É o que queremos. Por uma vida mais justa e longe do caos reflexivo.

Edgar Morin e fragmentação dos saberes

Edgar Morin propõe uma nova forma de pensar a condição humana. Devemos compreender o ser humano em toda sua complexidade. O excesso de fragmentação do conhecimento dificulta a compreensão do ser humano em todas as suas dimensões.

Para Morin, o fato dos economistas não terem sido capazes de prever a crise econômica de 2008, nem que rumo ela iria tomar, é um sintoma claro de que essa forma compartimentalizada de pensar não está dando conta da complexidade do mundo.

Segue vídeo que registra uma de suas passagens pelo Brasil, em que Morin fala sobre a necessidade de se religar os saberes:

Mídia, redes sociais e democratização

A era digital transformou a esfera pública. Se antes ela era mediada exclusivamente pela mídia corporativa, hoje a internet possibilita a entrada de novos atores para discutir as questões públicas. Isso não significa que as gigantes brasileiras da comunicação perderam seu poder dentro dos debates de interesse público.

Apesar da lógica descentralizada e horizontal da internet, as grandes empresas de continuam sendo as principais produtoras de notícias e com papel importante no controle do fluxo de informações. É o que mostra essa reportagem da Folha, do caderno Poder:

O jornalismo profissional predominou entre os links compartilhados por usuários de redes sociais nas eleições de outubro. É o que mostra levantamento feito pela Folha a partir de postagens com links no Facebook e no Twitter durante dez dias ao final do pleito brasileiro, quando as redes sociais registraram recordes de interações entre seus participantes. Na amostra coletada pelo jornal, 61% dos compartilhamentos de links por usuários vieram de conteúdo publicado na mídia profissional –em jornais, portais, TVs, rádios, sites de notícias locais ou imprensa internacional. Nos dois dias após a eleição, este índice sobe para mais de 70% dos links compartilhados. “A gente pode dizer tranquilamente que, se não tem mídia, não tem mídia social”, afirma Luli Radfahrer, pesquisador da USP e colunista da Folha.

Apesar da internet ter possibilitado uma esfera pública interconectada, promovendo uma cultura do “express yourself 2.0” independente de grandes investidores, ainda somos pautados pelas mesmas empresas de sempre. Claro que, nas redes sociais, os assuntos são apropriados pelos leitores e ganham outros significados, ampliando e enriquecendo o debate público.

Mas para termos uma mídia verdadeiramente democratizada no país, não bastará a revolução digital. Urge uma regulação econômica no setor, para eliminar monopólios e retirar privilégios históricos de uma minoria de empresários poderosos. A comunicação é uma área fundamental e estratégica para o desenvolvimento de uma nação, não pode continuar sendo controlada por meia dúzia de famílias.

Bolanõs e os mexicanos

Vi que muitos colegas escreveram sobre a morte de Bolaños, o Chaves, então resolvi dar minhas caneladas no assunto. Vi que muitos viram na espetacularização do cerimonial um problema sério de invasão de privacidade, no que eu discordo. Bolaños era uma figura pública que atingiu milhões de pessoas no mundo todo, um sujeito cujos personagens estabeleceram uma relação afetiva com os fãs fora do normal. Não tinha como ser diferente. Ainda mais no México.

Assisti a um bom pedaço da cerimônia de despedida e, tirando a cobertura desastrosa do SBT, achei tudo muito bonito. O excesso de gente e de cores, as estátuas exageradas, o drama transbordando por todos os lados, enfim, essa cafonice mexicana me agrada muito.

Uma característica que admiro no mexicano é justamente essa: a de não ter vergonha de si próprio. Não vejo no povo mexicano, por exemplo, a tal síndrome de vira-latas que nos acomete. Diferente deles, o brasileiro tende a se submeter aos olhares mais sofisticados do mundo e, muitas vezes, acaba se renegando.

Essa é uma impressão particular, superficial, mas vejo o mexicano sempre se apresentando como mexicano em suas produções culturais. Sejam em novelas, em programas de TV, ou na música, sempre vamos nos deparar com a cultura mexicana em estado bruto: dramático, apaixonado, colorido, “brega”, e sem vergonha do seu “terceiromundismo”. Nessa seara, acredito que temos muito a aprender com os mexicanos.

A publicidade infantil e a “educação para o consumo”

Em sala de aula, o professor Dimas falou diversas vezes sobre a importância de “educar para o consumo”. Na era do consumismo desenfreado, torna-se fundamental preparar as futuras gerações para consumir de forma crítica e consciente.

Nesse ano, o CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Crianças e do Adolescente) deu um passo nesse sentido após a publicação da resolução 163 – revoltando os defensores da liberdade irrestrita do mercado e os que faturam alto com a propaganda infantil. É que a nova resolução proíbe esse tipo de publicidade. A intenção é evitar que crianças em fase de desenvolvimento sejam alvo das artimanhas e estratégias abusivas do mercado publicitário. A partir dessa resolução, toda a propaganda de produto infantil deve ser direcionada exclusivamente para os pais.

Mauricio de Souza, talvez o empresário com maior interesse financeiro na publicidade infantil, usou as redes sociais pra pintar um quadro sombrio da resolução:

A resolução 163, se aprovada pelo congresso, vai transformar o país num vale de sombras, sem cor, sem alegria, sem liberdade, sem infância. (…) A resolução generaliza: toda publicidade dirigida à criança é abusiva e merece punição. É uma ‘caça às bruxas’. Lembra o Iraque de hoje. A resolução 163 propõe proibir utilização de pessoas com apelo infantil em qualquer comunicação mercadológica. Se isso não é ditadura…”

O empresário encara a resolução 163 como uma decisão ditatorial. Acontece que a CONANDA é um conselho formado por entidades ligadas à proteção dos direitos das crianças, tais como: CNBB, Pastoral da Criança, APAE e OAB. Essas entidades representativas da sociedade civil debateram a resolução durante anos. Portanto, não há nada de ditatorial aí.

Mesmo assim, Mauricio de Souza traz até o “Iraque” para o seu texto, tentando dar tons ainda mais dramáticos para sua indignação. O cartunista ignora que a resolução 163 segue a linha de regulamentações consolidadas em grandes democracias do mundo. Estamos falando de Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Irlanda, Bélgica, Áustria, Grécia, entre outras.

Mesmo com a resolução aprovada e tendo força de lei, as propagandas infantis continuam a circular livremente na mídia nacional. Estamos diante de mais uma batalha entre público x privado.

Minha geração cresceu assistindo a esse tipo de propaganda do vídeo abaixo. Torço para que minha filha tenha melhor sorte.