Categoria: ADMIRÁVEL/1SEM17

Grande muralha Firewall e BigBrother chinês

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Muralha da china em Pequim (Foto: Desirêe Galvão/2013)

Aos 20 anos decidi passar uma temporada do outro lado do globo. Tive a oportunidade de experimentar o silêncio do tailandês nas conversas sobre o intocável rei, hoje já falecido, a prisão psicológica que é estar na Indonésia durante o Ramadan, pelo menos para quem não é muçulmanos, e o comunismo chinês.  Naquela época, em 2012 e 2013, eu era uma jovem conectada, na metade do curso de jornalismo e oficialmente uma campuseira da Campus Party Brasil, evento de tecnologia e comunicação e cultura da tecnologia. Não achava ser possível sobreviver sem as redes sociais ou em qualquer regime ditatorial neste mundo.

Na China, passei os três primeiros meses no interior do Cantão,  em Zhaoqing, a duas horas da capital Guangzhou. A região, em que também se localiza Hong Kong, é uma fábrica mundial de tecnologia, pijamas e roupas íntimas. Mas lá, como em qualquer canto do país, a população não tem acesso ao facebook, twitter, youtube, VK e todas as outras redes sociais relevantes, resultado da ditadura comunista instalada.

Os bloqueios de internet começaram na China em 2003. Desde então, os estrangeiros que querem ter acesso ao facebook dependem de sites pagos e muito lentos para acessar as redes sociais. Digo estrangeiros, porque os chineses mesmo nem se importam mais em transgredir as regras para se comunicar com o resto do mundo. Depois da censura, eles criaram os próprios sites, que obviamente são vigiados pelo governo, para postar as fotos e demais interações online.

Certa vez decidi cancelar meu pacote ilegal, de exatos $36 dólares mensais, para acessar o facebook. A plataforma não funcionava direito, era lenta, e eu acabava passando mais raiva do que exibindo minhas fotos orientais nas redes. Tentei usar o Renren (Facebook), Youku (Youtube) e o Sina Weibo (Twitter). Frustrei-me ao perceber que, por não saber escrever em cantonês ou mandarin, na verdade não estava me comunicando com ninguém. Os colegas chineses de trabalho, com dó, de vez em quando deixavam-me uma curtida ou retwitada, mas me sentia muito sozinha e isolada neste sentido.

Ao final da minha estadia no Cantão, precisei ir a Hong Kong renovar meu visto de turista, que trabalhava como modelo ilegalmente. Essas viagens para a renovação de visto eram mesmo rápidas, demoravam cerca de um dia inteiro, ou dois, caso quisesse curtir um pouquinho da cidade. Por algum motivo estupido, declarei estar na metade da faculdade de jornalismo. O chinês da imigração ficou desconfiado, disse-me que precisaria averiguar, pois naquele caso, eu deveria estar solicitando o visto de jornalista. Acontece que, a análise para este tipo de visto é tão rigorosa que demorava cerca de um mês para oferecer a resposta. Nem trabalho como jornalista eu tinha, se isso fosse de fato acontecer, poderia considerar o pedido de visto negado. Após cinco horas esperando sentada no chão do consulado, o mesmo oficial me chamou de canto e emitiu meu visto de turista. Não entendo até hoje o que aconteceu naquele dia.

Fui para Pequim passar meus últimos três meses na Asia. Aparentemente, os -20ºC gelavam não só a ponta do meu nariz naquele inverno, mas também os corações da população local. Durante todo o período, fiz apenas uma amiga chinesa, com a qual perdi contato depois de algum tempo. Nos comunicávamos apenas através e-mails. Na época,  Whats’app já era febre no Brasil, e mesmo na China não era bloqueado. Mas o chinês se acostumou tanto a desenvolver as próprias plataformas, que até hoje o aplicativo equivalente mãos utilizado é o WeChat.

Me dava uma sensação de revolta ao perceber a passividade daquele povo perante a censura. Pensava que talvez isso fosse resultado do controle de conteúdo, que até na tv escolhia o tipo de novela, programa de auditório, entre outros entretenimentos que iam passar. O Grande Irmão chinês mostrava diariamente que trabalhava duro para manter as coisas do jeito que estavam. Mas ao final desta jornada, com pequenos sinais lidos nas entrelinhas, percebi que o povo de uma ditadura não se mantém quieto por escolha ou por concordar com tudo o que acontece, mas por saber que é só melhor não dizer nada.

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Guangzhou, capital do Cantão (Foto de Desirêe Galvão/2012)

A polêmica na construção de uma imagem pública

Por Stefano Filippini

 

Criar polêmica é um recurso utilizado em excesso quando se quer atrair os holofotes a algum fato. Programas televisivos são construídos a partir desse recurso, jornais e revistas abusam dele quando querem vender mais exemplares, e até nas artes a polemica é usada para atrair atenção. Porém ela nem sempre é controlável: as vezes se constrói polêmica mesmo quando essa não é a intenção.  Foi por isso que passaram duas das youtubers de cinema mais influentes do Brasil. A primeira, Carol Moreira, que também é apresentadora de TV, teve essa experiência no final de 2016, ao entrevistar o astro hollywoodiano Vin Diesel. Durante divulgação de seu filme Triplo X, o ator elogiou a beleza de Carol repetidamente durante as gravações, e os elogios insistentes deixaram-na visivelmente desconfortável, e só atrapalhavam a entrevista. Ao divulgar o vídeo em seu canal, a youtuber deixou claro que aquilo não fazia parte da entrevista e que no momento, ela preferiu por não repreende-lo. O vídeo viralizou como nenhum outro de seu canal, e se tornou alvo de discussão, havendo o lado daqueles que diziam que Vin Diesel foi desrespeitoso e pouco profissional, e o lado dizendo que a apresentadora se fez de vítima, se omitiu, entre outras opiniões.

O outro caso foi em 2015 envolvendo a youtuber Luisa Clasen, do canal “Lully de Verdade”, no qual ela foi uma das entrevistadas pelo portal G1 em uma matéria que trazia algumas das meninas e mulheres que mais estavam em alta no YouTube. O título escolhido foi “Lully, musa youtuber, diz que vídeo faz mais pelo feminismo que ir à marcha”, e juntamente com alguns trechos, gerou revolta por parecer que ela estava “se colocando como superior ao movimento feminista por fazer vídeos”. Logo após a publicação Luisa se retratou afirmando que suas falas tinham sido distorcidas pela reportagem, e até publicou a entrevista na íntegra, que tinha salva no seu email. Ficou evidente que as alterações nas falas da youtuber na entrevista foram uma forma de gerar polêmica, e consequentemente, mais acessos. A matéria continua publicada no site do portal, com o mesmo título.

Em ambos os casos, as polêmicas vieram em direção das criadoras de conteúdo, de forma involuntária. No caso de Carol, o acontecimento de certa forma ajudou a aumentar a visibilidade de seu canal e trazendo mais inscritos. A matéria do G1 não sujou a reputação de Luisa. Personalidades públicas correm esse risco: uma polêmica pode ‘sujar’ seu nome e fazê-lo perder todo prestígio construído por anos. A internet tem esse poder, mas felizmente, também te dá o direito de se retratar e fazer as pessoas ouvirem seu lado da história.

 

Lully, musa youtuber, diz que vídeo faz mais pelo feminismo que ir à marcha
(Link da matéria do G1)

 

O medo como demonstração de poder

Por Stefano Filippini

 

A imaginação de como seria o mundo caso uma catástrofe ocorresse é um viés que permeia do mundo da ficção. Seja através de filmes, livros, games ou séries, diversas obras se propuseram a imaginar um planeta pós-apocalíptico, como por exemplo a franquia Mad Max. Outras criaram um mundo no qual um vírus se espalha e transforma a maioria da população em zumbis, como no caso de The Walking Dead.

A série Fallout se tornou mundialmente conhecida por conta de seus jogos, retratando uma era pós-apocalíptica por volta do ano 2200, caso tivesse ocorrido uma guerra nuclear durante a Guerra Fria. Nas versões mais jogadas do game, controlamos um personagem que sobreviveu à destruição e resolve se aventurar para além de seu abrigo subterrâneo, lugar esse onde se escondeu durante as explosões das bombas. Em um Estados Unidos quase que completamente devastado, o principal é sobreviver num local onde a radiação modificou todos os seres, criando espécies super mutantes, e pessoas que se dividiram em facções, grandes povoados e também pequenos vilarejos. Enquanto os pequenos conglomerados de gente buscam apenas sobreviver, as grandes facções possuem ideologias confrontantes e estão sempre em atrito, brigando por suprimentos, áreas e influência. Nos confrontos, um dos fatores que mais prevalece é o controle tecnológico, que permite o manuseio de armamentos e apetrechos de guerra em geral, além do conhecimento da tecnologia em si. Um dos grupos mais poderosos é formado por ex-generais do exército, que possuem armaduras robóticas que tornam cada um dos membros um “exército de um homem só”. Por conta disso, A Irmandade do Aço como são conhecidos, clama para si o controle de tudo e todos.

fallout4Cena do jogo Fallout 4

A narrativa principal apresenta esse ponto de semelhança com a Guerra Fria: a União Soviética e países socialistas contra os EUA e países capitalistas, num embate de quem pode mais, quem mais amedronta os inimigos com a partir de seu poder bélico e nuclear. Um momento histórico em que uma ameaça de ataque ao outro lado pode ter consequências catastróficas para todo planeta, inclusive àqueles que não não-aliados a nenhuma das forças; e que passadas algumas décadas, volta a assombrar todo o planeta, a partir de uma espécie de jogo de xadrez entre EUA e Coréia do Norte. Dessa vez, porém, com tecnologias militares mais avançadas em que as bombas são cada vez mais potentes e a devastação seria de certo maior, e o medo de quem irá fazer o primeiro movimento mais radical ainda sendo o principal fator.

O urso branco do sofrimento público

Por Stefano Filippini

 

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Cena de Black Mirror, episódio “Urso Branco” Fonte: Proibido Ler

 

O sofrimento em praça pública como forma de punição se faz presente desde os primórdios de civilização. Exemplos são vários, desde os escravos desobedientes lutando nas arenas de gladiadores até a “purificação” dos hereges sendo queimados em praça pública, e chegando nos dias atuais com os linchamentos de estupradores, assassinos e supostos criminosos. A série Black Mirror, produzida pela Netflix foi a fundo no tema. Em um futuro de distopia, os episódios (independentes entre si) majoritariamente mostram a tecnologia utilizada de forma malevolente. Algumas delas não fazem parte da nossa vida (ainda, talvez), e mesmo criadas no intuito de auxiliarem as pessoas, também trazem problemas.

No episódio “Urso Branco”, uma mulher acorda sem saber seu nome, quem é nem onde está. Ao sair na rua, começa a ser perseguida por mascarados sádicos com espingardas, facas e outros objetos, como correntes e cassetetes. Sem dizerem uma palavra, fazem-na fugir sem saber pra onde, e também ser ajudada a escapar por pessoas que nunca viu. Durante todo o tempo que passa nessa fuga, ela é filmada por smartphones de pessoas que parecem se divertir e não estranharem a situação. [Começo do spoiler] Adiante no episódio descobrimos que a mulher sequestrou e assassinou uma criança, foi julgada culpada e está sofrendo as consequências de seu crime: todo dia ela passa por essa situação, que é transmitida via televisão e as pessoas assistem à toda a encenação. A fuga da assassina, que acontece igual em todos os dias, com atores e onde só ela não sabe. No final do dia, o apresentador a faz lembrar de seu crime e ela então é vaiada e sofre todo tipo de xingamento até o caminho de sua casa, e lá forçam-na um medicamento que a faz esquecer de todo ocorrido desde o crime, para que no dia seguinte ela passe por tudo de novo, durante um mês. [Fim do spoiler]

O ato de fazer alguém que realizou um crime sofrer as consequências em público se torna sádico à partir do momento que abusa do sofrimento desse alguém. No período da tarde, os programas policiais de TV dominam a programação, com apresentadores destilando palavras de ódio contra os (supostos) criminosos, transmitindo troca de tiros com policiais, e expectadores torcendo pela morte deles. A guilhotina em praça pública ainda mostra resquícios.

Ânsia pela informação imediata

Por Stefano Filippini

 

A característica imediatista do jornalismo se perpetuou mais do que nunca com o advento do jornalismo digital, em especial com o crescimento dos portais de notícia. No atual cenário brasileiro, graças à operações como a Lava Jato, a política é um tema sempre em alta. Um momento em que parece que surgirão novos acontecimentos, denúncias de corrupção e delações premiadas a cada dia.

Como consequência disso é gerado um grande fluxo de informações, inclusive uma espécie de corrida entre os portais de notícias pela dianteira: qual postará primeiro a notícia mais quente primeiro. Essa ânsia tem seu viés negativo, conforme defende André Singer, professor de Ciência Política na USP, doutor em Jornalismo, antigo porta-voz e ex-secretário de Imprensa da Presidência da República.

Em entrevista para a Revista E (periódico organizado pelo SESC), afirma que “como jornalista, você quer uma notícia por dia ou por hora, mas as decisões importantes são maturadas por anos.” Isso cria um “choque de tempos”, e justifica o porquê de lermos às vezes notícias pobres de informação nos portais jornalísticos. É uma escolha que parece ser a preferida pelas redações: lançar rapidamente a notícia, mesmo que com uma apuração incompleta, ao invés de lançar uma notícia que responda a maioria das perguntas levantadas pelo fato.

Novos profissionais e novas formas de trabalho

Por Stefano Filippini

 

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O terreno da internet parece estar sempre germinando novidades, algumas efêmeras, outras com de importância a longo prazo. Uma das possibilidades surgidas a partir da internet como área profissional é youtubber. Pode ser definido como uma pessoa, que por seus atributos pessoais como carisma, repertório, entre vários outros, possui um ou alguns canais no Youtube e passa a produzir vídeos próprios, do que quer que sejam, e cria uma reputação. Alguns possuem uma quantidade de seguidores e expectadores na casa dos milhares, e até conseguem construir uma renda a partir dos vídeos.

Associar alguns deles como celebridades não é nenhum exagero. Primeiro, eles conseguiram a partir de toda a visibilidade adquirida, receber ofertas de publicidade que há poucos anos atrás só seriam oferecidas à celebridades de televisão ou de cinema, por exemplo. Agora, também vêm conquistando espaço no meio jornalístico, visitando estúdios de filmagem fora do país e entrevistando famosos.

Mesmo com todo o espaço conquistado, ainda existem aqueles mais céticos que não enxergam o ofício com bons olhos. Segundo Bia Granja, criadora do youPIX, site criado em 2006 especializado em internet, ainda existe essa visão estereotipada sobre os youtubers. “As pessoas reduzem um movimento mega importante por uma opinião pessoal.”

Luisa Clasen, do canal sobre cinema “Lully de Verdade” vai mais além, e diz que as pessoas parecem querer “fiscalizar o dinheiro” de quem cria conteúdo para o Youtube: “Se você não perguntaria isso pro seu dentista ou pro seu professor (o quanto ganha), por que tem que perguntar pra profissional de internet?

Esse parece ser o maior desafio desses profissionais atualmente, acabar com o estigma negativo, segundo defende Bia Granja. “Não é um bando de idiotas fazendo vídeos, tem muita coisa ótima.”

Pluralidade de discordâncias

Por Stefano Filippini

 

As bolhas de opinião se tratam de uma espécie de isolamento, onde o sujeito se fecha nela e convive com pessoas que tem opiniões mais ou menos parecidas com as dele, e visões de mundo que corroboram com as suas. Elas surgem a partir de um fenômeno chamado viés de confirmação, no qual nos tornamos complacentes com notícias e opiniões que reforcem nossas crenças pré-existentes. Esse comportamento integrou-se ao modo que utilizamos as redes sociais o modo como elas nos exibem conteúdo.

Em redes como Facebook e Twitter, essa ferramenta recebe o nome de ‘filtro bolha’: um conjunto de algoritmos que, a partir dos dados armazenados de como utilizamos essas redes, escolhem o conteúdo que nos será exibido. E ela pode ter consequências negativas para o senso crítico, segundo pesquisas.

Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil.”

Eli Pariser Autor do livro The Filter Bubble

Segundo o professor da Universidade de São Paulo Eugênio Bucci, isto “exacerba o sentimento que sempre esteve aí, mas nunca nessa proporção, de autossuficiência em relação à própria visão de mundo, ao lado de um sentimento de impaciência, às vezes de intolerância e às vezes de ódio com o que é diferente.” A justificativa psicológica é provável: “Pra que se irritar ou se decepcionar ao ler um post de um amigo que tem visão política diferente da minha?”. E as redes sociais, nesse intuito, deixam de mostrar conteúdo desse amigo e de páginas que postam coisas que normalmente não são de seu interesse.

É a fabricação de uma ilusão de que a felicidade é feita na concordância, segundo Bucci.