Categoria: ADMIRÁVEL/1SEM16

Catalogação Humana

João Pedro Boaventura

Pensei direitinho no que seria meu último post e, ao ver no Facebook uma postagem escrito “E se eu te dissesse que os maiores cientistas de exatas eram filósofos?”, lembrei-me de uma ideia que eu sustentava quando eu era bem moleque e que acabou sendo esquecida na minha memória, especificamente, a respeito da divisão entre ciências humanas e exatas.

Digo, por que tanta insistência em catalogar as coisas como “de humanas” ou “de exatas”? Ainda, por que nos catalogarmos como “sou de humanas” ou “sou de exatas”? Acredito que isso tenha se originado na época do positivismo, que visava o progresso fragmentado e especializado, com um foco específico, aí criou-se essa divisão brusca entre as duas como se não se complementassem.

No passado, a física se desenvolveu com Aristóteles que foi um dos primeiros a delimitar a existência de algo chamado “matéria”. René Descartes não era apenas o matemático que desenvolveu a lógica cartesiana, mas também um filósofo que dissertou a respeito da existência de Deus na natureza. Hoje, mais do que nunca, a sociedade acaba sendo prejudicada abusivamente por culpa disso.

Na contemporaneidade digital, pro exemplo, onde a produção de conteúdo hoje é praticamente toda digitalizada, ambos esses lados de pensamento acabam sendo prejudicados. O lado “de humanas” por não ter o conhecimento técnico a respeito das tecnologias para onde seu conteúdo produzido para otimizá-lo já dentro de sua plataforma; e o lado “de exatas”, que, atendo-se primordialmente à parte técnica da questão, acaba deixando passar todo o potencial imaginativo que determinadas plataformas oferecem. Caberia, então, um conhecimento completo de ambas as partes que se complementam e acabe otimizando o resultado final, onde o criador desse conteúdo sabe de todo o potencial assim como de suas limitações.

E ainda, as discussões que têm como base a expansão da tecnologia técnica, como a questão da iteligência artificial ou clonagem, por exemplo, não têm um pé na área de sociologia, de humanas, julgando o forte impacto nas relações interpessoais que tais desenvolvimentos trariam?

As questões de pluralidade e multidisciplinaridade foram perdidas nessa era de produção científica massificada. Esses conceitos atuais de otimização do desenvolvimento, feito de forma robótica, nos são introduzidos desde a formação básica, ensino fundamental e médio, onde até mesmo a própria filosofia, nos é ensinada de forma determinista e, por que não, chata, uma vez que parte da sociedade as considera inúteis. Essa divisão de exatas e humanas deveria ser tanto introduzida quanto encerrada em cursinho pré-vestibular, que não visam formar o cidadão para a vida, mas apenas fazê-lo entrar numa faculdade para corresponder o capital que nessas instituições foi aplicado.

E é claro, isso abre para outra discussão: Por que diabos o sistema de ingresso em universidades é como é?

Mídia, Complexidade e Poder na visão do U2

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Fabio Almeida Silva

Depois do sucesso com as turnês do final dos anos 80, os irlandeses do U2 sentiram que precisavam de um descanso. A temática das músicas e o engajamento em causas políticas e sociais haviam desgastado a imagem e conferido à banda o status de chata, séria demais para um público que queria apenas sair de casa e se divertir. Definitivamente, era preciso se reinventar.

Então, no final de 1990 o grupo partiu para a Alemanha, onde se reuniria no Hansa Studios para buscar inspiração. Bono e cia. chegaram às vésperas da reunificação da Alemanha, no último voo a pousar em Berlim Oriental. E aquele ambiente tenso pré-queda do muro, com um clima de mal-estar causado pela incerteza política, influiu tanto na concepção dos discos vindouros – Achtung Baby (91) e Zooropa (93) – quanto da turnê Zoo TV.

Crítica e ácida, mas ao mesmo tempo divertida e bem-humorada, a Zoo TV Tour veio em boa hora. De certa forma, era como se a banda apresentasse o mundo a uma sociedade antes isolada. Os shows eram abertos ao som de Zoo Station, que leva o nome de uma estação de trem central em Berlim, fazendo uma metáfora sobre a reunificação da Alemanha. A música saúda a chegada de uma nova era, como uma festa de boas-vindas ao admirável mundo novo no qual eles estavam embarcando. De uma sociedade de parcimônia e hábitos contidos, pautada pelos ideais do socialismo, os berlinenses orientais agora se deparavam com o capitalismo em estado puro, onde o consumismo é a regra e os excessos nunca saem de moda.

O palco também foi pensado para ilustrar as novas relações de poder e consumo que os aguardavam: o Trabant, automóvel símbolo da era soviética, havia se tornado obsoleto, e agora era ressignificado, reapropriado e multicolorido pela cultura pop, sendo utilizado como torre de iluminação para um cenário caótico.

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Por todos os lados, telões de vários tamanhos transmitiam imagens aleatórias de maneira frenética, com mensagens como “Tudo o que você sabe está errado”, “Compre mais” e “Assista mais TV”. Ao mesmo tempo, a música Zooropa, primeira faixa do álbum homônimo, traz uma crítica ao consumismo e ao mundo da propaganda. Composta a partir de uma “colagem” de mensagens publicitárias, ela começa com o lema da Audi (Vorsprung durch Technik, algo como “Um passo à frente através da tecnologia”), passando por slogans de sabão em pó, loterias e outros produtos.

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Ainda no tema mídia, Numb é cantada em tom monótono pelo guitarrista The Edge. A canção expõe o sentimento de torpor e conformismo social causados pelo excesso de informações ao qual somos expostos diariamente.

Para introduzir cada um dos temas abordados, Bono criou diversos personagens. Um deles era o Mirrorball Man, um pregador evangélico maníaco, midiático e narcisista. Mais interessado em fama e glória do que na salvação, vestia-se com roupas brilhantes e trazia um discurso inflamado, onde dizia: “Eu tenho uma visão! Tele-visão!” Além dele, havia também o rockstar The Fly, uma espécie de Elvis às avessas trajando calça e jaqueta de couro preto em vez do tradicional macacão brmacphistoanco.

Já o Mr. Macphisto é uma mistura entre Mefistófeles (o diabo para o qual Fausto vendeu sua alma) e McDonald’s (o Mac no nome e as cores amarelo e vermelho) , sugerindo que ele é apenas mais um produto. Com chifres vermelhos, maquiagem carregada e um andar afetado, ele mantém um sorriso cínico o tempo todo, como se soubesse para onde a humanidade está caminhando – e se delicia com isso.

Resumindo, mais do que um simples show, a Zoo TV Tour era um espetáculo multimídia com direito a transmissão ao vivo de imagens da guerra da Bósnia e trotes à Casa Branca. Feita para entreter e divertir, conseguia ser leve, ao mesmo tempo que criticava os excessos da mídia e do consumismo.

Eis a questão para o amor próprio

Por Giovana Natale

Eis um pequeno texto para um vídeo tão impactante. Que tal acordar e se perceber bem consigo mesma? Ter amor própria e acreditar que o que é transmitido na mídia não passa de uma ilusão pré-estabelecida para a venda de produtos da indústria cultural?

Que tal perceber que aquele estereótipo do corpo perfeito não existe e é você que decidi o que é perfeição? Frustrações e decepções por conta da sua aparência, não leva a nada. Você é linda, por ser você.

A escrita e a imortalidade

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Fabio Almeida Silva

Imagine o homem primitivo. No que a semiótica definiria como um constante estado de primeiridade, ainda sem plena consciência de si, ele começa a observar o mundo à sua volta e percebe pela primeira vez o tempo passando. O mistério da vida com a chegada de sua prole, o mistério da morte em um companheiro que jaz inerte… coisas que existiam e não existem mais, coisas que agora são e antes não eram.

De repente, ele se depara com a iminência de seu próprio fim, e instintivamente, começa a rabiscar as paredes. Sem um código alfabético ou qualquer significação em comum, ele apenas desenha o seu dia-a-dia como quem escrevesse “Eu estive aqui”. E ao registrar o que viveu e experimentou, sem querer, alcança a imortalidade.

Não é à toa que a mitologia egípcia atribui a Toth a invenção da escrita. O guardião do livro dos mortos apresenta os hieróglifos como um presente à humanidade, uma forma de guardar fisicamente o que antes era passado apenas através da oralidade. Ao registrar as nossas memórias, podemos ver quem fomos e o que fizemos. E toda vez que escrevemos, algo de nós passa a existir perenemente, ainda que esta seja uma “eternidade momentânea”.

Seja por um texto postado online ou com a pichação em um muro, esses signos sinalizam a existência de alguém. E talvez, mesmo que inconscientemente, este seja o nosso objetivo: ser reconhecidos e imortalizados. Não um reconhecimento com fama e prestígio, como o dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (uma brincadeira de Olavo Bilac, que dizia que os escritores são imortais por não terem onde cair mortos), mas simples, como o do homem primitivo do começo da história, de apenas deixar registrado: eu estive aqui!

A complementaridade dos opostos em Penny Dreadful

PENNY DREADFUL

Photo Credit: © 2013 Jim Fiscus/Showtime.

Fabio Almeida Silva

Penny Dreadful foi uma série exibida no Brasil pela HBO e disponibilizada na Netflix, cuja terceira e (infelizmente) derradeira temporada foi exibida em junho de 2016. A série é ambientada em Londres na reta final da Era Vitoriana, e traz entre seus protagonistas personagens populares da literatura e do folclore, como Dorian Gray, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Frankenstein, Drácula e Van Helsing, entre outros.

Em sua primeira temporada, o enredo traz um grupo que se reúne para resgatar a filha desaparecida de um nobre explorador britânico. Mas apesar do objetivo principal, cada personagem parece estar atrás de sua própria redenção. E conforme eles são apresentados, fica evidente que neste universo nada é tão simples que possa se enquadrar na clássica construção arquetípica “Bem x Mal”, ou do herói altruísta versus vilão egoísta.

Demolindo a velha fórmula, temos “gente do bem” que perde qualquer escrúpulo para alcançar os seus objetivos. E entre a “gente do mal”, um demônio cujo objetivo de sua existência é conquistar a sua amada. E aos poucos, começamos a nos questionar quanto à natureza dos personagens: o doutor Frankenstein, que pesquisa formas de compreender “o fino tecido que separa a vida e a morte”, o estaria fazendo em prol da humanidade ou apenas em busca de fama e reconhecimento? E a sua criatura, seria um abominável monstro assassino ou somente um ser injustiçado se defendendo em uma sociedade cruel com os desvalidos?

No final das contas, a conclusão é a de que não existem bem e mal absolutos, mas uma “dança” constante entre eles dentro de nós. Como luz e escuridão, ambos são complementares e indissociáveis, e ajudam a moldar quem somos. E em Penny Dreadful, fica ainda mais difícil distinguir essas diferenças.

Vale julgar um livro pela capa?

João Pedro Boaventura

Essa história de “Não Julgue um Livro pela Capa” é engraçada. Insistem que isso não é algo a ser feito nunca. No entanto, o nosso sistema econômico baseado em relações mercadológicas QUER que isso aconteça. A sociedade midiática em que nós vivemos está cansada de fazer isso e todo o produto criado no intuito de vender é projetado para seguir essa lógica.

Digo, se vamos à banca de jornal e compramos a revista, muitas vezes é porque o assunto nos atraiu porque a capa estampa tal assunto. O que é um trailer para um filme senão uma espécie de capa? Um vídeo de gameplay de um jogo? Não são capas factuais, mas metafóricas. A indústria sobrevive dessas capas. O trailer cria a expectativa para um filme que será consumido pelo seu público. A expectativa criada é uma espécie de julgamento feito. É por isso que não é incomum aparecerem filmes absurdamente ruins com trailers interessantes que às vezes vendem o produto como algo que ele não é.

Pensei nisso assistindo ao remake/reboot dos Ghostbusters. O trailer era bem ruim, e digo isso independente do chororô bobo suscitado por conta da mudança dos personagens principais, que agora é uma equipe de mulheres. O que foi feito aqui é que julgaram o livro pela capa, mas com os argumentos errados. O filme em si é bem interessante e o trailer foi ruim, mas não por causa da mudança dos protagonistas.

A conclusão que se tira disso (eu acho, né?) é que não é problema julgar um livro pela capa – senão o indivíduo ia se tornar uma espécie de escravo consumista de algum tema específico que o atraia. O problema é julgar da forma errada. Ou, ainda, a capa pode até ser feia, mas dar uma folheada a mais para checar o conteúdo também não é nenhum crime.