Categoria: ADMIRÁVEL/1SEM14

“Welcome to Brazil”

Por Daniela Bianchini

 

#tatendocopa #vaibrasil #acopadascopas. É pessoal, está tendo Copa. Quem diria!
A preparação para o torneio deste ano foi mais tímida, vi poucas calçadas pintadas e casas com bandeirinhas, mas foi só a torcida continuar cantando o hino na abertura, mesmo sem o acompanhamento musical – o que virou moda -, e a seleção vencer o primeiro jogo que os retrovisores dos carros começaram a ganhar capinhas da bandeira nacional. Pessoas nos dias dos jogos se vestem de verde e amarelo e, claro, tiraram a vuvuzela do maleiro.

Até a imprensa parou com as críticas, afinal as temidas falhas não se confirmaram e apesar do jeitinho brasileiro os torcedores estão conseguindo assistir aos jogos e os turistas estão curtindo o país. Os gringos estão surpresos com São Paulo, a capital paulista já conquistou muitos fãs.

Bom, mas se você está feliz com esse cenário e orgulhoso da Copa, “Welcome to Brazil”. Ser patriota não é vestir verde e amarelo nos dias de jogos, ir ao Fifa Fun Fest, passear na Vila Madalena com uma bandeira nas costas, nem mesmo comemorar a vitória da seleção gritando no metrô. Falta carinho com a cidade que vivemos, os gringos se apaixonaram pelo serviço de São Paulo, com a beleza da Pinacoteca, mas ficaram chocados com tanta sujeira. Falta gentileza nas ruas, pedir desculpa, com licença e agradecer. Sem contar os problemas que enfrentamos todos os dias com o trânsito, transporte, educação, saúde… Poderia ficar aqui falando sobre os problemas e o caos por horas, mas ao invés disso te pergunto: o que você fez por seu país hoje?

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Me julgue pela capa!

 

 

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Por Naira Anjos

Há aproximadamente 14 anos, o Programa Monumenta – um projeto de recuperação do patrimônio histórico urbano brasileiro tombado pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural), em articulação com o projeto da prefeitura de São Paulo, Reconstruir o Centro, causou certo alarde entre a população devido ao início da implementação de câmeras de segurança na região central da capital paulista.

A implementação ocorreu e se expandiu por toda cidade e muitas pessoas, naquela época, questionaram a invasão de privacidade e a constante sensação de estarem sendo vigiadas.
Hoje é muito raro entrarmos em um ambiente que não contenha a placa “Sorria, você está sendo filmado” – uma demonstração de que as novas técnicas de vigilância tornaram-se, de lá para cá, naturais aos olhos do ser humano, uma disseminação do panóptico.

Hoje, na era pós-moderna, fico imaginando como se encaixaria o termo privacidade quando as pessoas fazem questão de serem vistas. Cada vez mais, elas expõem suas atividades diárias e, muitas vezes, momentos íntimos.

Inconscientemente ou não, as pessoas ao ingressarem nas redes sociais criam certa expectativa sobre sua audiência, e se preocupam com o papel que irão representar na rede aos olhos de quem as observam.

A foto escolhida do perfil deve valorizar os atributos do seu usuário. Os filmes selecionados como favoritos, os lugares marcados nos check-ins, são escolhidos com certo cuidado. E assim, cria-se um ser que não necessariamente corresponde com o que a pessoa realmente é.

Ninguém é completamente culto, feliz, sem adversidades. Ninguém é completamente reclamão, preocupado com o tempo, ou filósofo. Criador de frases impactantes, de autoajuda, fazendo o seu papel social.

Uma vez que a privacidade abriu espaço para o exibicionismo, não estamos criando seres a partir do queremos ser? E talvez, a partir do que queremos ser para as outras pessoas, não necessariamente para nós mesmos.

Assim como podemos julgar um livro pela capa, as redes sociais podem cumprir o mesmo papel: apenas uma maquiagem ou camuflagem, numa Sociedade de Controle, na qual as pessoas cada vez mais têm dificuldades de se aceitarem como são e principalmente, dificuldades de se relacionarem.

Admirável mundo da infância

Por Carolina Klautau

Acima, em dez andares sucessivos de dormitórios, os meninos e meninas ainda pequenos a ponto de precisarem de uma sesta, estavam tão ocupados como os demais, embora não o soubessem, ouvindo inconscientes lições hipnopédicas de higiene, sociabilidade, consciência de classe e vida sentimental do bebê. Acima deles ainda estavam as salas de recreação, onde 900 crianças mais velhas se divertiam com brinquedos de construção, modelagem, quebra cabeças e jogos eróticos

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley. 1932

No livro “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley constrói um universo diferente para as crianças e seu papel social. Na distopia do escritor inglês, todos tem uma função, um uso específico para a manutenção do sistema. Com os mais jovens não é diferente. As crianças, desde cedo, eram treinadas para continuar a perpetuação da sociedade futura. A ideia de Huxley não era inovadora. O pensador suíço, Jean Piaget, já havia identificado que, uma vez na sociedade, as crianças já foram vistas como “adultos”.

No século XVI, fazia parte do costume da época associar às brincadeiras sexuais dos adultos sem nenhuma reserva, com a adoção de linguagem vulgar e grosseria de ações e de gestos obscenos, de brincadeiras que envolviam sexo etc. A criança era considerada alheia e indiferente à sexualidade.

Atualmente, existe um cuidado especial para com as crianças. Elas são vistas como seres que precisam de atenção para sua formação, cuidados com o que ouvem, leem e consomem de maneira geral. O fato é que, assim como na sociedade de Huxley, as crianças também parecem exercer função na sociedade. Os mais jovens são peça fundamental para a manutenção da nossa sociedade de consumo. A elas são dedicados comerciais, produtos, desenhos, filmes, livros… O mercado descobriu que as crianças são importantes agentes do consumo.

É curioso que com tantas iniciativas para proteger as crianças do consumismo, elas ainda ilustrem campanhas que fazem exatamente o contrário: influenciem-no cada vez mais. “Compre Baton”, por exemplo, é um caso desses. Parece que a campanha é feita para os pais, mas é uma criança que aparece e é ela quem fala à quem está do outro lado da TV.

Um caso chamou bastante atenção das associações que trabalham pelos direitos da criança. O criador das histórias da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, uma das mais queridas das crianças do país, postou em seu Instagram, foto de uma criança que pede que seu direito de ver propaganda infantil seja respeitado. É estranho que uma atitude como essa venha de alguém que teve, por tantos anos, a sensibilidade de criar histórias com valores como respeito e amizade para as crianças.

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Atitudes como essa mostram que ainda é preciso defender – e muito – as crianças do universo adulto.

 

Entre os muros da educação

Por Carolina Klautau
É impressionante a quantidade de provocações que “Entre os Muros da Escola” propõe ao espectador. Diversidade cultural, função das instituições sociais, educação da juventude e muitas outras. Mas acima de todas essas polêmicas, dois aspectos ficam cada vez mais claros no cinema europeu: a urgência em fazer o espectador pensar e a abordagem de temas extremamente atuais.
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O professor François, interpretado por François Bégaudeuau escritor do livro que deu origem ao filme, tem a difícil missão de ensinar e – sobretudo – educar jovens da sétima série do ensino fundamental na França. A maioria deles é da periferia e todos já são cheios de personalidade e de visão de mundo. Esses alunos já têm noção do que é ser negro na França e do que é ser filho de imigrantes africanos no país. Atormentados pelo preconceito e pelo xenofobismo, esses jovens são extremamente desacreditados em um mundo melhor. Basta prestar atenção no debate que eles travam, a todo momento, com o professor – branco – François.
O curioso da realidade desses jovens é que eles tinham o poder de mudar a realidade que os pais e avós viveram. Ou seja, poderiam canalizar todo o sofrimento causado pelo preconceito para o bem, para fazer com que a geração deles e as próximas não vivenciassem os mesmos problemas. Mas, no lugar disso, eles se fecharam em uma realidade e quem ousar transpor esse muro vai sofrer as consequências.
Em francês o nome do filme é apenas “Entre os Muros” – o que permite uma interpretação bem mais ampla. Em português, a tradução ficou “Entre os Muros da Escola”. O problema é que no filme, os muros – as limitações – não são só da escola. Nesse caso, os muros são uma metáfora para explicar a dificuldade em lidar com culturas, pessoas, vidas e estilos diferentes dos seus. Saber incluir todos os estudantes de maneira democrática e fazer com que eles sintam-se parte de um processo é a grande missão do educador. Os jovens de “Entre os Muros da Escola” são franceses e da periferia. Mas eles não são nada diferentes da realidade que pode ser encontrada em escolas particulares do mundo inteiro.
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E para fazer com que o público se identifique mais ainda, o diretor Laurent Cantet não selecionou atores. O elenco do filme é composto por pessoas que não tinham nenhuma – ou quase nenhuma – experiência com atuação. O mais curioso desse núcleo é que as ações dos personagens são tão naturais, que não dá para perceber que eles não têm experiência nenhuma com as telas. Talvez nem os jovens atores mais profissionais da França, fossem conseguir transmitir tanta realidade ao filme. Os adolescentes, que realmente são da sétima série, interpretam tipos complexos talvez até sem saber.
“Entre os Muros da Escola” venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes e mostra como um diretor consegue prender o espectador por mais de duas horas com, praticamente, um cenário e uma trama “simples”.
Ficha Técnica:
Entre os Muros da Escola (Entre les Murs)
França – 2007
Direção: Laurent Cantet
Produção: Caroline Benjo, Carole Scotta, Barbara Letellier e Simon Arnal
Roteiro: Robin Campillo e Laurent Cantet, baseado no livro de François Bégaudeau
Fotografia: Pierre Milon, Catherine Pujol e Georgi Lazarevski
Trilha Sonora:
Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Boundaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucure, Arthur Fodel e Damien Gomes.
Duração: 128 minutos

Sheherazade, linchamento e agenda-setting

Por Carolina Klautau

Rachel Sheherazade é paraibana e jornalista do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). É âncora do SBT Brasil e uma das apresentadoras mais polêmicas do telejornalismo atual. No programa, Rachel Sheherazade possui espaço para comentar as notícias “mais importantes” do dia. Entre as polêmicas que ela causou ao longo do tempo como âncora do SBT, foi a da defesa da “justiça com as próprias mãos” pela população.

Foi em fevereiro que Rachel Sheherazade classificou como “legítima defesa coletiva” o ataque de um grupo que amarrou e cortou parte da orelha de um jovem suspeito de furto no Rio de Janeiro. Para a jornalista, a iniciativa foi compreensível devido à impotência do Estado e da insegurança que as pessoas vivem nas ruas.

Algum tempo depois da polêmica causada pela apresentadora, o Brasil começou a ver pessoas de várias cidades, fazendo justiça com as próprias mãos. Além do caso do jovem, outro ainda mais grave ocorreu: em maio de 2014, a página Guarujá Alerta, no Facebook, divulgou retrato-falado de uma suposta sequestradora de crianças. Um grupo viu uma semelhança entre a suspeita dos crimes e a dona de casa, Fabiane Maria de Jesus. Ela foi perseguida, amarrada, arrastada, agredida e não conseguiu sobreviver.

O curto espaço de tempo entre os comentários da jornalista e a reação do público, reforça uma teoria de Maxwell McCombs de 1970: a do agendamento. As opiniões de Sheherazade sobre a falência do Estado e a insegurança nas ruas foram amplamente divulgadas, apesar das críticas que a jornalista sofreu.

A teoria do agendamento faz-se muito presente até mesmo 40 anos após sua criação. Será que se não houvesse a ampla divulgação das opiniões da jornalista – ou mesmo se ela não as tivesse feito – aumentaria o número de justiceiros no Brasil? Porque há muito tempo a sociedade sabe da ineficácia do Estado e da insegurança das ruas, mas é muito difícil que tantos casos de justiça com as próprias mãos tenham ocorrido em tão pouco tempo no país uma outra vez.

http://noticias.terra.com.br/brasil/justiceiros/

Os vários usos do Marketing

Recentemente foi postado no Youtube o depoimento de Kate Cooper, consultora de marketing da indústria alimentícia, sobre como o marketing oculta propositalmente a crueldade que permeia o universo das granjas e matadouros.

Como se diz para o consumidor que o animal fica confinado em uma jaula que não lhe permite dar um passo, para que engorde o máximo possível? “Fresco da fazenda” ou “100% natural”, entrega a publicitária. Essas são algumas estratagemas que a comunicação encontra para fazer com que esqueçamos de toda a perversidade intrínseca a determinados processos para que possamos continuar consumindo sem resíduos na consciência.

O exemplo deixa claro como o marketing e a publicidade podem manipular informações a favor do cliente. Mas, seria muito reducionista resumir todo o potencial do marketing e da publicidade a deserviços dessa ordem. Não se pode negar: o marketing é uma ciência funcional. E ela compreende determinados usos que não precindem de distorções ou desinformações. Ao contrário. O caso do marketing social, por exemplo.

Para Philip Kotler, principal referência no assunto, define-se marketing social “o processo que aplica os princípios e as técnicas de marketing para criar, comunicar e fornecer valor a fim de influenciar os comportamentos do público alvo que beneficiem a sociedade (saúde pública, segurança, meio ambiente e comunidades), bem como o público alvo”. Campanhas para incentivar uso da camisinha, de combate ao mosquito da dengue ou pelo enfrentamento ao trabalho infantil se valem de estratégias de marketing para alcançar seus objetivos – muitas vezes, com sucesso. Mas, existe no senso comum uma sensação de que marketing é sinônimo de mentira, lucro e só. O marketing social me faz pensar que o problema nunca esteve na ferramenta em si, mas sim a serviço do que ela se coloca.

 

 

 

Os setes saberes e a Educação Integral

A pedido da Unesco, o filósofo, antropólogo e sociologo Edgar Morin escreveu Os sete saberes necessários à educação do futuro, um apanhado de reflexões sobre como devemos pensar na Educação do novo milênio.

Morin traz entre os elementos indispensáveis  a necessidade de se “evitar as cegueiras do conhecimento”, reconhecendo que estamos sujeitos ao erro e à ilusão. Destaca também que é preciso ter uma visão complexa que dê conta de percerber o conjunto das coisas; que reflita sobre a condição humana; que nos ensine sobre compreensão. Para Morin, a Educação do futuro deve ainda reconhecer suas incertezas, ensinar a identidade terrena e tratar de ética do gênero humano.

Essa é uma abordagem muito semelhante ao conceito de Educação Integral com que trabalham uma série de organizações, entre as quais, a Associação Cidade Escola Aprendiz. Para o Aprendiz, Educação Integral é aquela que garante o desenvolvimento integral dos indivíduos; aquela que vai desenvovê-lo em suas faculdades cognitiva, motora, emocional, simbólica.

A escola, nesse processo, é um ator social importante, mas, não pode ser o único. Para que o processo pedagógico se dê de forma integral, é necessário que ele incorpore os saberes locais e aproveite o potencial educativo que tem a comunidade do entorno e a cidade como um todo.

Para expectativas complexas do processo pedagógico é preciso reconhecer que o aprendizado se dá a qualquer momento e em qualquer lugar, inclusive – e talvez, principalmente – no erro.