Categoria: ABUTRES/2SEM2016

O novo Bebê Johnson

Por Fábio Gomes

É inegável que a publicidade e a propaganda vêm sendo fortemente questionadas com relação ao seu papel na sociedade. O grande problema é que a maioria das marcas ainda não conseguem pensar a publicidade além da simples divulgação de seus produtos/serviços. Por outro lado, algumas empresas já estão entendendo que os resultados são melhores, econômica e socialmente, quando essas ferramentas são usadas também como um modo de provocar uma reflexão em cima das significações.

Dentro dessa ideia, foi ao ar nessa segunda-feira. dia 9 de maio, o novo comercial da linha de produtos infantis da marca Johnson’s. Como o tradicional, o vídeo apresenta o novo “bebê Johnson”, através de cenas que mostram os pés, mãos, braços e outras partes do corpo do bebê. A diferença se faz quando o comercial mostra o rosto do novo representante da marca: uma criança com síndrome de Down.

A campanha foi elaborada pela agência DM9 e faz parte de uma homenagem ao dia das mães. Na propaganda, o discurso é concluído com o seguinte slogan: “Para nós e para todas as mães, todo bebê é um bebê Johnson´s”.

O interessante dessa proposta é a quebra de representatividade midiática de pessoas com síndrome de Down, deixando de lado todas as questões sempre diretamente associadas ao grupo, como dificuldades mentais e limitações físicas. No fim, sem esforços, a campanha retrata apenas outro bebê fofo.

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O furo

Anos atrás, ainda estagiária, acompanhei uma equipe de reportagem na cobertura de um julgamento muito esperado na cidade. Toda a imprensa estava lá, só se falava disso a semana toda. A caminho do Fórum, recebemos uma ligação mudando a nossa pauta. A mando do dono da emissora, em vez de noticiar o julgamento, iríamos ao comitê de um político para divulgar a sua “não candidatura”. Parecia pegadinha… mas não era. Esse foi o meu primeiro contato com a política interferindo no jornalismo. Isso me fez descrente? Não exatamente… E eu explico o porquê.

Trabalhei em afiliadas por mais de dez anos. E foi nessas emissoras que aprendi a ter garra como jornalista. Histórias como essa do julgamento não aconteceram mais dessa forma descarada, mas coleciono várias outras bem parecidas – e pra ser bem precisa, elas ocorreram mais pelo interesse pessoal de alguns funcionários do que propriamente por uma linha editorial. Por outro lado, tenho capítulos muito mais emocionantes sobre a busca por uma boa reportagem, por belas imagens, por informações difíceis de conseguir e realmente importantes para divulgar. Quando se trabalha com equipes engajadas, apaixonadas, os “poréns” da profissão ficam de lado muito facilmente. Quando as matérias boas são conquistadas, quando elas fazem diferença na vida de alguém, quando a gente assiste o material pronto, sabendo de todo o trabalho que deu pra conseguir cada virgule e percebe que vale a pena, isso faz toda a diferença para um jornalista…

Nesse tempo de profissão vi muitos colegas, principalmente de outras emissoras, falando sobre os absurdos das condições em que trabalhavam. Não só por causa da estrutura das empresas, mas pela forma como eram obrigados a conduzir algumas reportagens. Isso, apenas quem conviveu dentro desse meio sabe. O público não. Quem dá audiência ou reclama dela, frequentemente só consegue julgar os profissionais, mas dificilmente conhece os contextos de trabalho.

Claro que esse é apenas um ponto de vista… Não é possível generalizar nem ignorar reportagens que passam dos limites, como uma feita por celular, de dentro do velório de algumas das vítimas do voo da Chapecoense. Jornalistas cometem abusos, empresas de comunicação se associam a políticos, o público tem dificuldade de interpretar o que lê e o que vê, e em qualquer situação, o julgamento cruel sempre aparece. Passamos por um período de mudança tão intenso que estamos todos meio confusos. Acredito que toda crise antecede transformações positivas, o problema é saber quando elas virão. Os desafios jornalísticos para o futuro são claros, mas descobrir o que faremos para mudar esse quadro será o nosso maior furo.

Então, é Natal… Então, é consumo!

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Desde de pequenos esperamos ansiosamente pelo Natal. Essa é uma celebração bastante aguardada no ano para os ‘cristãos’. A família se reuni e o clima de amor se instaura, até o momento em que você abre o seu presente do amigo-secreto e o detesta. Esse é apenas um exemplo do consumismo que nos domina nessa data.

Quando crianças até que aprendemos sobre o nascimento do menino Jesus, ao mesmo tempo que nos ensinam a se comportar em troca do presente do Papai Noel. A contradição desses ensinamentos são óbvios, mas ao mesmo tempo, fingimos não ver.

Nessa época do ano o foco tornou-se somente comercial. O consumo é desenfreado. E claro, tudo aumenta de valor!  Você se vê obrigado a comprar inúmeros presentes, comprometendo o seu dinheiro para satisfazer o desejo alheio e o seu de se fazer importante para alguém através de algo material. E para quem não tem condição, fica o sentimento de vazio, você quase que se culpa e o real sentido do Natal acaba sendo esquecido.

Fomos ensinados a consumir, algo que parece que já nasce com a gente e que é quase impossível reverter. O jeito talvez seria exatamente mudarmos a maneira como colocamos o Natal para os pequenos e ensinar que coisas materiais são necessárias, mas são as menos importantes que precisamos ter.

 

Existe o jeito errado de lidar com a dor?

Diante das recentes inúmeras noticias que tem sido publicadas sobre o trágico acidente com a Chapecoense, duas delas me levaram a uma reflexão sobre como cada um tem o seu modo de lidar com a dor e também como a comoção pode gerar diferentes comportamentos.

Alaide, mãe do goleiro Danilo Padilha, uma das vitimas fatais, após ceder entrevista ao repórter Guido Nunes , o surpreendeu ao questioná-lo sobre como estava se sentindo por perder alguns amigos de profissão. Emocionados, os dois se abraçaram. Algo tão comovente, nos tempos atuais, não teria como não virar notícia e se viralizar. A força dessa mãe virou ‘exemplo a ser seguido’.

No domingo (04), a noticia da confusão no velório do lateral-direito Gimenez. A esposa do jogador Patrícia solicitou que o local onde o corpo estava sendo velado fosse reservado para ela por 15 minutos, onde a mãe dele também ficou. Pouco depois, cerca de dez minutos, a mãe de Gimenez abriu o portão e liberou a entrada dos torcedores, familiares e amigos. Foi então que se desentenderam e tiveram de ser apartadas pelos presentes. Talvez a esposa tivesse sentido que foi pouco tempo para a sua despedida e talvez para  a mãe seria só prolongar o sofrimento e resolveu acabar logo com aquilo, talvez.

Com essas diferentes posturas, passei a questionar como a dor, o luto, é algo muito pessoal. A comoção, o tumulto, podem ser influenciadores neste momento tão delicado, estão todos a flor da pele e tentando de alguma maneira extravasar. Não se sensibilizar com esses fatos e julgar o sentimento do outro é quase que se ‘desumanizar’.

Por Muriel Monteforte

A notícia que não queremos dar

A dor de noticiar a morte de um colega de trabalho é inexplicável. Mas tem coisas que a gente não precisa mesmo explicar. A gente sente, e quem assiste ou lê uma reportagem dessas percebe e sente junto… Nessa tragédia com o avião da Lamia foram inúmeros esses momentos.. Pra mim, particularmente, foi impossível ver o jornalista Ari Peixoto chorar ao falar da liberação do corpo do colega Guilherme Marques e não chorar junto. Passou um filme na cabeça…

Quase 12 anos atrás, quando eu ainda morava e trabalhava em Juiz de Fora, minha equipe foi pautada para cobrir a morte de um homem, funcionário de uma serralheria. Nós nunca podíamos imaginar que acabaríamos cobrindo a morte de um homem sim, mas outro, um jornalista amigo de todos. Durante a nossa pauta inicial tivemos problemas e ligamos para a redação. Entre várias gaguejadas do outro lado da linha, ficamos sabendo de um “possível acidente fatal com o Antônio Marcos”, nosso companheiro de trabalho.

Aquela notícia era tão absurda, tão improvável, que a minha primeira reação foi negar. O repórter cinematográfico, então, pegou o telefone e ligou para polícia rodoviária. Confirmou a informação. O Antônio, que tinha acabado de ser pai, morreu num acidente de carro a caminho de Ubá, cidade próxima, onde ele dava aula de jornalismo. Eu sentei no chão e chorei horrores. Voltamos pra redação e todos estavam completamente atônitos. A nossa chefe disse que o RH estava cuidado de tudo e acrescentou algo como “precisamos enviar alguém”. A minha equipe foi. De todas as reportagens que fiz na vida, todas as tragédias, mortes, rebeliões, tiroteios, nenhuma foi tão dolorida quanto cobrir a morte, o velório e o enterro de um companheiro tão querido.

Se há um lado “bonito” nesses momentos, esse lado é a união que se forma. No mesmo instante em que vi a metade que restou do Ford Ka do Antônio, uma das editoras mais queridas que já tive, a Fia, me ligou. Eu só chorava. Ela falou firme comigo e me ajudou a ficar mais equilibrada para trabalhar. Anos depois ela se emocionou lembrando disso e falou que na redação todos estavam destruídos também, claro, e que precisávamos ser fortes. É verdade. O Antônio era respeitado demais pelo público, pelos outros veículos, pelos atletas…. Ele era a cara do jornalismo esportivo na região. Produzia, editava, reportava, apresentava o nosso Globo Esporte. A gente tinha que noticiar. E para colocar os jornais no ar foi um mutirão! Apareceram amigos que nem trabalhavam mais em Juiz de Fora. É uma união emocionante demais. Com certeza as redações desses mais de 20 jornalistas mortos no acidente da Colômbia também precisaram de mutirões esses dias.

Não dá pra acompanhar uma tragédia sem refletir, pesar o que tem ou não valor na vida, ou sem se solidarizar com os que ficam. Nunca escrevi sobre o Antônio Marcos antes, mas lembro dele e da família sempre. Desejei imensamente que tivessem forças para superar a perda. É exatamente esse sentimento que transmito hoje para todos os que perderam seus filhos, maridos, irmãos, pais, amigos. Que todos sejam devidamente assistidos, que as autoridades cumpram os seus papéis e que gente consiga ser mais solidário todos os dias. Ninguém sabe o que pode acontecer daqui a pouco…

Cadê o bom senso?

Por Carolina Munhoz

Não são apenas os chamados abutres da imprensa que se aproveitam de tragédias para obter vantagens. A empresa Netshoes deixou todos perplexos após aumentar o valor das camisas do time Chapecoense, no mesmo dia em que o acidente aéreo aconteceu. A equipe viajava para Medellín, na Colômbia, para disputar a final da Copa Sul-Americana.

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Em uma mensagem no Facebook, a empresa se justificou colocando a culpa na Black Friday:

“Em virtude da Black Friday, a camisa da Chapecoense estava com preço promocional e, na manhã de hoje, teve suas últimas unidades vendidas por R$ 159,00. Com o esgotamento do produto, por uma programação de sistema, o valor retornou ao preço original R$ 249,00, junto com o alerta de indisponibilidade do produto. Reiteramos que no momento estamos sem estoque do produto e que, em nenhum momento houve intenção de aumento do preço. Com o objetivo de sermos transparentes ajustamos manualmente o preço do produto para o valor inicial, embora o mesmo esteja indisponível. A Netshoes lamenta profundamente o ocorrido e se solidariza com todos os familiares, torcida e amigos dos envolvidos neste episódio.”

O pedido de desculpas não foi muito bem aceito, no Twitter os usuários começaram uma campanha de boicote à empresa. Será que eles acharam que ninguém perceberia o aumento do valor?

O site Catraca Livre também gerou muita revolta após a publicação de vários conteúdos considerados insensíveis e impróprios para o momento de luto.

O criador do site, Gilberto Dimenstein, também se desculpou publicamente relatando a discordância dos outros jornalistas do site, em relação às publicações:

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O público não parou com as críticas fazendo uma campanha contra o Catraca Livre para diminuir o número de seguidores da página. Além disso, milhares de mensagens foram despejadas na página pessoal de Gilberto que chamou o protesto de Insanidade Digital, dizendo que as redes sociais são um grande instrumento de ódio.

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O episódio “Odiados Pela Nação” da série Black Mirror mostra bem esse chamado julgamento digital que as pessoas fazem em torno de algum acontecimento negativo. Ao que me parece as desculpas na rede, não são suficientes.

A abordagem sexista na publicidade e produtos

Por Carolina Munhoz

Não é de hoje que a representação da mulher na mídia é estereotipada e desrespeitosa. Um grande exemplo disso são alguns produtos de uso geral que são separados por gênero. Os femininos na maior parte das vezes, na cor rosa.

Um estudo publicado pelo Departament of Consumer Affairs (DCA) da cidade de Nova Iorque, confirmou que os produtos direcionados para o público feminino são na maior parte das vezes, mais caros do que os mesmos vendidos para os homens.

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Além de a mulher receber muitas vezes menos que os homens, elas ainda pagam mais caro para adquirir os mesmos produtos.

O dia da mulher e o dia das mães, por exemplo, sempre associam o gênero feminino com trabalhos domésticos. As propagandas são sempre voltadas para produtos e eletrodomésticos para facilitar a limpeza da casa ou até mesmo utensílios de cozinha, como se apenas as mulheres fizessem esse tipo de trabalho, como se aquilo, fosse um presente maravilhoso para a mulher.

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O próprio ministério da justiça trouxe uma campanha nas redes sociais insinuando que a mulher é culpada por vazamento de fotos na internet quando ela bebe.

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Somos representadas como seres não pensantes, únicas responsáveis pela limpeza da casa, fúteis e culpadas pelos assédios que sofremos.

As redes sociais estão ajudando cada vez mais nas críticas e ao combate de publicidades com esta abordagem. Nesta semana a loja Dafiti deixou todas as mulheres indignadas com uma camiseta à venda que relacionava mulher burra com pleonasmo (vício de linguagem marcado por redundância).

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Após o caso viralizar na internet, a loja tirou o produto do site. Em nota de esclarecimento a empresa divulgou o seguinte comunicado:

“A Dafiti lamenta o ocorrido e esclarece que não compartilha a mensagem expressa no produto em questão e repudia qualquer tipo de manifestação de preconceito e discriminação. Somos uma empresa comprometida em oferecer a melhor experiência de compra online, por meio de marcas e serviços que promovam o acesso a moda a todos os consumidores. Acima de tudo, apoiamos a igualdade de gênero e a diversidade. Acrescentamos ainda que o produto foi disponibilizado para venda por um de nossos parceiros. Tão logo tomamos conhecimento, descredenciamos a marca e seus produtos. Pedimos desculpas a todas nossas clientes.”