Categoria: ABUTRES/1SEM15

A comunicação corporativa e as incertezas do cotidiano

Fernanda Marques

O Capítulo V do livro “Os sete saberes necessários à educação do futuro” – “Enfrentar as incertezas”, da autoria de Edgar Morin, aborda as incertezas e improbabilidades que nos rondam e a importância de estarmos preparados para lidar com elas. O texto deixa claro que toda ação, em qualquer circunstância e por mais bem planejada que seja, não tem garantia do resultado esperado.

Trabalhando com comunicação corporativa desde o início da carreira, há 13 anos, é impossível refletir a respeito do tema sem associá-lo ao meu dia a dia. A incerteza está presente em todas as situações do cotidiano, até nas mais simples.

Uma prática comum entre as grandes empresas, por exemplo, é manter um manual de crise na gaveta, com todos os caminhos possíveis para diversos acontecimentos hipotéticos, desde os mais adversos até os mais previsíveis. No entanto, quando o incidente realmente ocorre, as estratégias traçadas no plano sofrem todas as influências do momento e, obviamente, as soluções nem sempre são alcançadas.

É por isso que, muito além de estarmos preparados para o inesperado, precisamos estar conscientes de que ele vai nos atingir. E que, talvez, essa seja uma oportunidade para buscar ou criar novos recursos. Não temos ouvido tanto ultimamente que é na crise que se cresce?

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Pão e circo!

Por Juliana Lanzuolo

O que a Montanha dos Sete Abutres e a comédia Maluca Paixão tem em comum?

Protagonizado por dois grandes nomes do cinema Hollywoodiano, Sandra Bullock e Bradley Cooper são, respectivamente, uma jovem que trabalha com palavras cruzadas para um jornal e um rapaz, que trabalha como cinegrafista para um repórter famoso da CCN americana.

No começo do filme, eles são apresentados por seus familiares e acabam tendo um encontro frustrado. Ainda assim, Mary (Sandra Bullock), passa a perseguir Steve (Bradley Cooper) crendo que ele é sua alma gêmea e que está apenas se fazendo de difícil para ficar com ela.

A partir dai, começa uma perseguição obcecada por parte da Mary. Não importa o local ou cidade que o cinegrafista está trabalhando com coberturas sensacionalistas, ela vai atrás. Ele, por sua vez, foge dela e se apavora. Crê que ela seja uma louca

.all-about-steve111510Imagem: Fox Filmes

Em determinado ponto da comédia, o cinegrafista, junto com o repórter da CCN, estão cobrindo a queda de um grupo de crianças com deficiência auditiva em uma mina desativada. As crianças, em determinado ponto do enredo, são resgatadas pelos bombeiros. Quando Mary vê Steve sai correndo atrás dele e cai no buraco da mina do nada.

Para a surpresa de todos, ao se comunicar com os bombeiros, Mary informa que ainda há uma criança na mina. A partir daí, o repórter da CCN junto do Steve transformam-na em heroína. Todo o país passa a acompanhar o resgate da jovem, que segundo eles, se atirou de propósito na mina para salvar a última criança com deficiência auditiva.

Nesse momento, algo semelhante acontece com a Montanha dos Sete Abutres, o cenário da mina, o posicionamento do jornalista, as pessoas ao redor do buraco, tudo, remete ao filme dirigido por Billy Wilder. A jovem apaixonada, deixa de ser tratada como uma louca, para ser transformada por àquele que a taxou como louca em heroína.

No final da história, a criança é salva. A jovem é resgatada com ferimentos superficiais e absorvida do julgamento de sua “insanidade”. Já o repórter e o cinegrafista são considerados os melhores da TV. Pão e circo! A TV tudo pode, tudo manipula e distorce conforme seus interesses mais sombrios.

A intertextualidade de Maluca Paixão com o filme a Montanha dos Sete Abutres mostra que é possível trabalhar de diferentes formas e gêneros cinematográficos um clássico do cinema.

Humanização e os fundamentos de Hipócrates

Por Juliana Lanzuolo

 

O termo Humanização tem sido aplicado com frequência na área da saúde. Ora para caracterizar um tipo de parto ora para evidenciar alguma ação promovida pela equipe de saúde atrelada ao bem-estar do paciente. Embora o conceito não possa ser cravado em uma fórmula estática, em geral, é caracterizado como uma diretriz de trabalho associada ao reconhecimento dos direitos do paciente, de sua subjetividade e referências culturais.  Implica ainda na valorização do profissional e do diálogo entre equipes multidisciplinares. Esse conjunto de iniciativas dá voz a demandas antigas na saúde como a democratização das relações que envolvem o atendimento e reconhecimento das expectativas dos próprios profissionais e as dos pacientes, como sujeitos do processo terapêutico.1

A disseminação das práticas de Humanização tornou-se mais incisiva após a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), aprovada em 1988. A legitimidade da temática ganhou novo status quando, em maio de 2000, o Ministério da Saúde regulamentou o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) e a Humanização também foi incluída na pauta da 11a Conferência Nacional de Saúde, realizada em dezembro do mesmo ano. O PNHAH constitui uma política ministerial bastante singular se comparada a outras do setor, pois se destina a promover uma nova cultura de atendimento à saúde no Brasil.

No entanto, o conceito não é novo. O filósofo grego Hipócrates, conhecido como Pai da Medicina, cravou fundamentos impregnados de Humanização e que até hoje figuram no juramento que leva o seu nome dos médicos recém-formados.

Para tratar doenças da época, como a epilepsia, Hipócrates considerava alguns fundamentos, como por exemplo, acreditar que a palavra curava. Neste sentido, buscava-se valorizar a história do paciente como base do tratamento para que o médico pudesse ver além da doença. O médico hipocrático não deve tirar a esperança de cura ainda que não tenha mais recursos terapêuticos, acredita que o uso de música e poesia no tratamento cria um canal para o restabelecimento do paciente. Esses e outros preceitos coincidem com os preceitos que compõem o conceito que hoje é aplicado em hospitais referência em tratamento de doenças crônicas em Pediatria, como por exemplo, o Pequeno Príncipe.

Além da equipe especializada e tecnologia de ponta, a instituição, localizada em Curitiba (PR), conta com 500 voluntários que compõem a Humanização. “Com as crianças, a essência do trabalho é o brincar pelo brincar. As atividades não têm cunho pedagógico nem o objetivo da psicologia, que visa por meio do lúdico um esclarecimento do momento vivido pela criança. Aqui se ela não percebe que pode brincar passa a enxergar o hospital só como procedimento e dor”, explica Rita Lous, psicóloga e coordenadora do voluntariado.

Por meio de atividades lúdicas o hospital aplica e aprimora os conceitos hipocráticos e confere resultados gratificantes. “Nos últimos vinte anos, o hospital constatou que tais ações colaboraram para que o período de internação dos pacientes caísse de 12 dias para 4,5, em média”, conta Rita.

 

 

Referências de pesquisa

1 – Artigo “Análise do discurso oficial sobre humanização da assistência hospitalar” – Suely F. Deslandes

Afinal, o que buscamos?

Por Giovana Alfredo

Sou de uma cidade interiorana do Estado de São Paulo. Bragança Paulista. Terra da linguiça e do meu querido bragantino. Lugar (que já foi) calmo, com ritmo e tempo muito diferentes de São Paulo capital.

Bragança sempre foi o lugar que nasci e que sempre quis sair, pois acreditei que não me proporcionaria o tão almejado sucesso financeiro. “Cidade parada, com comércio ruim e gente folgada”. Dizia folgada justamente pelo marasmo, aquele em que a pessoa julga apropriado parar o carro no meio da rua em movimento para “resolver uma coisinha rapidinho” e deixar os outros veículos esperando por tempo indeterminado. Não entendia essa dinâmica. Queria mais. E por querer demais, acabei parando na maior cidade do Brasil, quiçá do mundo.
São Paulo prometia o emprego bom e bem pago. Qualidade de vida: cinemas, teatros, exposições, eventos gratuitos, shows, cursos livres, bons restaurantes e por aí vai. E escondia o que eu menos esperava: emprego bem pago, mas cansaço imenso para curtir a tal qualidade de vida. Cidade bairrista, onde é necessário um planejamento de meses para encontrar um querido amigo. Motivo? Horários não batem, distância preguiçosa e fadiga social. Sucesso financeiro? Pra quem vem do interior e tem que encarar os caros aluguéis, milagre. Cidade “carista”, onde o planejamento financeiro tem que ser baseado na sobrevivência e não nos grandes saltos.
Trabalha-se demais e cada vez mais para encontrar o que chamamos de melhor cargo, melhor salário, para ter – o que mais uma vez chamamos de – melhor qualidade de vida, mas depois de um certo tempo vamos notando que o trabalho é excessivo demais para o aproveitamento dos seus frutos. E agora?
Como Zé Fernandes, sinto-me em a Cidade e as Serras. Agora o cinza do céu paulistano parece dominar as palavras aqui ditas. Agora Bragança, a cidade parada e caída, parece ser o refúgio mais apropriado para alguém que sempre buscou e só agora entendeu o que realmente podemos chamar qualidade de vida. Céu bonito, comida boa (e barata), verde e verdade!

Luz na passarela, PM chegou, tudo vazou

Por Marina Tarabay

Sobre a Avenida Eusébio Matoso, no ponto de ônibus do Shopping Eldorado, próxima à estação de trem Hebraica-Rebouças, há uma  passarela.

Bem equipada, moderna, tem elevador, escada rolante e muita gente passando.

Tem dia, que na passarela tem vida, tem dia que tem segurança.

Tem dia que tem gente vendendo capa de celular, roupa, chocolate, chiclete, refrigerante. Sempre tem muita gente parada, observando a mercadoria, barganhando, negociando um desconto, dois, cinco reais. Com o ônibus a três, não tá fácil pra ninguém.

Em terra da garoa,  quem salva é o vendedor de guarda-chuva, que nos dias em que as condições climáticas favorecem, inflacionam a mercadoria  em 200% e ficam na entrada da passarela cobrando a bagatela de 10 reais. Tem de todas as cores.

Quem vai da passarela pro shopping sempre compra, mas os que precisam fazer o caminho contrário, do shopping pra passarela, não tem a mesma sorte. Não há ninguém vendendo guarda-chuva na porta do Shopping Eldorado, não pode. Só as lojas podem vender. Apesar de não inflacionarem os preços por causa da chuva, eles não são nada atrativos para os trabalhadores paulistas.

Tem dia que, na passarela, tem hippie fazendo e vendendo artesanato, pulseirinha de macramê, brinco de coquinho, artistas malucos de estrada tocando violão, tocando Raul.

Mas tem dia, que não tem nada disso, não tem comércio, não tem arte, tem segurança.

Nesses dias, tem polícia militar, PM. Geralmente dois ou três, parados conversando, a mão na arma.

Quando tem PM, não se escuta música, não há ninguém tocando violão, negociando preço, gritando suas ofertas, nem Raul, nem nada. Só o que tem é o som da avenida que passa embaixo. Ônibus freiando, depois acelerando. Uma buzina ali, um celular que toca aqui.

“Polícia é, assim, um organismo criado pelo grupo para garantir a coesão e o bem comum da própria sociedade.” Essa é a definição do site da Polícia Militar de São Paulo. É assim que esses PM’s se enxergam.

A definição da PM do meu dia-dia, como eu os enxergo pela ótica da minha rotina, é de que a polícia é assim, um organismo criado por um grupo para garantir que pessoas não possam vender coisas que outras pessoas querem comprar, hippies não possam fazer e vender artesanato para os que querem e um artista não possa cantar em alto, bom e levemente desafinado som “Faz o que tu queres pois é tudo da lei”.

Que difícil ter tempo livre em SP

Por Marina Tarabay

É sem escutar seus pensamentos que abriu o Word para escrever uma crônica. O vizinho de cima martelava e manobrava uma furadeira com fúria e objetividade. O barulho era absurdo, mas permitido pelo horário.

Eram 11 da manhã e seu único compromisso do dia era uma entrevista de emprego às 17h.

Abriu o site do Cine Livraria Cultura, viu que uma sessão de A grande beleza teria início às 13h50. O filme lhe interessava muitíssimo, perfeito! Assiste ao filme e depois vai à entrevista.

Pensando bem, 13h50, é quase 14h, se o filme durar mais de duas horas, sairia depois das quatro e teria menos de uma hora para chegar ao local da entrevista que não é muito próximo ao cinema. É férias, não há trânsito, mas quem vive em São Paulo nunca se acostuma com isso de não ter trânsito. É sempre bom dar uma hora para percorrer qualquer trajeto. Uma hora e pouco é o ideal.

Ela lembra que nestes tempos de descanso generalizado ela tem chegado cerca de 47 minutos adiantada nos compromissos importantes. Nos encontros informais com amigos e namorado ela chega na hora exata, já que saiu mais de meia hora depois do que planejava.

Enfim, A grande beleza tem duração de pouco mais de 140 minutos e de fato, a sessão terminaria depois das 16h. Ela desiste.

Perdida no tempo e na internet, ela lê três crônicas na página da Folha. Pelo Facebook ela escreve para uma amiga que vai viajar amanhã. Seu namorado manda um “oi” no chat. Ela lhe conta sobre os planos frustrados de ir assistir ao filme na Paulista.

Ele sabe dos compromissos da moça e sugere outro filme, noutro horário também na Paulista. A sessão começa às 13h e o filme dura menos de duas horas. Mas agora já são 10 pro meio dia, resta apenas uma hora para que a moça tome banho, vista a roupa, arrume uma bolsa, almoce e consiga chegar no cinema. É tempo suficiente, mas ela teria que fechar o computador agora e apressar-se! Não consegue, nem chega a levantar-se da cadeira, em uma linha despede-se do namorado, na de baixo dá oi novamente.

Ele compreende perfeitamente a falta de capacidade de sua amada de sair correndo neste calor de 40 graus que faz. Lembra-se que esta com ela um pen drive que guarda um ótimo filme, O anti-herói americano. Foram três as tentativas do casal de ver o filme junto. Ela dormiu em todas. Ele insistia frustrado em todas: “Esse filme é foda! Tenta assistir um dia de tarde, sem sono, descansada!”

Sugestão perfeita, não tomaria tempo, não tem horário para cumprir, é só espetar o pen drive na televisão e voilà! Em uma frase ele resolve o problema dela. Ela lê a sugestão do namorado e escreve rapidamente a resposta:

– Seria perfeito mesmo, se o vizinho de cima não tivesse martelando e derrubando paredes com a furadeira. O barulho aqui é imenso, mal consigo ouvir meus pensamentos.

Ele lamente, poxa, realmente, este caso de tempo livre trata-se de um problema grave. Ao receber uma resposta que não apresenta mais nenhuma solução para a situação que vive, a moça desabafa:

– Como é difícil ter algumas horas livres em São Paulo. Que difícil ter tempo livre em SP.

Ele sorri e responde:

– Cheiro de crônica isso.

O barulho que toma conta do ambiente de seu apartamento impede sua audição, mas não seu olfato, ela também sente cheiro de crônica e apesar de não conseguir ouvir seus pensamentos, abre o Word.

Juventude latina

Por Marina Tarabay

Ela ocupava o lugar do motorista e sua mãe o de passageiro do velho Fiat Uno. Tocava no rádio algo que a jovem condutora, no auge de seus 25 anos, tinha certeza ser somente de seu agrado.

Sensibilizou-se com a audição de sua mãe e procurou um CD que agradasse as duas gerações ali presentes.

Secos e Molhados foi sua escolha.

Assim que começa a soar o baixo e a percussão de Sangue Latino, sua mãe comenta:

– Essa música é linda.

– É muito.

– Eu vi esses caras ao vivo. Tive essa honra.

O péssimo trânsito de SP é ótimo para curtir um som e enquanto o carro não anda, a mãe passageira corre pelas lembranças de cada detalhe do show enquanto canta junto com Ney Matogrosso.

Nesse dia não foi tão doída a passagem, que costuma durar uma hora, pelo mar de carros que se forma todos os dias pontualmente às 18 horas na Avenida 23 de Maio. Ela enfrenta isso diariamente. Sua mãe fala pausadamente mas sem parar, tudo o que lembrava do show.

Fora em Santos, onde ela morava na época. O local era um clube, que chamava Vasco da Gama. Estava abarrotado. O vira era a música principal do disco e quando tocavam essa música o Ney dançava o vira mesmo. Sem camisa, ele tinha um corpão, tem até hoje né? Engraçadíssimo. Muito doidos. O guitarrista era bonito.  Que honra ter estado lá. Foi um showzaço.

O showzaço foi em 73, 74 ou 75, não tinha certeza, não importa. Importante é que venceram o trânsito e já estavam em casa, quando a jovem, sozinha em seu quarto, buscava no Youtube um vídeo do show dos Secos e Molhados no clube Vasco da Gama de Santos 73 74 75.

Encontra apenas alguns vídeos de qualidade ruim de uma apresentação no Maracanãzinho, outros de um programa na TV Cultura e outras coisas nada a ver. Dá um google em “apresentações Secos e Molhados”, pula a wikipédia e lê alguns textos. Nenhum deles emociona como a descrição de sua mãe. Desiste.

Coloca o disco para tocar no iTunes mesmo, deita na cama e acende um cigarro. Para ela, as lembranças de sua mãe eram o mais próximo que chegaria do show dos Secos e Molhados no clube Vasco da Gama, em Santos, no ano de 73, 74 ou 75.

Ouviu o disco 17 vezes seguidas e fumou 10 cigarros. É importante ser jovem e lembrar-se de viver como tal.