Categoria: 1984/2SEM14

Pra não dizer que não falei das flores….

Eliane Freitas

Sou uma pessimista. Tudo o que escrevi resume-se a críticas destrutivas à nossa sociedade e ao sistema sob o qual vivemos. Portanto, agora quero falar de algo bonito. Quero falar da doçura que capto nas palavras de Orwell, em 1984, e nas imagens do escritor. Sim, as imagens que tanto representam para nossa sociedade não poderiam deixar de me cativar.
Gosto da sensibilidade de Winston ao não ignorar seus questionamentos e sentimentos. Gosto das lembranças que ele mantém de sua mãe e irmã e do relato do amor vivo, mesmo em condições degradantes e quando o único alimento disponível acaba e a fome dos filhos persiste. “Quando você ama alguém, ama essa pessoa e mesmo não tendo nada a oferecer, continua oferecendo-lhe o seu amor. Como não havia mais chocolate, a mãe abraçara a filha com força” é o trecho de 1984 que melhor relata isto.
Admiro a coragem de Winston em arriscar a vida ao decidir enfrentar o regime dominante, ainda que eu saiba que tal atitude é pilar fundamental para que o romance exista. Me agrada a afeição que ele nutre pelo proprietário do antiquário que lhe alugará um quarto e que mais tarde, para minha surpresa, se revelará um traidor. Compreendo perfeitamente Winston quando, no aconchego do quarto alugado secretamente, ele se sente confortável por poder ler com conforto e segurança, pois estava realmente sozinho e sem ser espionado.  Eu também pude sentir o conforto dele, visto que o romance me angustiava e fazia sentir-me presa ao mundo do protagonista.
E gosto do olhar de George Orwell, suas fotos com animais e com o filho adotivo, Richard Orwell. Apesar da decepção com a prática do regime que defendia, apesar dos horrores presenciados na Guerra Civil Espanhola e da saúde precária, apesar da pobreza e dificuldades por ele vividas em Paris e Londres, Orwell ainda era capaz de exprimir amor e ternura nos olhos, e de alertar a humanidade, com obras tão impactantes.
E deve ser toda essa ternura que permite que prossigamos, apesar de tantas dificuldades e que pode, quem sabe um dia, tornar o mundo um lugar melhor para vivermos.

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Aos dominados, as meias verdades.

Por Eliane Freitas

1984, a obra da George Orwell, será sempre atual, com maior ou menor intensidade, pois retrata o ser humano, tanto o mais forte e inteligente quanto o mais fraco e possuidor de menos conhecimento. Não importa o regime ou o período da história da humanidade, sempre houve o dominante e o dominado, o fraco e o forte.
Se a semelhança com a atualidade impressiona a muitos, deveria impressionar também a descrição pelo autor daquilo que deverá sempre existir: a minoria que domina e a maioria dominada, esta muitas vezes sem ao menos se dar conta da questão. Como na teoria darwiniana, os que não se adaptam ao ambiente são extintos ou, no caso do Homem, subvivem do modo escolhido pelo grupo dominador.
Na obra de Orwell, o modelo da mídia, esta importante ferramenta de domínio, era estipulado pelo Partido do Grande Irmão que a manipulava pelo sabiamente chamado “Ministério da Verdade”. Noticiava-se o que era conveniente – verdades ou não – e alteravam-se notícias já divulgadas segundo a necessidade de eliminar equívocos cometidos pelo regime dominante. As teletelas, meios de divulgação de informações, também captavam cada movimento do cidadão. Cartazes gigantes e o prédio piramidal do Ministério da Verdade, o destacável edifício oficial – assim como as grandes catedrais cristãs – lembravam a todo cidadão do poder do Grande Irmão, embora ninguém o conhecesse pessoalmente.
Se em 1984 a maior ambição era o poder pelo poder, em nossa sociedade o poder é um meio de alcance daquilo que mais se deseja, a riqueza, o objetivo final do capitalismo. E, como na ficção de Orwell, a mídia é um poderoso meio de convencimento de que este sistema é o melhor para todos, ainda que isso implique em pobreza para a maioria, precárias condições de vida, destruição do planeta em que vivemos e a transferência de serviços essenciais  – como educação e saúde – para o setor privado, aquele mesmo que só busca o lucro, a qualquer custo. Nossa mídia não é tão livre quanto pensamos, mesmo a dos que vivem sob um regime democrático. Dominada por poucos grupos com grande poder aquisito, nossa mídia é refém dos interesses capitalistas. Assim como na sociedade criada por Orwell, nos contam meias verdades, as convenientes.

O peso da mídia em nossa sociedade.

Eliane Freitas.

Se há exatos cem anos o estopim para o início de uma guerra mundial foi o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro e de sua esposa, em 2014 ameaças entre nações acontecem devido a uma comédia.

No filme “A Entrevista”, produzido pela Sony Pictures, dois jornalistas americanos tem a missão – bem sucedida – de assassinar o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-um.

O país comunista interpretou o filme como uma ofensa ao seu mais alto dirigente e chegou a classificá-lo como um ato de terrorismo e guerra. Em seguida, hackers invadiram as redes de computadores da Sony e tiveram acesso a filmes inéditos, projetos de novos trabalhos, senhas da empresa – inclusive de cartões de crédito -, informações pessoais de funcionários e atores, entre outros. A Sony, diante deste ataque cibernético ocorrido em outubro – cuja divulgação das informações confidenciais começou no início de dezembro –  e das ameaças de ataques aos cinemas que exibissem o filme, chegou a cancelar a estreia do filme, prevista para o dia 25 de dezembro. O ataque pode resultar em um prejuízo financeiro para a Sony entre USD 100 a USD 200 milhões segundo especialistas e, embora o FBI acuse a Coréia do Norte pelo crime, provas de sua autoria ainda não foram apresentadas.

Este fato ressalta, além da diferença cultural entre ocidentais e os norte-coreanos – quem no Ocidente interpretaria um filme como ameaça de guerra? -, o peso da mídia nos dias atuais, permitindo que uma obra de ficção desperte, de um lado, a ira do ditador de um país isolado e, numa reação em cadeia, a possibilidade de vingança ao ataque cibernético por parte da potência econômica e militar norte-americana. Outro ponto a ser observado foi o quase cancelamento da estreia do filme pelos produtores, interferindo assim na liberdade da mídia e da população.

Vivemos tempos em que as imagens circulam por todo o planeta podendo carregar ideais a serem disseminados, por mais que pareçam despretensiosas. Hoje, a mídia e seus produtos são tão poderosos que podem influenciar comportamentos, determinar o que é discutido em sociedade – ponto positivo para o tão comentado filme da Sony! – e deflagrar conflitos.

Selfie: nossa auto propaganda.

por Eliane Freitas

Minha colega ficou indignada com pessoas tirando selfie na exposição do Castelo Ra Tim Bum e que, ao que parece, não tinham a intenção de ler ou refletir sobre o que viam. E muitas outras pessoas ficaram também indignadas – e manifestaram o sentimento na rede – quando flagraram transeuntes da cidade de Sydney, na Austrália, tirando selfies em frente ao Café Lindt, no momento em que um fundamentalista islâmico mantinha em seu poder 17 reféns.

ARQUIVO PESSOAL

           Fonte: Reprodução/Estadão

Como bem observou Zygmunt Bauman, hoje somos mercadorias. É preciso se expor, mandar a todos os cabos, satélites e servidores de rede que sim, você estava lá, bem naquele momento. Você tem dinheiro, inteligência ou sorte por estar lá e precisa que todos saibam disso! Sim, você viu a Mona Lisa, lá no Louvre, aquela obra tão comentada, tema de tantos artigos – que você nem tem paciência pra ler. Sim, viu pessoalmente (ou, em muitos casos, através do tablet que você ergueu para registrar o momento).

É preciso lembrar a todos que, em alguns momentos, convém utilizarmos a sensibilidade. Ainda que o sequestrado ou o finado não faça parte de nosso círculo de pessoas estimadas, convém respeitar a dor e preocupação do próximo. Solidariedade, respeito e retidão são valores que não devem nunca deixar de existir, não importa quão veloz sejam a criação e o descarte de nossas tecnologias. São valores que fazem do ser humano um ser evoluído, junto da tecnologia fantástica por ele criada.

O espetáculo de nossas favelas.

por Eliane Freitas

Na cultura de espetáculo sob a qual vivemos, as imagens podem nos cegar e nos contar meias verdades – as verdades convenientes. Da política ao esporte, da violência cotidiana aos best sellers atuais,  somos constantemente atingidos por espetáculos, os quais podem moldar nossos conceitos e opiniões, os assuntos que nos importam e nos transformar em meros espectadores e consumidores do que quer seja, de valores morais a tênis e carros.
E é sob essa cultura do espetáculo, potencializada pelas diversas tecnologias cada vez mais eficientes de captar e disseminar imagens e conceitos, que pode surgir um meio de combate a crimes e abusos de autoridade cometidos por policiais, um problema da sociedade brasileira.
A ONG americana Witness (Testemunha), em parceria com o governo municipal de São Paulo, trouxe à cidade um projeto de capacitação audiovisual intitulado Moinhos de Imagens, através do qual moradores da favela Moinhos aprenderam a utilizar câmeras fotográficas equipadas com microfones e até projetores de luz. A intenção é incentivar e ensinar moradores a registrar imagens de eventuais agressões cometidas por policiais ou mesmo agentes municipais, como fiscais de subprefeituras. O incentivo de registro de imagens de “batidas” policiais promovido pela ONG ficou famoso em Nova York em 2012, quando a política de segurança pública do então prefeito Michael Bloomberg consistia em revistar qualquer cidadão suspeito. Apesar do “qualquer cidadão suspeito”, em 2013 a ONG levantou que 87% dos jovens revistados eram negros e pobres. Agora a ONG traz seu método ao Brasil, que será aplicado também em outras favelas de São Paulo.
Segundo o vice-presidente da União dos Moradores de Paraísópolis, Joildo dos Santos, que já incentiva os moradores da comunidade a registrar imagens de abusos policiais, “quando você compartilha um vídeo de violência policial na internet, a sociedade inteira passa a fazer a cobrança por uma postura melhor da polícia”.
Eis Joildo dos Santos, que faz uso de espetáculo para beneficiar sua comunidade. Eis a sociedade na qual vivemos, a que tudo registra em imagens e que busca imagens de tudo. Eis o espetáculo que serve ao mal, mas que também pode servir ao bem.

Fonte: O Estado de São Paulo, de 14/12/2014.

“Só sei que nada sei”

Como dizia o filósofo Sócrates, um dos pensamentos mais conhecidos por nós seres humanos. Com o passar do tempo, podemos acreditar que a sabedoria ultrapassa nossos limites e não temos como percebê-la na sua totalidade. O verdadeiro sábio é aquele que se coloca na posição de eterno aprendiz, afinal por mais que ele soubesse muitas coisas, isso não era nada perto de tudo o que ele ainda tinha para conhecer. Essa eterna frase nunca esteve tão presente em nosso cotidiano, onde vemos constantemente nossos representantes ecoarem uma frase bem parecida com a do eterno pensador: “Eu não sei de nada, eu não sabia do mensalão”. Quem já não escutou isso em um passado não tão distante? Novamente estamos diante da mesma situação, só que agora em relação à calamidade de um dos bens mais preciosos do nosso país, a Petrobrás, uma das principais empresas de energia mundial.
A cada dia que passa é noticiado pela mídia mais e mais escândalos em relação a corrupção que assombra uma de nossas principais empresas estatais, e com certeza, não só ela. Todas as obras públicas que deveriam servir para o desenvolvimento do país estão sob fortes suspeitas de superfaturamento, onde os principais envolvidos, que deveriam zelar pelo nosso crescimento patrimonial, estão mais interessados no enriquecimento próprio.
A mídia, principal responsável de fornecer as respostas que a população necessita sofre a cada dia com a pobre resposta de que nada sabem daqueles que deveriam prestar esses esclarecimentos. É uma tarefa árdua e contínua em busca da verdade, devendo investiga-la a fundo para preservar a saúde de um país considerado em plena expansão.
Nessa situação a frase citada está relacionada não só com a omissão dos crimes realizados, como também sobre o desconhecimento que ainda nem tivemos ciência que acerca a corrupção no país, capaz de denegrir ainda mais a imagem perante ao um cenário mundial econômico. Esses escândalos são capazes de comprometer o futuro da nação por muitas gerações, afinal o risco Brasil está aumentando gradativamente ao ser noticiado todas essas suspeitas. É sem dúvida um mal necessário que devemos passar para termos a esperança de um futuro melhor.
Esperamos como nunca escutar essa frase em seu sentido natural, de que devemos buscar constantemente conhecimento para evoluirmos e trabalharmos para um país digno, onde sejamos capazes de viver em prol de um crescimento contínuo e duradouro, afinal o verdadeiro sábio não é aquele que se coloca como um eterno aprendiz?

Educação do futuro

Por Maiara Martines

Apesar de não ter planos próximos sobre filhos, sempre me pego pensando em como seria a educação dele. E toda vez que esta ideia se passa pela minha cabeça eu olho ao redor e reflito sobre como as pessoas são educadas atualmente. Tenho e tive vários exemplos, como a minha própria educação, o ano em que vivi como babá na Irlanda, minha prima com um filho pequeno, meus avós, amigos, e por aí vai…

Educar é uma palavra muito forte que remete a uma grande responsabilidade dos pais e das escolas. Sabemos que a educação de uma pessoa pode ser associada a muitas questões, mas as duas figuras citadas acima são essenciais de qualquer forma. E a escola é um dos temas que mais me preocupa… Afinal, será que o sistema de educação brasileiro está no caminho certo?

Outro dia conversando com uma colega de trabalho sobre escolas, ela disse que seu filho começou estudando em um colégio do método Montessori (clique aqui e conheça mais), mas que ele estava ficando muito “atrasado” em relação às crianças de escolas comuns e decidiu mudá-lo para outra escola tradicional e bem mais “puxada”. Depois disso me questionei sobre o que seria esse atraso?

Durante praticamente todo o ensino fundamental eu estudei em escola pública e conheço de perto todos os problemas existentes financeiros e estruturais. Logo que tive oportunidade de mudar para uma escola particular me deparei com um problema diferente, uma gastrite nervosa aos 13 anos. Eu estava atrasada em relação aos outros jovens e não podia suportar essa ideia, eu me cobrei mais que meus pais, queria ter um futuro brilhante como todos.

A convivência entre escolas estaduais e particulares (e olha que foi grande, pois mudei cerca de 8 vezes) me fez ver que não existe um modelo ideal e que eu aprendi muito com todas as diferenças. Mas poderia ter sido mais fácil, a busca pelo “melhor”, pelo “certo”, fez com que eu perdesse muito tempo preocupações, com uma gastrite nervosa, construísse poucas amizades, quando eu deveria estar aprendendo e conhecendo.

O caminho certo para educar talvez seja não ter medo de errar!

“Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda efetividade. De fato, o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem cegar-nos. Mas é preciso dizer que, já no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou cientifica.  A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo.” (Edgar Morin no livro Os sete saberes necessários à educação do futuro).