“Ele já sabia, Ele sempre sabe”

Por Paula Fraile Fonseca

“Comecei no estágio novo super empolgada, eu achava aquele professor o máximo, extremamente inteligente, detalhista, perspicaz, minucioso, brilhante. Como poderia ser ruim? Até que as coisas começaram a ficar esquisitas, vários presentes injustificados, mensagens por WhatsApp totalmente fora do contexto do trabalho (P.ex: “sou seu fã”, ou “você é demais”) e fora de hora, muitas, muitas, muitas, perguntas de cunho pessoal. Na época eu desconfiava, mas pensava: acho que não, ele é professor da UnB, me deu 1 ano de aula, é procurador do DF, tem um currículo e uma reputação impecável, é casado, ele não faria isso”.

Esse foi o depoimento de Ariadne Wojcik em sua página no Facebook. Logo depois da postagem, a jovem cometeu suicídio. Seu corpo foi encontrado nesta quarta-feira, dia 9, em um ponto turístico da Chapada dos Guimarães, a 65 km de Cuiabá.Ariadne se referia ao professor da UnB, Rafael dos Santos, que também atua como procurador do Distrito Federal.

No relato, a advogada descreve claramente os passos do terror psicológico que um sociopata pode causar em outro ser humano. A vítima começa como uma “subordinada” do agressor que a coloca em um topo psicológico para começar a tirá-la de lá – no caso, o pedido por uma vaga de estágio, a alegria da jovem ao conseguir o novo emprego com alguém que admirava – e desse topo os abusos se desencadeiam, destruindo a autoestima da vítima. No caso de Ariadne, que apresentava um quadro de depressão, todo o processo foi ainda mais fácil de ser conduzido. Após um longo processo de stalking, onde Rafael tinha conhecimento de fatos detalhados sobre a vida da estagiária, Ariadne deu cabo da vida. A suspeita é de que ela chegou no Mirante em um táxi e se jogou logo em seguida.

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A carta aberta de Ariadne Wojcik no Facebook.

A réplica do professor às acusações também soa bastante clássica. Segundo o procurador, um dossiê que provaria sua inocência já havia sido elaborado, mas Rafael não o entregou à reitoria da UnB para preservar a aluna. A defesa alega que Ariadne era quem perseguia o professor e se apoia também em seu diagnóstico de depressão profunda, entre outras alegações infundadas.

Mais um caso de uma mulher sofrendo assédio. Mais um caso de diminuição de uma patologia que se espalha como um vírus pelo mundo. Mais um caso de abuso de poder. Abstenho-me de comentários.

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  1. Tania Lisboa

    Lamentável… O procurador/professor já havia feito um dossiê que prova sua inocência e só não entregou à reitoria da UnB para não prejudicar Ariadne, muito bonzinho, né? Ahhh francamente!!! O discurso de defesa desse homem me deixa enojada e amedrontada. A culpa é sempre da mulher, e nesse caso uma mulher com diagnóstico de depressão profunda… Uma moça depressiva teria disposição para perseguir alguém?

  2. Gregório

    Mesmo no fracasso devido a uma injustiça, não vale a pena se suicidar. A maior vergonha é ser um corpo morto jovem, é um horror, eu tenho horror ao luto de familiares. Deveria ter vivido muito mesmo a vida não fazendo sentido. Esse é meu lema de vida e por isso sou odiado por pensar assim. Mesmo que a vida não faça sentido, viva ate onde for possível, deixa pra morrer na terceira idade. Olhem pra dentro em vez de olhar para fora, olhe pro amago do seu ser.

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