O Eleitor Onisciente

Por Paula Fraile Fonseca

Na tarde do último domingo, dia 30, Marcelo Crivella, candidato do PRB, foi eleito prefeito do Rio de Janeiro com uma vantagem de 59,36% dos votos válidos sobre Marcelo Freixo, do PSOL. Vitória já esperada da direita, a grande vencedora das eleições municipais. Retrato da crise política no país.

Retrato esse retificado pela quantidade de votos não válidos por todo país – o que inclui a presidente eleita Dilma Rousseff e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que decidiram não votar no segundo turno. No próprio Rio a quantidade de votos nulos, brancos e a abstenção foi maior do que o percentual de votos de Freixo e Crivella somados no primeiro turno. No segundo turno o “não voto” superou novamente o percentual de Freixo: 1.163.662 votos (40,64% dos votos válidos) do candidato, enquanto o número de cariocas que não foram às urnas chegou a 1.314.950 – o equivalente a 26,85% do eleitorado. Os votos em branco somaram 149.866 e os nulos, 569.536. O candidato do PSOL, inclusive, se aproximou dez pontos percentuais de Crivella na última semana de campanha engajado em mudar os votos não válidos. Cada voto fazendo a diferença, ao menos nas pesquisas.

É o povo cada vez mais exausto e avesso à política, apesar da grande reviravolta que teve Brasília como palco, da saída de Dilma Rousseff do poder, da Operação Lava Jato ou do dito heroísmo de Sérgio Moro. A própria campanha de João Dória, que teve vitória esmagadora em São Paulo com mais de três milhões de votos, fora baseada na justificativa de que o candidato não é político, é empresário. Ponto para a mídia; ponto para a manutenção dos poderosos no poder.

O cidadão claramente quer uma reforma política, mas se nega a repensar a democracia. Abstém-se de impactar o sistema político, de narrar uma história ao lado de outros milhões, um voto por vez. Não narra porque não sabe que participa de tudo. Esquece que está intrinsecamente ligado à política, como qualquer cidadão, mas é tão cegado por tantos fatores – entre eles o midiático – que se abstém de escrever a história do país. Narrador de visão turva: pensa-se onisciente; é narrador-personagem de uma eleição, mas não vê.

Anúncios

  1. Mayra Sartorato

    Ai Paula, que saco concordar com tudo o que você diz! Como é ruim pensar no futuro quando, claramente, muita-gente se absteve de fazê-lo. É, indo para o clichê, uma questão de educação: nos falta conhecimento de política. Quem sabe como funciona nossa democracia não deixaria de votar em uma situação como essas… Falta opção? Sim! E muita! Mas, de verdade, de que nos adianta observar nosso amanhã sendo escrito e não fazer parte da criação dessa história?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s