Uma coleção sobre o Brasil

Por Paula Fraile Fonseca

maria-filo-racismo

 

“Hoje fui procurar umas blusinhas legais para comprar e entrei na loja da Maria Filó […] Começo a olhar as roupas e me pergunto: ‘Confere? É uma estampa de escravas entre palmeiras.’” Esse foi o relato, via Facebook, de Tâmara Isaac, 29 anos, servidora pública. Mulher, negra.

A grife carioca Maria Filó, consolidada no mercado desde 1997, pôs à venda em uma de suas últimas coleções, batizada de “Pindorama” – local mítico na cultura tupi-guarani – uma estampa que retrata duas mulheres negras, com uma iconografia clara à escravidão. Tâmara, ao perguntar à vendedora do que se tratava a peça, ouviu uma resposta amarga: “É uma coleção sobre o Brasil.” Não suficiente, quando procurada, a grife emitiu uma nota dizendo que a estampa buscou inspiração na obra de Debret. A obra é de Johann Moritz Rugendas e o título é “Negras no Rio de Janeiro”, uma litografia de 1835.

Me pergunto qual o retrato real que essa releitura em forma de estampa corrida passa, no atual momento histórico. Me vêm à cabeça o mercado de moda no Brasil e meu discurso de sete anos como profissional nesse mercado: “O brasileiro tem que aprender a consumir moda do Brasil!”, e me pego aqui, com essa síndrome de vira-lata tão comum ao nosso povo, que me permito sentir em momentos como esse.  O próximo momento é de desilusão com a educação do país, não só de moda, mas de maneira geral, que tende, com o atual viés político, piorar consideravelmente. Inclusive as aulas de História do Brasil. Aulas às quais o estilista claramente faltou.

Mas o primeiro pensamento, o mais amargo, foi a vergonha perante a essa consumidora. Vergonha que envolve todos as vergonhas já citadas. Vergonha pelo dia em que uma mulher negra quis consumir moda brasileira, entrou em uma loja de raiz carioca,  viu o retrato de um país de histórico racista e desigual e ouviu que aquele retrato era uma coleção de moda sobre o Brasil.

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  1. Mayra Sartorato

    Eu adicionaria uma “vergonha” à lista: a de pessoas que compraram essa peça e normatizaram a estampa. Na verdade, adicionaria também as pessoas que viram a estampa e sequer mentalizaram o que ela pode significar para um grupo grande de pessoas que vivem no mesmo país que ela.

    • Paula Fraile Fonseca

      O que dá medo é a PEC. Se o país parar de investir na educação, o que vira? E um adendo: a pessoa que criou essa peça COM CERTEZA era uma pessoa suportamente instruída, formada em moda por alguma faculdade caríssima.

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