O perigo de uma única história. Sobre o Brasil.

Fernanda Marques

Carnaval. Futebol. Samba. Pelé. Florestas. Amazônia. Mulatas. Quem nunca ouviu um estrangeiro dizer pelo menos duas dessas palavras ao se referir ao Brasil? É verdade que adoramos o Carnaval, temos paixão pelo futebol e orgulho da Floresta Amazônica. No entanto, é um erro afirmar que o país se resume a isso.

Em maio de 2015 estive em Nova Iorque pela primeira vez. Ao visitar a sede da Organização das Nações Unidas, ONU, na cidade, encontrei uma delegação da Nigéria e fiquei com vontade de me comunicar. Quando disse que era brasileira, ouvi, infelizmente, menções ao samba, ao futebol e ao Ronaldo “Fenômeno”.

Um dos principais responsáveis pela solidificação dessa imagem folclórica e caricata do nosso país, acredito, é Hollywood com seus filmes fantasiosos. Em seu documentário O Olhar Estrangeiro (2006), Lucia Murat aponta exatamente longas-metragens que mostram o Brasil de maneira depreciativa e destacam características típicas de forma exacerbada, além de deixarem evidente um total desconhecimento da nossa cultura. Como no filme Próxima Parada, Wonderland, de 1998, dirigido por Brad Anderson, por exemplo, que retrata um personagem brasileiro que fala espanhol.

Tendo estreado no mesmo ano em que o documentário de Murat foi lançado (2006), o filme Turistas é mais uma obra hollywoodiana que entra para essa lista. Em entrevista a um jornal dos Estados Unidos, Michael Ross, roteirista do filme, afirmou que o longa é baseado na realidade e em situações que “poderiam” ter acontecido. Explica ainda que, para escrever o roteiro, ele e o diretor John Stockwell viajaram de ônibus pelo litoral da Bahia durante três meses e meio e coletaram informações sobre as paisagens e a população local para adicionar realismo às cenas. Diz também que a ideia de Turistas nasceu de uma história real que ouviu no rádio sobre um boato que corria na América Latina de que americanos e europeus sequestravam crianças locais para retirar seus órgãos e vendê-los no mercado negro. Segundo o roteirista, esse boato teria motivado diversos ataques a turistas nessa região, e que os visitantes teriam sido espancados, esfaqueados e queimados pela raivosa população local. Com tomadas que mostram o Brasil como um lugar sem regras e repleto de habitantes sem caráter, a película retrata uma quadrilha traficante de órgãos que pratica verdadeiras barbaridades contra um grupo de turistas. Pode ser classificado como do gênero suspense ou até mesmo terror e poderia ter como endereço central qualquer outro país. Porém, John Stockwell pesou a mão e recebeu críticas muito negativas de diversos veículos, inclusive dos norte-americanos.

O grande jornal Los Angeles Times, por exemplo, publicou: “ […] mais da metade do longa é construído em cima de ideias idiotas. […] o cenário brasileiro estereotipado, com caipirinhas rolando soltas e gatinhas de biquíni, se encaixa naturalmente no gênero terror-adolescente, que, no fundo é enraizado na noção de punição”.

A propósito dos filmes hollywoodianos, Jameson recorda que após a 2ª Guerra Mundial países como Alemanha, Inglaterra e Itália sofreram com a “invasão” de películas estadunidenses e tiveram que rever a política de sua indústria cinematográfica. Para o autor, “a destruição nacional do cinema – juntamente com a destruição potencial da cultura local como um todo – é exatamente o que se constata hoje em dia no segundo e no terceiro mundos”. Ou seja, o poder de Hollywood e suas produções milionárias facilitam a disseminação da cultura norte-americana e, consequentemente, contribuem para o desaparecimento das tradições e particularidades locais.

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