Notícias do Planalto

Fernanda Marques

Foto oficial do presidente Fernando Collor de Melo.

Foto oficial do presidente Fernando Collor de Melo.

Tenho aproveitado o tempo livre para, entre outras coisas, revisitar alguns livros. E tenho flertado muito atualmente com Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, que li na faculdade de jornalismo. Lançado em 1999, o título é uma reportagem com mais de 700 páginas, que retrata o pleito presidencial de 1989 e os primeiros anos do mandato de Fernando Collor, que não chegaria ao fim, assim como todas as denúncias e investigações que culminaram em seu impeachment.

O livro também é um dos primeiros no Brasil a registrar como funciona o processo de tomada de decisão nos grandes jornais, nas revistas e nas emissoras de televisão do país. Além disso, o autor traça um perfil minucioso dos principais protagonistas da história, assim como descreve os veículos de mídia.

Conti inicia a narrativa abordando a trajetória de Collor, então governador de Alagoas, que em curto período de tempo virou figura fácil nas grandes redações nacionais e passou a ter exposição nos principais veículos, capa após capa, entrevista após entrevista. Foi assim que o político construiu sua imagem e chegou à presidência da república.

Ao longo da leitura é possível perceber as relações pessoais entre o candidato e os principais mandatários da mídia brasileira, numa época em que os empresários proclamavam sua opinião política abertamente, assim como o interesse econômico das organizações de comunicação exercia grande influência na cobertura política.

Um dos pontos altos do livro é, sem dúvida, a polêmica em torno do debate realizado entre Collor e Lula no segundo turno das eleições, graças à edição exibida no Jornal Nacional, na véspera da votação. O texto narra os bastidores e as decisões do então responsável pelo jornalismo da emissora, Armando Nogueira, de Roberto Marinho e de outros nomes importantes no processo. Vale ressaltar que podemos encontrar vários trechos e afirmativas sobre a preferência do dono da emissora pelo candidato de Alagoas, como retratado abaixo:

“Um mês depois do discurso de Covas, Roberto Marinho tinha um candidato: Fernando Collor. Numa entrevista a Neri Vitor Eich, da Folha de S. Paulo, declarou não acreditar que Covas tivesse ‘condições e se eleger’ e julgou Collor ‘mais assentado, mais ponderado e mais equilibrado, com suas boas ideias privatistas’, do que os outros concorrentes. Se o candidato continuasse nesse caminho, acrescentou, ‘vou influir o máximo a favor dele’. Dito e feito” (páginas 167-168)

“Na condensação do Jornal Nacional, Lula falou sete vezes. Collor, oito: teve direito a uma fala a mais que o adversário. No total, Lula falou 2 min22s e Collor, 3min 34s: 1 min 12s a mais que o candidato do PT. No resumo do JN, Collor foi o tempo todo sintético e enfático, enquanto Lula apareceu claudicante, inseguro e trocando palavras (cerca em vez de seca) […] Mas é impossível defender que o “Jornal Nacional buscou espelhar o debate de modo neutro e fiel: dar 1min 12s a mais para Collor foi uma maneira clara de privilegiá-lo” (páginas 269-270).

Conti escreve também sobre a queda do presidente e retrata a perseguição sofrida por alguns jornais, como a Folha de S.Paulo. O autor nos lembra que o irmão, Pedro Collor, já andava às turras há anos com o presidente por conta da gestão dos negócios da família quando concedeu a entrevista à revista Veja, em que denunciava todas as irregularidades cometidas por PC Farias, com o conhecimento de Collor.

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Após o depoimento de Pedro, novas denúncias surgiram. E a ameaça de impeachment fez o presidente renunciar ao cargo, mesmo não tendo sido incriminado pela Justiça.

Sem dúvida, uma ótima leitura! Eu super recomendo.

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