Me julgue pela capa!

 

 

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Por Naira Anjos

Há aproximadamente 14 anos, o Programa Monumenta – um projeto de recuperação do patrimônio histórico urbano brasileiro tombado pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural), em articulação com o projeto da prefeitura de São Paulo, Reconstruir o Centro, causou certo alarde entre a população devido ao início da implementação de câmeras de segurança na região central da capital paulista.

A implementação ocorreu e se expandiu por toda cidade e muitas pessoas, naquela época, questionaram a invasão de privacidade e a constante sensação de estarem sendo vigiadas.
Hoje é muito raro entrarmos em um ambiente que não contenha a placa “Sorria, você está sendo filmado” – uma demonstração de que as novas técnicas de vigilância tornaram-se, de lá para cá, naturais aos olhos do ser humano, uma disseminação do panóptico.

Hoje, na era pós-moderna, fico imaginando como se encaixaria o termo privacidade quando as pessoas fazem questão de serem vistas. Cada vez mais, elas expõem suas atividades diárias e, muitas vezes, momentos íntimos.

Inconscientemente ou não, as pessoas ao ingressarem nas redes sociais criam certa expectativa sobre sua audiência, e se preocupam com o papel que irão representar na rede aos olhos de quem as observam.

A foto escolhida do perfil deve valorizar os atributos do seu usuário. Os filmes selecionados como favoritos, os lugares marcados nos check-ins, são escolhidos com certo cuidado. E assim, cria-se um ser que não necessariamente corresponde com o que a pessoa realmente é.

Ninguém é completamente culto, feliz, sem adversidades. Ninguém é completamente reclamão, preocupado com o tempo, ou filósofo. Criador de frases impactantes, de autoajuda, fazendo o seu papel social.

Uma vez que a privacidade abriu espaço para o exibicionismo, não estamos criando seres a partir do queremos ser? E talvez, a partir do que queremos ser para as outras pessoas, não necessariamente para nós mesmos.

Assim como podemos julgar um livro pela capa, as redes sociais podem cumprir o mesmo papel: apenas uma maquiagem ou camuflagem, numa Sociedade de Controle, na qual as pessoas cada vez mais têm dificuldades de se aceitarem como são e principalmente, dificuldades de se relacionarem.

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