Admirável mundo da infância

Por Carolina Klautau

Acima, em dez andares sucessivos de dormitórios, os meninos e meninas ainda pequenos a ponto de precisarem de uma sesta, estavam tão ocupados como os demais, embora não o soubessem, ouvindo inconscientes lições hipnopédicas de higiene, sociabilidade, consciência de classe e vida sentimental do bebê. Acima deles ainda estavam as salas de recreação, onde 900 crianças mais velhas se divertiam com brinquedos de construção, modelagem, quebra cabeças e jogos eróticos

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley. 1932

No livro “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley constrói um universo diferente para as crianças e seu papel social. Na distopia do escritor inglês, todos tem uma função, um uso específico para a manutenção do sistema. Com os mais jovens não é diferente. As crianças, desde cedo, eram treinadas para continuar a perpetuação da sociedade futura. A ideia de Huxley não era inovadora. O pensador suíço, Jean Piaget, já havia identificado que, uma vez na sociedade, as crianças já foram vistas como “adultos”.

No século XVI, fazia parte do costume da época associar às brincadeiras sexuais dos adultos sem nenhuma reserva, com a adoção de linguagem vulgar e grosseria de ações e de gestos obscenos, de brincadeiras que envolviam sexo etc. A criança era considerada alheia e indiferente à sexualidade.

Atualmente, existe um cuidado especial para com as crianças. Elas são vistas como seres que precisam de atenção para sua formação, cuidados com o que ouvem, leem e consomem de maneira geral. O fato é que, assim como na sociedade de Huxley, as crianças também parecem exercer função na sociedade. Os mais jovens são peça fundamental para a manutenção da nossa sociedade de consumo. A elas são dedicados comerciais, produtos, desenhos, filmes, livros… O mercado descobriu que as crianças são importantes agentes do consumo.

É curioso que com tantas iniciativas para proteger as crianças do consumismo, elas ainda ilustrem campanhas que fazem exatamente o contrário: influenciem-no cada vez mais. “Compre Baton”, por exemplo, é um caso desses. Parece que a campanha é feita para os pais, mas é uma criança que aparece e é ela quem fala à quem está do outro lado da TV.

Um caso chamou bastante atenção das associações que trabalham pelos direitos da criança. O criador das histórias da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, uma das mais queridas das crianças do país, postou em seu Instagram, foto de uma criança que pede que seu direito de ver propaganda infantil seja respeitado. É estranho que uma atitude como essa venha de alguém que teve, por tantos anos, a sensibilidade de criar histórias com valores como respeito e amizade para as crianças.

20140411-Mauricio

Atitudes como essa mostram que ainda é preciso defender – e muito – as crianças do universo adulto.

 

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